Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
23 ago 2010
Poucas coisas dão tão bem a noção do inevitável quanto a água a subir pela privada com a válvula da descarga emperrada. Durante um ou dois segundos, você chega a acreditar que ela vai parar. Quando descobre que isso não passa de ilusão.
A distância que há entre o que era paz e chão seco e aquilo que é o inferno e um apartamento inundado pode então ser medida nos centímetros cada vez menores entre o nível da água e a beira do trono.
Corri para o registro que fica acima do chuveiro e o fechei. E a água já muito perto de entornar. A válvula ainda muito empolgada no seu ofício de jorrar. Corri para o registro que há na parede da cozinha, também sem resultado. Péssima hora para descobrir que a descarga é independente do resto do sistema hidráulico do apartemento.
- Eu não entendo por que os engenheiros fazem isso – eu ainda ouviria do encanador no dia seguinte.
Então escutei o que parecia ser uma cascata.
A coisa começou a transbordar. Incrível como rapidinho o banheiro ficou inundado e a água já começa a invadir o corredor sem respeitar fronteiras.
Esse é um dos momentos solitários do homem que, de repente, se vê incapaz de enfrentar as forças da natureza. Derrotado por duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio, comecei a imaginar a escada do prédio transformada em uma corredeira. Filosoficamente falando, eu quis chamar a mãe.
Tudo começou no final da tarde, quando ouvi aquilo que poderia ser um riacho ou uma daquelas pequenas fontes com flores de plástico que as pessoas compram para colocar no meio da sala. Como não tenho uma fonte dessas ou, o que seria mais provável, um riacho, decidi verificar se havia esquecido a torneira do banheiro aberta. Estava fechada. A origem do som estava ali bem próxima. Sim, na privada, onde uma fina torrente escorria.
Acho que tudo iniciou ainda antes. Na noite anterior. Comentei durante uma conversa que desconfiava da existência de fantasmas em minha casa. Não sei exatamente como cheguei até aquele ponto, mas em determinado momento eu disse que se eles quisessem morar por ali poderiam ficar com o espaço que havia entre o banheiro e a cozinha, na parede. Afinal, eram fantasmas e para eles seria possível, até confortável.
Não preciso dizer que brincava, visto que não acredito em absoluto em fantasmas e, caso acreditasse, desaprovaria que dividissem comigo qualquer espaço que fosse.
Mas também desnecessário é falar que é justamente ali, na parede que há entre banheiro e cozinha, que boa parte, se não todo, encanamento da casa se localiza.
Olhei para a água que escorria e ouvi o som suave que ela fazia, que seria até mesmo relaxante, não fosse a sua origem. Levantei a tampa que havia na válvula e verifiquei uma espécie de registro marcado com a palavra “fechar” e uma seta curva que apontava no sentido horário. Cuidei de girá-la nessa direção. E observei que o vazamento cessou. Apertei o botão e vi, porém, que não saía mais água alguma. Imaginei-me a ir de lá para cá com vasilhas depois de usar o banheiro.
Por achar essa imagem por demais alegórica, girei o registro para o lado contrário e testei. Nada novamente. Muito bem. Agora eu tinha escangalhado com o negócio. Resolvi fechar todos os registros gerais, o da água quente e o da água fria. Mas não fazia sentido e os abri novamente. Testei as torneiras e, agora, nenhuma funcionava. Escangalhei mesmo com a coisa toda. Considerei a hipótese de, por ter mexido tanto na válvula, ter bombeado ar para dentro dos canos.
Então, o telefone celular tocou.
- Alô?
- Alessandro?
- Sim.
- Opa. Aqui é da Bacana Veículos. Só estamos esperando seu cheque…
- Como?
- 9191 9191?
- Isso.
- Alessandro?
- Isso.
- O senhor não esteve aqui na Bacana Veículos comprando um caminhão?
- Nunca estive na Bacana Veículos e nunca pensei em comprar um caminhão. Sou jornalista e jornalistas não costumam ter esse passatempo.
- Bem. Ok. Deve ser um grande engano.
Voltei ao problema. Abri todos os registros que eu havia fechado.
O telefone. De novo.
- Olha. Eu não comprei nenhum caminhão e nunca estive aí.
- Oi!
- Oi, Patrícia…
- Vamos?
Ah, sim. Eu tinha combinado com ela. Com os registros gerais todos abertos fechei todas as torneiras sem exceção para evitar problemas. Mas, no meio do passeio, o receio de subitamente a privada voltar a funcionar me inundou. Aquilo começou a me atormentar como um demônio. Tive de voltar.
O porteiro:
- Olha, a água já voltou…
- Como assim? A água tinha acabado?
- Pois é. Tinha.
