Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
1 nov 2007
Terceiro sonho
Deitado de lado em minha cama, olho para um céu azul. Aves dançam. Não há brisa, a cortina repousa. Sem intenção alguma de mexer-me, deixo-me ficar. Um fino lençol cobre meu corpo. É uma tarde quente. É incrível e banal a um só tempo que as montanhas ao longe cheguem até mim através da vidraça. Eu não as entendo e elas, as montanhas, tampouco entendem a mim. Mas não há problema nisso.
Isto, sem dúvida, é uma paisagem.
E, de repente, não é mais. Num instante (é um sonho) o que estava lá fora está aqui dentro deste pequeno quarto, desta pequena cidade, deste pequeno mundo. Tudo é muito pequeno, mas o infinitamente pequeno comporta o infinitamente grande, sem dúvida. Porque o que penetrou pelas paredes brancas, não foi a paisagem. Aquilo que agora contemplo, como mergulhasse em um poço de águas cálidas, é seu olhar e, para além dele, seu corpo a se espreguiçar longamente, como quem reluta a levantar depois de um sonho bom que ainda perdura na vigília.
Em seguida, me aninho e volto a dormir profundamente, invadido por essa sensação.
Primeiro sonho
No meu sonho você entrava a flutuar pela janela e beijava minha boca, ardente, mas sem que eu acordasse. Era dia e uma brisa fazia com que a cortina oscilasse suavemente como se transmitisse códigos às janelas vizinhas. O sol atravessava o tecido e dava ao ambiente um tom alaranjado. E, sim, sem que eu acordasse, você me beijava a boca. E era como antes. Como o primeiro beijo, antes da primeira palavra, antes mesmo do primeiro encontro. O primeiro, idealizado, em que os lábios se roçam, mas não dizem nada, como o calor antes da faísca, como a faísca antes da brasa, como a brasa antes da labareda.
E então seu corpo pousava ao lado do meu e seus olhos me observavam enquanto eu ressonava levemente durante a tarde quente, durante dias, durante anos, durante séculos. E no sonho (dentro do sonho), enquanto eu dormia, não sonhava com você, mas com a primeira bicicleta, uma pipa de oito lados de plástico transparente feita por meu pai, que desaparecia, mágica, no céu. Sonhava com meu avô a caminhar a meu lado, com os olhos verdes da primeira namorada, com um dia de chuva em que de propósito pisava nas poças d’água para molhar os pés. No meu sonho eu tentava acordar para lhe dizer algo, algo importante, muito importante, ou simplesmente para tocar seus cabelos. Eu finalmente acordava e você não estava mais lá.
Segundo sonho
E, neste, ambos, de lugares diferentes, víamos a lua. Era torturante saber que víamos o mesmo astro sem, no entanto, nos vermos ou nos tocarmos. Ao mesmo tempo tornava-se confortável o sentimento de que compartilhávamos ao menos um elemento da paisagem. A lua, cheia, pulsava no verão como as contrações de um corpo.
Porém, minha janela estava vazia de você, um vazio da silhueta nua contra o céu escuro e estrelado.
Neste momento, um dragão chinês passa pelo quarto através da vidraça em direção à porta da sala.
Não me espantei, não fugi. Até achei bela a situação. Pois era um sonho.
2 comentários para "Sonhos sonhos são"
Não vou dizer oi. Para não quebrar o encanto, escuto o vento que sopra pela minha janela. E Imagino “o dragão chinês que passa pelo quarto através da vidraça em direção à porta da sala”
Muito bom. Perfeito.
Bjos
^^
Maravilhoso, pena que estava sozinho em seu sonho!!! Tornando um pouco angustiante estre sublime pensamento!
kissu!! *-*
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