Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
13 out 2007
Às turbulências.
Às mentiras bem mentidas.
A tudo que voa e não volta.
Ao que morre bem morto.
Chegou bem adiantado para o vôo. Sentou-se na sala de espera. Ao seu lado uma mulher. Lia uma revista semanal, a franja sobre os olhos. Pernas cruzadas, uma tatuagem revelava-se no pé. Um ideograma ou um kanji, não sabia diferenciar. Coisa japonesa, sem dúvida. Sentiu vencer, com o olhar curioso, a distância que há entre os estranhos.
- Bonita.
- Obrigada. Fiz quando estive na França.
- Está voltando pra lá?
- Não. Curitiba.
Pergunta estúpida. Aquele portão não era para vôos internacionais. Ele também ia para Curitiba.
- O que quer dizer? – perguntou ele, com real curiosidade. Ela agora também olhava para o próprio pé como se aquilo tivesse aparecido de uma hora para a outra e também fosse novidade para ela.
- Amor.
Ele observou todas aquelas linhas entrecruzadas, ora mais grossas, ora mais finas, que formavam um desenho extremamente complexo.
- Amor é complicado.
- Pode ser simples. Lê-se “ai”.
- Sim, pode ser simples.
Ele, um outro homem de tantos que ela conhecera e conheceria ainda. Ela, uma mulher que, não fazia muito tempo, perdera o medo de voar.
Sobre amor e paixão
É comum perder-se entre o amor e paixão. Ora chama-se paixão de amor, ora chama-se amor de paixão.
Cada vez mais acho que entre essas duas coisas – são coisas – a diferença está não na intensidade ou na duração de cada uma delas como é comum se pensar. Talvez seja mais fácil encarar essas palavras – são palavras – como algo que diz respeito a uma atitude em relação à vida.
Essas abstrações – são abstrações – não têm caras. E não seriam abstrações se tivessem. Mas por isso, dá-se a elas as feições que mais se deseja, os nomes que melhor soam. E, portanto, ora chama-se paixão de amor, ora chama-se amor de paixão.
Mas a paixão, como a origem grega da palavra diz, pathos, é passional, passiva, algo que se sofre. Como um barco na borrasca, com um leme em vão, com uma vela inútil no vendaval. Não à toa, pathos deu origem também à palavra patologia, que designa doença. Um corpo, de cama, nada pode fazer senão aguardar enquanto busca-se a cura.
O amor, no entanto, é ativo. Não se é escolhido para amar, mas escolhe-se amar. Não importam as circunstâncias, independentemente da paixão. Amor é como um músculo que se exercita. Quanto mais se ama, mais fácil amar se torna, mais simples e natural.
Amar é uma decisão. É preferir ser vento enquanto todos preferem ser a folha que é levada por uma simples brisa.
Quebrem-se os remos, não importa, rema-se com as mãos. Que o barco seja empurrado para o outro lado pelas ondas, dane-se, encara-se o lado para o qual se quer ir e nada-se contra a corrente.
O sentir cotidiano que temos, seja pelo copo d’água, seja por aqueles com quem dividimos o existir, é a gradação entre deixar o barco a deriva ou segurar o timão com força.
Ou simplesmente tomar o leme uma hora ou outra e, de vez em quando, deixá-lo ao sabor da maré para, a seguir, retomar a direção inicial.
Turbulência
Acionei o botão que fazia o sinal luminoso de apertar os cintos acender. Turbulência pela frente na certa. Senti-me tenso. Anos de treino, anos nessa rota e ainda não me acostumei com as turbulências. Turbulências são comuns nesse trecho e nessa época do ano.
Ela veio perguntar-me se eu precisava de algo.
- Melhor ir sentar-se e apertar os cintos. Pelas nuvens, esse passarinho vai balançar um pouco mais do que o habitual.
Passarinho. Não poderia dizer frase mais ridícula.
- Os passageiros estão todos bem? – perguntei, depois de pensar na frase ridícula.
- Estão, comandante.
Como gostaria que ela deixasse, uma vez ao menos, as formalidades de lado.
Há anos ia a Paris e voltava com ela na minha aeronave. Sentia falta quando ela não estava na equipe. Jamais me habituara com a idéia de vê-la. Suava frio. Já ela parecia mais do que acostumada.
- Precisa de alguma coisa, comandante?
As nuvens se elevavam em imensos e fofos tufos para o alto. Diziam sobre mais turbulência à frente. Mas nada diziam a respeito da frustração enorme que eu sentia cada vez que ouvia essa palavra. Comandante.
Segurei forte no manche. Ajeitei o corpo na cadeira.
Apartamento
Tenho um apartamento para arrumar e um texto para escrever. Não sou obrigado a escrever a não ser por um compromisso que assumi comigo mesmo. Pois, aparentemente, ninguém vai me cobrar o atraso de coisa alguma.
A não ser minha consciência. Às vezes tenho a impressão de que só depois de semanas sem publicar é que a polícia vai bater a minha porta para saber se estou vivo. E eu moro do lado da Polícia Federal.
Por outro lado, esse apartamento está uma zona. A bagunça tira um pouco o prazer de escrever. Assim como tiraria o prazer de uma boa trepada.
O sexo não tem o mesmo sabor se vemos uma toalha pendurada em uma cadeira – e ela está ali há uma semana – , louça por lavar, um cobertor que deveria estar no quarto, na sala, roupas limpas a serem guardadas deixadas dobradas no chão e coisas a serem jogadas fora. É sorte não haver alimentos estragados espalhados por aí.
