A questão do umbigo de Adão e Eva já fartou teólogos e até mesmo fóruns da internet com sua duvidosa relevância. Afinal, se eles não estiveram ligados por cordão umbilical algum a útero, não deveriam tê-lo. Na dúvida – e para preservar a plasticidade de suas obras – a maior parte dos artistas importantes os pinta com o detalhe. E provavelmente por considerarem essa questão pouco relevante e preferirem não pensar muito no assunto.

É notável que normalmente se esqueça que o umbigo é na verdade uma cicatriz. Também como notável é que a sociedade ocidental que desperta para o século 21 tenha voltado seu nariz justamente para ela. É difícil saber o que esperar de uma humanidade que faz isso. Afinal, para obter uma cicatriz é preciso que antes haja um ferimento mais ou menos grave.

Nem toda cicatriz significa uma ruptura com um estado anterior, mas toda ruptura com um estado anterior deixa uma cicatriz, símbolo ou lembrança da antiga condição.

O umbigo é das manifestações mais físicas disso. Todo ser humano, todo mamífero porta um. Uma afirmação de que um dia você foi um ser aquático, que vivia em um útero, enclausurado, flutuante e feliz a se perguntar se, afinal, havia vida após o nascimento. Ao sair dali, passa por uma mudança brusca. Seus pulmões, antes colabados, precisam instantânea e dolorosamente aprender a respirar, seu corpo atravessa uma passagem apertadíssima e estrangulante, expulso do que seria o paraíso, e sua pele – coberta por uma mistura de placenta, sangue e resquícios de líquido amniótico – conhece agora um ambiente seco. Há luz e formas sem significado e seus olhos doem. E a ligação que existe entre você e o útero é desfeita.

Resultado?

Umbigo.

As sociedades primitivas e algumas ditas evoluídas costumam fazer ritos de passagem que não se enfrenta sem ficar com algumas marcas. É uma maneira de dizer que você já fez parte de outro mundo e agora faz parte de outro. Quem já faz parte desse novo mundo o reconhece e quem não faz o teme ou respeita ao ver essa marca. Como se compartilhassem o mesmo espaço e, ainda assim, seus universos fossem distintos.

Outra coisa notável no umbigo é que cicatrizes redondas como ele são incomuns. Normalmente têm o formato de uma linha. Daí o úmbigo, tão redondo e sujeito a órbitas, ser uma espécie de novo geocentrismo pagão e, até, cristão.

Será preciso um novo Renascimento para que se descubra, embora seja tão óbvio, que o centro do Universo é outro e que os planetas não giram em torno da barriga de cada um de nós. Isso não é possível.

Afinal, todo mundo sabe que o centro do Universo é o umbigo. O seu.

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