Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
21 jan 2010
A questão do umbigo de Adão e Eva já fartou teólogos e até mesmo fóruns da internet com sua duvidosa relevância. Afinal, se eles não estiveram ligados por cordão umbilical algum a útero, não deveriam tê-lo. Na dúvida – e para preservar a plasticidade de suas obras – a maior parte dos artistas importantes os pinta com o detalhe. E provavelmente por considerarem essa questão pouco relevante e preferirem não pensar muito no assunto.
É notável que normalmente se esqueça que o umbigo é na verdade uma cicatriz. Também como notável é que a sociedade ocidental que desperta para o século 21 tenha voltado seu nariz justamente para ela. É difícil saber o que esperar de uma humanidade que faz isso. Afinal, para obter uma cicatriz é preciso que antes haja um ferimento mais ou menos grave.
Nem toda cicatriz significa uma ruptura com um estado anterior, mas toda ruptura com um estado anterior deixa uma cicatriz, símbolo ou lembrança da antiga condição.
O umbigo é das manifestações mais físicas disso. Todo ser humano, todo mamífero porta um. Uma afirmação de que um dia você foi um ser aquático, que vivia em um útero, enclausurado, flutuante e feliz a se perguntar se, afinal, havia vida após o nascimento. Ao sair dali, passa por uma mudança brusca. Seus pulmões, antes colabados, precisam instantânea e dolorosamente aprender a respirar, seu corpo atravessa uma passagem apertadíssima e estrangulante, expulso do que seria o paraíso, e sua pele – coberta por uma mistura de placenta, sangue e resquícios de líquido amniótico – conhece agora um ambiente seco. Há luz e formas sem significado e seus olhos doem. E a ligação que existe entre você e o útero é desfeita.
Resultado?
Umbigo.
As sociedades primitivas e algumas ditas evoluídas costumam fazer ritos de passagem que não se enfrenta sem ficar com algumas marcas. É uma maneira de dizer que você já fez parte de outro mundo e agora faz parte de outro. Quem já faz parte desse novo mundo o reconhece e quem não faz o teme ou respeita ao ver essa marca. Como se compartilhassem o mesmo espaço e, ainda assim, seus universos fossem distintos.
Outra coisa notável no umbigo é que cicatrizes redondas como ele são incomuns. Normalmente têm o formato de uma linha. Daí o úmbigo, tão redondo e sujeito a órbitas, ser uma espécie de novo geocentrismo pagão e, até, cristão.
Será preciso um novo Renascimento para que se descubra, embora seja tão óbvio, que o centro do Universo é outro e que os planetas não giram em torno da barriga de cada um de nós. Isso não é possível.
Afinal, todo mundo sabe que o centro do Universo é o umbigo. O seu.
3 comentários para "Umbigo, esse pequeno centro do Universo"
Sim. Acredito que tudo começa e termina nesse centrinho. Creio que tudo depende do olhar que se lança sobre isso.
Acho que primeiro a gente aprende que não é o mundo. Primeiro choque. Se recupera. E aprendemos que precisamos de os outros próximos e íntimos, buscamo-los. Outros choques. Se consegue-se passar por essa fase, então, depois, decobrimos que o mundo é muito maior e mais complexo do que o nosso mundinho em familia ou o mundinho marcado pelo centro do nosso humbigo. E outro choque. Ao nos sentirmos tão pequenos, creio que tentamos buscar em comum com outros tentar projetar alguma coisa a mais longo prazo. Tudo tem sua fase. Ninguém nasce consciente de si e do mundo. E creio que “há um tempo para todas as coisas”. Há tempo dos choques, das conquistas e também o do “despertar da consciência”. Uma coisa de cada vez. Para chegar ao altos sonhos e altas consciencias é preciso primeiro fôlego, planejamento e acima de tudo estrutura. Creio que é preciso uma coisa de cada vez.
Essa história de olhar para o próprio umbigo é a maior prova de que o egoísmo existe.
Nem todos somos egoístas, eu por exemplo tenho o hábito de ver o que acontece a minha volta. Levo em consideração se o que vou fazer afetará a vizinhança, me coloco no lugar do outro sempre.
Já passou da hora da humanidade agir assim, creio ser o único meio de sermos realmente Humanos. Vamos tentar?
Adorei o post sobre o beijo grego.
Faz tempo que TENTO escrever sobre o bendito beijo….e fico travada…hahahhahahhahahaha
bjoooooooooooooooGREGO….-:)
Escreva um comentário