Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
15 jul 2010
O tema sobre o qual gostaria de falar agora é gasoso.
Gasoso e delicado, eu diria.
E, como tal, não há como falar dele com muitos rodeios.
O tema é o peido.
A palavra é feia, o som é feio e o cheiro nauseabundo. Aliás, creio que a palavra nauseabundo foi criada depois de um.
Estou certo de que se um peido fosse uma entidade visível ele seria algo horrível que, quando visto, tiraria o sono das pessoas durante noites seguidas.
Se você come, inevitavelmente você tem peidos dentro de si, em maior ou menor quantidade. Isso é mais certo do que ter ética dentro de si. Nem todos tem ética, mas certamente todos, inclusive os éticos, tem peidos.
O potencial destrutivo dos aromas dessa nossa propriedade (ou maldição) mamífera, no entanto, dependem de vários fatores. Por exemplo, dos alimentos e das combinações entre eles que, através das reações químicas, gerarão mais ou menos volume de gases e sulfeto de hidrogênio. Tal sulfeto – como o nome sugere é composto de enxofre – é substância que caracteriza o odor dos peidos nas notas de cabeça, nas notas de coração e, sobretudo, nas notas de fundo, como talvez concorde algum leitor perfumista.
Algum demonologista também há de concordar: enxofre só passou a ser coisa do capeta depois que conseguiram ligar essa substância à flatulência humana e animal. Não tem nada a ver com vulcões e que tais.
Tanto mais rica for sua dieta em enxofre – alimentos como ovos, couve-flor e cebolas – mais poderoso será seu peido. Alguns alimentos, como feijões, produzem gases, mas eles não são capazes de produzir sulfeto de hidrogênio em quantidade suficiente.
Mas, surpresa, a maior parte dos gases responsáveis pelo volume de flatos que o indivíduo vai emitir durante a sua vida é de responsabilidade do ar que ele ingere enquanto come. Portanto, se você come de boca aberta, se você come muito rápido ou se você fala enquanto come, é grande candidato a peidorrento (outra palavra horrosa, mas de grande efeito quando se quer xingar alguém).
Quantos homens e mulheres perderam uma noite inteira de sono por causa disso. Imagine. Encontro, jantar, trepada. Trepada que garante a devida mistura dos elementos. Finalmente, os dois na cama temerosos de cair no sono e, com os músculos, incluindo os esfíncteres, devidamente relaxados, soltar um sonoro e odorífero peido.
Ainda que o seu não tenha cheiro algum – suponhamos que você não como ovos ou cebolas – o som é algo muito característico e patético. E, por outro lado, dizem que os mais silenciosos são os mais facilmente confundíveis com a guerra química (como se acústica estivesse ligada de alguma forma aos efeitos olfativos).
Isso sem falar no medo do erro de julgamento. Sim o sujeito pensa que é apenas gás, mas trata-se do caminhão inteiro de entrega a domicílio. Fatal quando não se está em casa.
O fato é que me admira que a esta altura de evolução tecnológica ainda não tenham inventado algum modo de tornar os peidos mais agradáveis. Para quem os emite e para quem, hoje, ainda tem o desprazer de testemunhá-los. Sim, o indivíduo toma uma pílula e instantaneamente e durante 24 horas, seus flatos terão odores de rosa, jasmim ou, quem sabe, de algo mais másculo.
Eu, aliás, fico pensando por que afinal desde o início da evolução os tais não poderiam ter tido um odor menos deplorável.
- Ora – dirá um sabichão -, porque aí acabaríamos comendo merda.
Mas, meu caro, nem tudo o que cheira bem eu tenho vontade de comer. De outra forma, estaríamos aí com a cara enfiada nos canteiros dos floristas e a beber perfume. Ainda que algumas pessoas façam isso (ou coisa pior), são a famosa exceção confirmadora da regra.
Porém, sendo assim, temos que nos dar por felizes. Afinal, evoluímos de tal modo que um bocejo é contagiante. Ao ver ou ouvir um todos bocejam. Talvez ao ler a palavra bocejo você tenha bocejado. Mas o peido não. O peido não é contagiante. Pois aí sim, eu lhe garanto, teríamos problemas.
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