Ele então forjou o plano que, desde sempre, sabia: não daria certo.

- Então, na semana que vem eu vou para aí.

Conheceu Amely pela internet. Ela vivia em um estado vizinho ao dele. Trocaram algumas mensagens. Várias. Ela vivia as fantasias e ele a fantasia de concretizá-las. Sabia que na boca daquela mulher, em algum ponto daqueles lábios que explorava com olhos de fome à distância de vinte cidades, havia um beijo que era dele e ela nem sabia.

Talvez Amely quisesse mesmo apenas a coisa romântica, a coisa idealizada. Que ele fosse apenas um fantasma a alimentar em segredo seus ideais de amor. Mas ele queria carne entre seus dentes.

- Então, na semana que vem eu vou para aí. Já comprei a passagem. Já reservei hotel.

Já imaginava a cena. Amely iria se aproximar e ele levantaria da mesa. Tomaria as duas mãosnas suas e olharia em seus olhos sem dizer palavra. Adiaria ao máximo o segundo que antecederia o instante de tomar para si o primeiro beijo. Prolongaria ao máximo a duração desse momento, na fina camada que há entre o que era e o que passaria a ser.

- Vai ser assim. Eu vou até aí. Se a gente se entender, e vamos, você volta comigo até minha cidade. Não há nada que prenda você aí.

Depois de adiar ao máximo, roubaria o que desde então, desde antes, lhe pertencia. Exploraria ponto a ponto a superfície rósea até encontrar o segredo oculto do beijo a esperar por ele, como quem reestabelece algo há muito perdido, sempre possuído no esconderijo das coisas inevitáveis.

- Então você vem aqui. Sei que precisa do seu espaço. Mas não tem problema. Eu paro pouco em casa. Vai ter o sossego de que precisa ali. É silencioso. Fica uma semana, duas, quanto der. E você deve ter amigos por aqui também. Se não tiver apresento os meus. Eles são bacanas. Você vai gostar. Poderemos andar de mãos dadas à noite.

Beijaria, mas secretamente saberia que quem foi tomado de assalto foi ele, no total e bem-vindo equívoco que há na sabedoria de quem deseja amar mais até do que é capaz. Seria o marginal que estende os braços para as algemas, daria de beber a ela do seu próprio beijo que neste momento já seria dela. Beijo que havia em seus lábios e ele, mesmo sabendo, nem sabia.

- Você vai gostar. Fica aqui comigo, em meu apartamento. Eu cuido de você. Faremos bolos. Mas eu sei como você é. Tem a inconstância com você. Já conheci a inconstância em outras pessoas. Entendo como funciona. Então, um dia, em dois meses, talvez um, você vai olhar para minha cara e descobrir que se cansou. Nesse dia, você vai querer ir embora. Eu vou querer que você fique. Mas você não vai ficar. Eu vou sofrer. Mas mesmo isso está previsto em meu plano. Tudo o que eu quero agora é que você volte junto comigo até minha cidade quando eu for até aí.

Talvez Amely quisesse saber como era estar por baixo da pele daquele homem naquele instante. Pois disse sim. Sim. Que ele viesse e a arrebatasse dali em fuga louca como se houvesse algo de que fugir. Ele a inundava de privilégios e, nele, ela sentiu-se capaz de caudalosos rios.

No entanto, eis que, na rodoviária, ele parou na porta do ônibus. A fila precisava andar. Algumas pessoas chiaram. E, finalmente, ele pegou sua mala, que já estava no bagageiro e voltou para casa.

Na outra cidade, ninguém o esperava no desembarque, ninguém se encontrou na mesa do bar onde combinaram à beira-mar. Apenas o fantasma de uma possibilidade desceu os três degraus do veículo. Um beijo impossível assombrou a rodoviária naquela noite, percorreu a orla, todo o litoral e morreu nos lábios calados e distantes dos dois, que já pensavam em outras vidas. Nunca mais conversaram.

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