Isso explicava muita coisa. Abri as torneiras e o chuveiro. Tudo cuspia como se estivesse engasgado. Ar nos canos. O vazamento na privada, porém, ia de vento, ou água, em popa, com seu suave murmúrio. Resolvi dar um jeito naquilo. Como não tinha a ferramenta apropriada, usei o amassador de alho para fazer uma alavanca para girar aquele registro dos infernos. E deu certo. Parou. Mas a descarga não funcionava mais.
Foi quando decidi desmontar aquilo de uma vez e soltei todos os parafusos quantos foram possíveis, com direito a molas e pequenas peças de plástico – que aparentemente sobravam por ali – caindo na água. Então resolvi testar e apertei aquele interruptor. Sem a mola ele não voltou automaticamente e começou a inundar a casa.
Até que, depois de descobrir que nada desligaria aquilo, eu consegui puxá-lo da parede. Você sabe. Como Rei Arthur puxou Excalibur da pedra. Mas um pouco mais úmido e desesperado. E bem menos elegante.
A parte crítica tinha passado. Mas continuava uma fina torrente de desperdício rumo ao esgoto. Montei o negócio todo de volta, do jeito que deu.
Comecei a secar o apartamento com um rodo e todos os panos e toalhas que encontrava.
Então, do fundo da minha resignação, resolvi perguntar para a válvula porque aquilo estava acontecendo.
- Por quê? Por que isso está acontecendo?
E a válvula respondeu. Sim. Respondeu. Essas coisas acontecem.
- Eu estou possuída, Alessandro. Você mandou fantasmas morarem em mim.
- Você fala?
- Bem. Você perguntou uma coisa para mim. Deve achar que eu escuto. Se acha que eu escuto, não deveria ficar espantado apenas por que eu falo.
Devo admitir que para uma válvula de descarga ela entendia bastante de lógica.
- Ok.
- Há fantasmas morando em mim, como eu disse. Eles me quebraram. Aqui dentrinho.
- Putz. Então, nada a fazer. Vou chamar o encanador amanhã. Trocamos a peça quebrada e pronto. Quanto aos fantasmas, eu os exorcizo em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém – disse isso enquanto dava pancadinhas nos azulejos e fazia o sinal da cruz com o polegar sobre eles.
Ouvi os gemidos das almas penadas a deixar a parede.
Abri, mesmo com frio, todas as janelas para ajudar a secar o ambiente e para que os espíritos sem luz buscassem outras paragens para se alumiar.
No dia seguinte, o encanador.
- Olha, parece que tem uma pecinha quebrada lá dentro. Tem que trocar todo o miolo.
Trocou.
- Olha, pra ser sincero, acho que esta válvula estava possuída.
Ótimo. Sem novidades. O mercado de bombeiros-hidráulicos-exorcistas continua a crescer.
O cara vai embora. Nem dez minutos, tocou o telefone novamente. Não. Era o interfone. O porteiro:
- Olha. Tem um cara aqui de uma tal de Bacana Veículos com um caminhão enorme. Diz que você comprou e vai ter que pagar de qualquer jeito.
Fiquei quieto. Ele continuou:
- Diz que também está carregado com umas válvulas de descarga. Umas dez mil.
Sentei-me. Para ouvir melhor e tal.
- É melhor você descer rápido para resolver isso. O cara parece possuído!
10 comentários para "Vida privada"
Hahahahahahaha!
Adorei Alê!
Vou sempre me lembrar desse conto, quando achar que tudo que é impossível só acontece comigo.
Beijocas
HaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHa
HaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHa
HaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHa
HaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHa
e mais:
HaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHa
HaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHaHa
realmente. Muito, muito engraçado.
ahahhahahahahahaha
nada como um pouco de diversão numa manhã cinzenta!!
amei!!
=*
Muito bom Alessandro! O tratamento da narrativa é divertido e original o que faz a leitura fluir (oopps) de maneira fácil e rápida.
Caramba!!! Hahahaha! Que hilário! Eu vivo dizendo que a impressora jato de tinta está possuída… e não é que eu tenho razão? Rs!
hahahahaha…
Sua crônica salvou a minha vida, ou melhor, parte dela…o meu apartamento!
Meu banheiro foi quase inundado pela válvula da descarga emperrada… quando eu achei esse texto. Assim foi que eu descobrí que havia o tal registro atrás da válvula com o escrito “fechar”.
Muito obrigada!
[...] This post was mentioned on Twitter by Alessandro Martins, Ricardo Henriques. Ricardo Henriques said: Vida privada, por @Alessandro_M http://bit.ly/gwJoLK, via @cdiurno [...]
Essa História é minha
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