Às turbulências.
Às mentiras bem mentidas.
A tudo que voa e não volta.
Ao que morre bem morto.

Chegou bem adiantado para o vôo. Sentou-se na sala de espera. Ao seu lado uma mulher. Lia uma revista semanal, a franja sobre os olhos. Pernas cruzadas, uma tatuagem revelava-se no pé. Um ideograma ou um kanji, não sabia diferenciar. Coisa japonesa, sem dúvida. Sentiu vencer, com o olhar curioso, a distância que há entre os estranhos.

- Bonita.

- Obrigada. Fiz quando estive na França.

- Está voltando pra lá?

- Não. Curitiba.

Pergunta estúpida. Aquele portão não era para vôos internacionais. Ele também ia para Curitiba.

- O que quer dizer? – perguntou ele, com real curiosidade. Ela agora também olhava para o próprio pé como se aquilo tivesse aparecido de uma hora para a outra e também fosse novidade para ela.

- Amor.

Ele observou todas aquelas linhas entrecruzadas, ora mais grossas, ora mais finas, que formavam um desenho extremamente complexo.

- Amor é complicado.

- Pode ser simples. Lê-se “ai”.

- Sim, pode ser simples.

Ele, um outro homem de tantos que ela conhecera e conheceria ainda. Ela, uma mulher que, não fazia muito tempo, perdera o medo de voar.

Sobre amor e paixão
É comum perder-se entre o amor e paixão. Ora chama-se paixão de amor, ora chama-se amor de paixão.

Cada vez mais acho que entre essas duas coisas – são coisas – a diferença está não na intensidade ou na duração de cada uma delas como é comum se pensar. Talvez seja mais fácil encarar essas palavras – são palavras – como algo que diz respeito a uma atitude em relação à vida.

Essas abstrações – são abstrações – não têm caras. E não seriam abstrações se tivessem. Mas por isso, dá-se a elas as feições que mais se deseja, os nomes que melhor soam. E, portanto, ora chama-se paixão de amor, ora chama-se amor de paixão.

Mas a paixão, como a origem grega da palavra diz, pathos, é passional, passiva, algo que se sofre. Como um barco na borrasca, com um leme em vão, com uma vela inútil no vendaval. Não à toa, pathos deu origem também à palavra patologia, que designa doença. Um corpo, de cama, nada pode fazer senão aguardar enquanto busca-se a cura.

O amor, no entanto, é ativo. Não se é escolhido para amar, mas escolhe-se amar. Não importam as circunstâncias, independentemente da paixão. Amor é como um músculo que se exercita. Quanto mais se ama, mais fácil amar se torna, mais simples e natural.

Amar é uma decisão. É preferir ser vento enquanto todos preferem ser a folha que é levada por uma simples brisa.

Quebrem-se os remos, não importa, rema-se com as mãos. Que o barco seja empurrado para o outro lado pelas ondas, dane-se, encara-se o lado para o qual se quer ir e nada-se contra a corrente.

O sentir cotidiano que temos, seja pelo copo d’água, seja por aqueles com quem dividimos o existir, é a gradação entre deixar o barco a deriva ou segurar o timão com força.

Ou simplesmente tomar o leme uma hora ou outra e, de vez em quando, deixá-lo ao sabor da maré para, a seguir, retomar a direção inicial.

Turbulência
Acionei o botão que fazia o sinal luminoso de apertar os cintos acender. Turbulência pela frente na certa. Senti-me tenso. Anos de treino, anos nessa rota e ainda não me acostumei com as turbulências. Turbulências são comuns nesse trecho e nessa época do ano.

Ela veio perguntar-me se eu precisava de algo.

- Melhor ir sentar-se e apertar os cintos. Pelas nuvens, esse passarinho vai balançar um pouco mais do que o habitual.

Passarinho. Não poderia dizer frase mais ridícula.

- Os passageiros estão todos bem? – perguntei, depois de pensar na frase ridícula.

- Estão, comandante.

Como gostaria que ela deixasse, uma vez ao menos, as formalidades de lado.

Há anos ia a Paris e voltava com ela na minha aeronave. Sentia falta quando ela não estava na equipe. Jamais me habituara com a idéia de vê-la. Suava frio. Já ela parecia mais do que acostumada.

- Precisa de alguma coisa, comandante?

As nuvens se elevavam em imensos e fofos tufos para o alto. Diziam sobre mais turbulência à frente. Mas nada diziam a respeito da frustração enorme que eu sentia cada vez que ouvia essa palavra. Comandante.

Segurei forte no manche. Ajeitei o corpo na cadeira.

Apartamento
Tenho um apartamento para arrumar e um texto para escrever. Não sou obrigado a escrever a não ser por um compromisso que assumi comigo mesmo. Pois, aparentemente, ninguém vai me cobrar o atraso de coisa alguma.

