Neste dia dos namorados,
para Júlia, que me ensina a beijar

Se me beijar sempre assim, jamais morrerei de sede.

Lábios úmidos de beijos nada dizem sobre as dúvidas da morte, seus antes e seus depois, repletos da presunção humana.

Eventualmente falam. Mas principalmente calam. Porque tem selados em si as poucas certezas que um homem pode ter a respeito da vida. Elas moram entre aquilo que passou e aquilo que virá. São simples, mas absolutas. E indizíveis. Dormem no sorriso disfarçado que carrego pelas calçadas desta cidade.

Se me beijar sempre assim, jamais morrerei de fome.

Pois não é de pão que o homem vive. Mas do alento que nasce entre lábios momentaneamente unidos. Das palavras que fazem sorrir e chorar. Também das que fazem cócegas por dentro.

E, se assim for – se assim sempre me beijar – nunca morrerei de tédio.

Pois terei algo novo para ouvir perpetuamente. A surpresa de suas palavras, em suas nuances, modulações e tons é inesgotável, mesmo quando aparentemente se repetem, aos meus pedidos de mais. Não há fim de história que não traga em si o começo de outra.

Por isso me animo a tentar descobrir a forma fixa do discurso que há entre nós. O que está dito por trás do que não está. Sei que é tarefa impossível, no entanto. Pois a cada passo descubro uma nova verdade a fazer volutas no ar. Parecida com um passarinho. Pousa na mão, mas não se deixa capturar. Vive por que é livre.

Se me beijar, sempre, meu fim em cativeiro é impossível. Pois estou onde quero estar. E, embora não precise de muitos metros quadrados para viver, o Universo é meu pomar. Onde eu estiver, estendo o braço, colho um fruto e lhe ofereço em gratidão.

Uma oferta por sua absoluta generosidade, pois – ao me beijar assim, sempre – nada pede.

Não se pode trocar um beijo por outro. Pois o beijo é a própria troca. Um beijo não pede e não é favor: é o agradecimento em si e por si.

Barganhar amor, inevitavelmente, é fazer mau negócio. Compra-se o que já se tinha, coloca-se um preço no que preço não tem, tenta-se prender borboletas em uma jaula.

Não há jaulas com grades suficientemente estreitas para borboletas.

Se sempre me beijar, sei que não morrerei só. Porque sempre terei a sua boca para beijar. Uma boca não se beija sozinha e chega a ser engraçado pensar nisso.

Talvez – se sempre me beijar e se, desse modo, um dia passar a me beijar para sempre – eu descubra que sou eterno.

Que é um beijo senão dois seres manifestamente finitos, com suas bocas e corpos finitos, celebrando em um instante finito aquilo que não tem dono nem fim?

Se me beijar sempre assim, sim, talvez eu descubra que sou eterno.

Mas só quero o eterno se eu não for passar sede, se eu não for passar tédio, se eu não for passar fome, se me beijar sempre assim.

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