Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
12 jun 2009
Neste dia dos namorados,
para Júlia, que me ensina a beijar
Se me beijar sempre assim, jamais morrerei de sede.
Lábios úmidos de beijos nada dizem sobre as dúvidas da morte, seus antes e seus depois, repletos da presunção humana.
Eventualmente falam. Mas principalmente calam. Porque tem selados em si as poucas certezas que um homem pode ter a respeito da vida. Elas moram entre aquilo que passou e aquilo que virá. São simples, mas absolutas. E indizíveis. Dormem no sorriso disfarçado que carrego pelas calçadas desta cidade.
Se me beijar sempre assim, jamais morrerei de fome.
Pois não é de pão que o homem vive. Mas do alento que nasce entre lábios momentaneamente unidos. Das palavras que fazem sorrir e chorar. Também das que fazem cócegas por dentro.
E, se assim for – se assim sempre me beijar – nunca morrerei de tédio.
Pois terei algo novo para ouvir perpetuamente. A surpresa de suas palavras, em suas nuances, modulações e tons é inesgotável, mesmo quando aparentemente se repetem, aos meus pedidos de mais. Não há fim de história que não traga em si o começo de outra.
Por isso me animo a tentar descobrir a forma fixa do discurso que há entre nós. O que está dito por trás do que não está. Sei que é tarefa impossível, no entanto. Pois a cada passo descubro uma nova verdade a fazer volutas no ar. Parecida com um passarinho. Pousa na mão, mas não se deixa capturar. Vive por que é livre.
Se me beijar, sempre, meu fim em cativeiro é impossível. Pois estou onde quero estar. E, embora não precise de muitos metros quadrados para viver, o Universo é meu pomar. Onde eu estiver, estendo o braço, colho um fruto e lhe ofereço em gratidão.
Uma oferta por sua absoluta generosidade, pois – ao me beijar assim, sempre – nada pede.
Não se pode trocar um beijo por outro. Pois o beijo é a própria troca. Um beijo não pede e não é favor: é o agradecimento em si e por si.
Barganhar amor, inevitavelmente, é fazer mau negócio. Compra-se o que já se tinha, coloca-se um preço no que preço não tem, tenta-se prender borboletas em uma jaula.
Não há jaulas com grades suficientemente estreitas para borboletas.
Se sempre me beijar, sei que não morrerei só. Porque sempre terei a sua boca para beijar. Uma boca não se beija sozinha e chega a ser engraçado pensar nisso.
Talvez – se sempre me beijar e se, desse modo, um dia passar a me beijar para sempre – eu descubra que sou eterno.
Que é um beijo senão dois seres manifestamente finitos, com suas bocas e corpos finitos, celebrando em um instante finito aquilo que não tem dono nem fim?
Se me beijar sempre assim, sim, talvez eu descubra que sou eterno.
Mas só quero o eterno se eu não for passar sede, se eu não for passar tédio, se eu não for passar fome, se me beijar sempre assim.
4 comentários para "Se me beijar sempre assim"
Lindo, Alê! Como vc e a Júlia. Adoro e admiro vcs!
Ah, eu acho que já disse isso antes, mas o amor de vocês é tão lindo…
Adoro, não, AMO os textos dedicados à Júlia.
E você como grande poeta que é, sempre me empresta suas palavras, que eu passo a diante e sempre escrevo no final “era isso que eu queria dizer”.
Lindo, Alê!
Sou obrigada a dizer que faço minhas as palavras da Flávia!
Parabéns , lindo seu texto para Julia . ameeei
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