A não ser minha consciência. Às vezes tenho a impressão de que só depois de semanas sem publicar é que a polícia vai bater a minha porta para saber se estou vivo. E eu moro do lado da Polícia Federal.

Por outro lado, esse apartamento está uma zona. A bagunça tira um pouco o prazer de escrever. Assim como tiraria o prazer de uma boa trepada.

O sexo não tem o mesmo sabor se vemos uma toalha pendurada em uma cadeira – e ela está ali há uma semana – , louça por lavar, um cobertor que deveria estar no quarto, na sala, roupas limpas a serem guardadas deixadas dobradas no chão e coisas a serem jogadas fora. É sorte não haver alimentos estragados espalhados por aí.

Sexo e escrever pedem um cenário impecável. O ambiente deve ser um convite ao nada fazer. Nada além daquilo que se quer fazer. No momento, porém, tenho uma toalha, roupas, louça e outras coisas a me chamar a outras atividades.

Sem falar num banho a tomar e uma barba a ser aparada.

Acho que não vou acabar este texto nunca.

Preferia uns quatro ou cinco corpos nus aqui, à minha frente. Mas a toalha, as roupas, louça. E outras coisas.

Fantasmas
Como a poltrona vizinha a ele estava vazia, ela decidiu sentar-se ao lado.

- Posso ficar aqui? Se importa?

- Será um prazer.

- Que bom. Tenho medo de voar.

- Tudo bem. Tudo bem ter medo de voar.

- É que eu queria saber… isto é… se é que você não se importa…

- Pode falar…

- Não… é ridículo…

- Agora é um pouco tarde, parece que vai ter que falar… ou acabará ficando mais envergonhada ainda… – disse ele, com um sorriso simpático.

- Sabe o que é?

- Hum.

- Costumava viajar com meu marido. Segurava sua mão nas turbulências – riu – Como se fosse fazer diferença segurar a mão de alguém caso o avião caísse…

- Mas faz.

- Como assim?

- Acho que morrer segurando apertado a mão de alguém é menos triste do que morrer apertando o braço da poltrona.

- Então?

- Então o quê?

- Você se importa, isto é, você se importa que eu segure sua mão caso o avião, você sabe, passe por alguma turbulência? – e timidadamente fez um gesto com a mão que deveria significar “turbulência”.

- Claro que não me importo! Será um prazer.

Ele pensou em falar como achou lindo aquilo, como é muito mais fácil morrer em uma turbulência que expor seus medos bobos a um estranho como ela fez, ou perguntar o que acontecera a seu marido, ou sobre como as estatísticas dizem que morrem muito mais pessoas de coices de mula que em acidentes aéreos, ou sobre como era adorável a maneira como ela segurava o garfo na hora de comer como se aquela refeição de avião fosse o melhor dos manjares, ou como a franja dela insistia em cair sobre os olhos enquanto ela lia uma revista. Pensou em dizer muitas coisas, bobas e tocantes e engraçadas.

Porém trocaram poucas palavras, além daquelas primeiras, desde que ela mudou de lugar. Estava ali só para uma eventualidade. Para o caso de, bem, você sabe.

Então, depois de algumas horas, o sinal luminoso se acendeu. Sem desviar os olhos da revista, ela levou sua mão direita em direção à mão esquerda dele. Pousou sua palma sobre o dorso da dele. Suavemente apertou. Não demonstrava apreensão em seu rosto. O que não impediu de a comissária de bordo, ao sair da cabine do comandante, vir falar diretamente com ela, como se adivinhasse.

- Não se preocupe. Está tudo bem. Tudo bem.

Tudo bem. Tudo bem se apaixonar. Não sei se esse pensamento foi dele, dela, da comissária ou do comandante. Foi o pensamento de alguém. Apenas isso. Talvez o seu.

Ao descer do avião, trocaram mais algumas palavras. Despediram-se já cada um com sua bagagem. Os dois já de costas um para o outro:

- Ei, espere. Já passamos tanto tempo juntos mesmo… Que tal se jantássemos?

Acho que ela disse sim. E, nesse jantar, talvez ele tenha dito como achou lindo aquilo, como é muito mais fácil morrer em uma turbulência que expor seus medos bobos a um estranho como ela fez, ou perguntar o que acontecera a seu marido, ou sobre como as estatísticas dizem que morrem muito mais pessoas de coices de mula que em acidentes aéreos, ou sobre como era adorável a maneira como ela segurava o garfo na hora de comer como se aquela refeição de avião fosse o melhor dos manjares, ou como a franja dela insistia em cair sobre os olhos enquanto ela lia uma revista. Pensou em dizer muitas coisas, bobas e tocantes e engraçadas.

Quem sabe foi ele, então, que desta vez pousou a palma de sua mão esquerda sobre o dorso da mão direita dela, como se pensasse em outra coisa que não em turbulência.

Tudo bem. Tudo bem se ela disse não.

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