Sexo e escrever pedem um cenário impecável. O ambiente deve ser um convite ao nada fazer. Nada além daquilo que se quer fazer. No momento, porém, tenho uma toalha, roupas, louça e outras coisas a me chamar a outras atividades.
Sem falar num banho a tomar e uma barba a ser aparada.
Acho que não vou acabar este texto nunca.
Preferia uns quatro ou cinco corpos nus aqui, à minha frente. Mas a toalha, as roupas, louça. E outras coisas.
Fantasmas
Como a poltrona vizinha a ele estava vazia, ela decidiu sentar-se ao lado.
- Posso ficar aqui? Se importa?
- Será um prazer.
- Que bom. Tenho medo de voar.
- Tudo bem. Tudo bem ter medo de voar.
- É que eu queria saber… isto é… se é que você não se importa…
- Pode falar…
- Não… é ridículo…
- Agora é um pouco tarde, parece que vai ter que falar… ou acabará ficando mais envergonhada ainda… – disse ele, com um sorriso simpático.
- Sabe o que é?
- Hum.
- Costumava viajar com meu marido. Segurava sua mão nas turbulências – riu – Como se fosse fazer diferença segurar a mão de alguém caso o avião caísse…
- Mas faz.
- Como assim?
- Acho que morrer segurando apertado a mão de alguém é menos triste do que morrer apertando o braço da poltrona.
- Então?
- Então o quê?
- Você se importa, isto é, você se importa que eu segure sua mão caso o avião, você sabe, passe por alguma turbulência? – e timidadamente fez um gesto com a mão que deveria significar “turbulência”.
- Claro que não me importo! Será um prazer.
Ele pensou em falar como achou lindo aquilo, como é muito mais fácil morrer em uma turbulência que expor seus medos bobos a um estranho como ela fez, ou perguntar o que acontecera a seu marido, ou sobre como as estatísticas dizem que morrem muito mais pessoas de coices de mula que em acidentes aéreos, ou sobre como era adorável a maneira como ela segurava o garfo na hora de comer como se aquela refeição de avião fosse o melhor dos manjares, ou como a franja dela insistia em cair sobre os olhos enquanto ela lia uma revista. Pensou em dizer muitas coisas, bobas e tocantes e engraçadas.
Porém trocaram poucas palavras, além daquelas primeiras, desde que ela mudou de lugar. Estava ali só para uma eventualidade. Para o caso de, bem, você sabe.
Então, depois de algumas horas, o sinal luminoso se acendeu. Sem desviar os olhos da revista, ela levou sua mão direita em direção à mão esquerda dele. Pousou sua palma sobre o dorso da dele. Suavemente apertou. Não demonstrava apreensão em seu rosto. O que não impediu de a comissária de bordo, ao sair da cabine do comandante, vir falar diretamente com ela, como se adivinhasse.
- Não se preocupe. Está tudo bem. Tudo bem.
Tudo bem. Tudo bem se apaixonar. Não sei se esse pensamento foi dele, dela, da comissária ou do comandante. Foi o pensamento de alguém. Apenas isso. Talvez o seu.
Ao descer do avião, trocaram mais algumas palavras. Despediram-se já cada um com sua bagagem. Os dois já de costas um para o outro:
- Ei, espere. Já passamos tanto tempo juntos mesmo… Que tal se jantássemos?
Acho que ela disse sim. E, nesse jantar, talvez ele tenha dito como achou lindo aquilo, como é muito mais fácil morrer em uma turbulência que expor seus medos bobos a um estranho como ela fez, ou perguntar o que acontecera a seu marido, ou sobre como as estatísticas dizem que morrem muito mais pessoas de coices de mula que em acidentes aéreos, ou sobre como era adorável a maneira como ela segurava o garfo na hora de comer como se aquela refeição de avião fosse o melhor dos manjares, ou como a franja dela insistia em cair sobre os olhos enquanto ela lia uma revista. Pensou em dizer muitas coisas, bobas e tocantes e engraçadas.
Quem sabe foi ele, então, que desta vez pousou a palma de sua mão esquerda sobre o dorso da mão direita dela, como se pensasse em outra coisa que não em turbulência.
Tudo bem. Tudo bem se ela disse não.
3 comentários para "Tudo bem"
Oi Alessandro:
No texto “Sobre Amor e Paixão”, você diz “Amar é uma decisão. É preferir ser vento…”
Então, fiquei pensando numa amiga, que está em
busca de respostas prontas, para aplicar em sua
vida. Lendo livro de auto ajuda.(rs) Não cabe aqui este assunto, nem estou rindo dela.
É que se tivesse, ou procurasse ter acesso a
textos como o seu, garanto que as opções dela,
seriam mais amplas e criativas.
Amei. Claro e conciso.
Abraço.
cheguei a Ctba ontem, de avião. Na turbulência pensava: Tudo bem se o avião cair… Mas tudo bem as vezes é mais complexo. Aceitar escolhas… Enfim, adorei.
Belo texto.
Abraços
É isso aí! Amor é ativo e paixão, bem, pathos. Espinosa fez essa distinção também. Ele dizia que a liberdade vem quando agimos, não quando reagimos.
No meu blog, em vários posts, sustento isso também.
Abração, valeu pelo post!
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