Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
21 mar 2010
O meu amigo Marco Carvalho conta que perto do lugar onde ele trabalhava há algum tempo havia uma sapataria onde, eventualmente, ele costumava levar seus calçados para consertar.
Você tocava aquela campanhia, do tipo que há nos hotéis dos desenhos do Pica-Pau.
Plim.
Depois desse som característico, vinha lá do fundo da Sapataria Rápida do Jacó um outro ruído.
Toc.
Toc.
Toc.
Toc.
Era o som do andador – aqueles que tem quatro pernas – sobre o qual se apoiava um senhor de uns 90 anos e que, dessa maneira, se locomovia até o balcão.
Era o Jacó.
- Seu Jacó, acho que preciso trocar a sola deste sapato.
- Trocar a sola?
- É.
O Seu Jacó examinava o sapato.
- Ah. Vai demorar.
- (…)!!!
- … porque eu vou ter que ir até o centro da cidade buscar uma sola nova.
Antes que você imagine o Seu Jacó demorando dois anos para ir e voltar do centro de Curitiba apoiando-se sobre o andador, a bem da verdade, é preciso que eu diga: o sapato estava novo em uma semana.
Minha amiga Sara conhecia um outro sapateiro com outras peculiaridades.
Como todo sapateiro a moda antiga, tinha uma prateleira que ia do chão ao teto. Essa prateleira tinha inúmeras divisórias nas quais os sapatos eram guardados dentro de sacolas. Sobre as sacolas, em uma papeleta, anotados em letra difícil de escrever e ler, os nomes dos proprietários dos calçados, consertados ou por consertar.
Era sempre a mesma coisa.
Ele precisava anotar o nome dela, para colocar o nome o sapato dentro de uma sacola, o nome dela sobre a sacola e tudo isso num dos infinitos escaninhos de sua prateleira.
- Sara.
Tempo.
- Sara?
Como eu disse, era sempre a mesma coisa.
Dizia ele:
- Sara era o nome da minha madrinha, sabe?
E ia até o fundo sem ao menos anotar o nome dela na papeleta com a letra difícil de escrever e de ler.
Voltava com uma foto. Na foto, várias mulheres.
Apontava para uma delas:
- Minha madrinha é esta aqui. Está vendo o sapato dela? Esses dias apareceu uma mulher aqui com um sapato igualzinho! Tive que comentar isso com ela. Esse tipo de sapato não se faz mais desde o final da Segunda Grande Guerra…
E continuava a história por meia hora, longamente (ele) e pacientemente (ela).
Antes que vocês pensem que não gosto de sapateiros, saibam que meu avô era sapateiro e eu gostava muito dele.
Porém depois da décima vez que ela ouviu a mesma história, Sara preferiu mentir seu nome.
- Como se chama, minha filha? – perguntou ele, molhando o lápis na ponta da língua, prestes a anotar o pedido e arquivá-lo para consertá-lo quase tão rápido quanto o Seu Jacó, o da história anterior.
- Ivone.
- Ah, Ivone? Ivone, é? Nome de uma tia minha muito querida.
E deu as costas para ir buscar outra foto, com lembranças de outros sapatos.
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