Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
16 ago 2010
Chega um momento em que o táxi é um vício. O sujeito começa, digamos, na segunda-feira. Pela manhã. Um passageiro aqui, outro ali. Uma chamada, outra. Horário para o almoço, lanche. Chega a noite. Então o cara decide fazer a noite também. Consegue dormir entre uma viagem e outra. Quinze, vinte minutos até. O suficiente para se refazer.
E vai nesse ritmo. Quando percebe, amanheceu. Nada errado em continuar. Vai com os cochilos entrecortados pelas bandeiradas. Nas refeições, sanduíches de mortadela. Paradas para ligar para casa e para colocar o dinheiro no banco. Não é bom andar com tanto. Só o suficiente para dar em caso de assalto.
Nessas, passa uma semana sem ver as caras da esposa e dos filhos. Não é só ele. Todos os taxistas uma vez na vida engatam numa fase assim. De morar no táxi, dormir pouco e rodar, rodar muito. É dinheiro fácil. O sujeito se sente útil, fazendo grana a todo instante. Uma máquina de cacau. Ouviu falar de um que se manteve dois meses nesse esquema. Dois messes, sessenta dias ou coisa assim.
Pelo menos é mais seguro do que ser caminhoneiro. Conhece vários amigos seus que, depois de horas e horas na boléia, dormem de propósito no volante. Entram na reta, mais ou menos calculam o tempo que leva para chegar na curva e cochilam. Não chega a ser exatamente um sono reconfortante, pois é preciso ter a técnica, um sexto sentido que o cara desenvolve para saber o momento exato de voltar à vigília. Quer dizer, não se dorme completamente. Se não, já era.
É. Se quiser, o motorista consegue, com o tempo, alguma segurança para fazer isso. Claro, sempre tem daqueles que, no dia seguinte, o jornal vai dizer que perderam o controle do veículo. Segurança é uma coisa muito relativa principalmente para quem pratica esse lance. Por isso, quando viaja, só ultrapassa caminhões na curva. Certeza de o cara estar acordado.
Mas caminhão nunca mais. Acaba com a vida do vivente.
À noite, bandeira 2. Tem desprezo pelos passageiros desse horário. São perdulários. Tem que ter dinheiro para jogar fora para pegar táxi assim. Se dá, faz o caminho mais longo. É preciso que sacar pela cara do camarada se ele vai perceber ou não. Não liga. Cinco reais a mais não vão fazer falta para alguém que pega táxi com bandeira 2.
De qualquer forma, ele não conhece todos os caminhos. O sujeito que mais sabe das ruas da cidade é o cara do rádio. Nunca sai de trás daquela mesa, mas tem todos os pontos de referência na ponta da língua. Pelo nome da rua e pelo número sabe qual banco de praça, qual árvore, qual mercearia e qual prostituta é a mais próxima daquele chamado.
Esse precisa de raciocínio rápido. A pessoa liga, diz onde está. Aí ele chama pelo rádio alguém que esteja naquelas proximidades. Não adianta dizer o nome da rua. Nem todos conhecem as ruas pelo nome e, se conhecem, as ruas são compridas e há uma chance ainda menor de o taxista conhecer a numeração. É mais fácil dizer algo como: Shopping Mueller. Todos os que estiverem por essas vão se ligar. Se não tiver nenhum, ele vai ter que dar outra opção. Então vai dizer algo como Ipê.
E o Ipê, Instituto de Previdência do Estado, nem existe mais, mas talvez haja um taxista por ali, onde antes havia o Ipê. Várias referências só existem como nome. Prédios que foram demolidos, cinemas que viraram igrejas, mas que continuam ali no mapa imaginário do cara do rádio. A cabeça dele é uma cidade cheia de edifícios fantasmas, siglas de outros governos e praças que mudaram de nome. Ele poderia ser cego, não faria diferença, pois enxerga por dentro da memória e a memória encobre concreto e asfalto como uma neblina. A memória é uma neblina.
A coisa mais engraçada de ser taxista são as encomendas. Uma vez alguém, uma mulher, pediu clareador de cabelos e água oxigenada. Às três da manhã. Enquanto parava na farmácia, comprava as coisas e pedia a nota fiscal pensava o que alguém, uma mulher, poderia querer com essas coisas às três da manhã. Era urgente. Três e quinze quando chegou ao prédio. Subia as escadas que levavam até a portaria recapitulou todas as possibilidades. Uma criminosa que queria se encobrir, uma mulher cheiradíssima de pó sem mais o que fazer e deprimida com a própria imagem, uma garota que queria sair com as amigas para uma dessas festas que começam tarde mas não sem antes retocar os cabelos. Entre outras. O porteiro o instruiu a deixar o pacote no elevador e apertar o botão do doze. Jamais saberia.
Parece que ele é um desses predestinados a ouvir a famosa frase siga aquele carro. Ouvia pelo menos umas duas vezes por mês. Que fosse discreto, ficasse meio afastado. O passageiro se debruçava no banco de trás para se esconder quando muito perto. Esposas ou maridos nervosos. Muita conversa para acalmá-los. Chegou a ver uma arma na cintura de um sujeito. Foi incrível, mas convenceu o cara a parar e tomaram uma cerveja juntos. Um frio maldito do cacete e ele ainda teve que pagar. Nunca mais viu o sujeito. Cagou por saber se depois ele matou a esposa e o amante, mas não seria depois de pegar o seu táxi. Não queria se complicar. Esse era o tipo de situação que ele chamava de bandeira três.
Existem muitas bandeiras três nessa profissão. À noite, as cidades grandes, mesmo as mais limpas, revelam suas sujeiras. É um especialista nesse nobre esporte de atropelar ratazanas. Talvez seja sorte mesmo. Sempre atropela alguma. Até mesmo muda lijeiramente o trajeto para conseguir. Perto dos cemitérios, onde sempre há alguns pontos de parada, milhares de baratas vão passear ao luar. Uma vez sentiu algo dentro da bota, puxou e era metade de uma. Demorou um pouco para entender o que era aquilo enquanto olhava para os dedos em pinça. Não sabia se ficava com mais nojo da metade que segurava horrorizado e imediatamente jogava ou da outra parte que ainda esperneava dentro de sua meia frouxa a soltar aquele visgo branco. Há tantos daqueles bichos por ali que alguns chegam a subir sabe lá como para os carros. Desde então deixou de freqüentar essas imediações. Muito nojo.
Não gosta de pegar prostitutas ou travestis. As prostitutas são tristes. Algumas demonstram isso com sua arrogância. E os travestis são alegres demais principalmente em dupla. Parece que querem competir para ver quem é a mais louca. Alguns estão sempre drogados. Mas não é regra. Apenas não gosta. Porém não deixa de fazer o seu serviço. Se um cara tem um, deve cumpri-lo não importa para quem ou quais as circunstâncias. Acredita muito nisso.
Só recusa serviço quando, à noite, acha o cidadão suspeito. É difícil dizer. Às vezes o passageiro pode estar bem vestido mas mal intencionado. Sempre pergunta para onde é a corrida antes de ele subir. Se for para quebradas esquisitas, como essa, deixa pra lá. Às vezes o traje não combina com o destino. Ou o destino não combina com o traje. Dispensa. Dane-se. Ele que procure outro para se arriscar. Faz uma semana que não volta para casa e não vai ser nessa noite, véspera da manhã em que irá para sua cama, descansar o esqueleto, que alguém irá lhe secar a quirera com um três oitão. Só por cinqüenta reais e um táxi velho? Nem pensar. Pensando bem, melhor ir agora.
Um comentário para "Taxista"
Muito bom!!
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