Daquele dia, tudo o que eu lembro está embaçado, como se o reflexo dela, que eu vi diminuir no retrovisor quando partia, sofresse os efeitos do frio e da umidade.

Mas estava quente.

Era um final de tarde. Talvez essa impressão seja resultado de eu ter chorado. Quase trinta anos e chorei como a criança de quem repentinamente tiram um seio da boca.

Quando tiram o seio da boca de uma criança, é como se não houvesse mais de onde sugar o mundo para dentro de si. Como se nunca mais o leite fosse tão doce quanto foi naquela ocasião.

Talvez essas imagens, essas lembranças, estejam embaçadas porque então não tenham acontecido. São enganos, forjados por minha imaginação. Quando recapitulo as coisas, de fato, parecem ficção.

Mesmo os acontecimentos mais triviais parecem inventados. Uma xícara de chá, um raio de sol, o ranger da cama, o cochilo de quinze minutos, com nossos corpos enlaçados, antes de sair atrasado para o trabalho.

O telefone tocava às seis da manhã. O que me dava tempo para tomar um banho e arrumar a casa para recebê-la. Ela subia no ônibus. Não o que lhe levaria para onde disse a seus pais que iria. Mas o que a trazia pelo menos duas vezes por semana até a minha porta. Às sete da manhã, no máximo.

Minha campanhia soava. Talvez daí, da mistura do sonho de quem acabou de sair da cama com a realidade de abrir a porta, venha a sensação das lembranças nebulosas.

Que belos peitos. Eram como frutas macias e aveludadas a descer em direção à minha boca. Como ficavam duros os mamilos. Eram por onde se prendiam os frutos aos galhos da árvore?

Ela pensava ainda em colocar silicone, como me confidenciara certa vez.

Eu não disse nem que sim nem que não. Esse é o tipo de coisa sobre a qual uma mulher, mesmo muito jovem, não quer a opinião de um homem, penso. Apenas comunicou-me.

Tinha isso de querer um corpo perfeito. Um corpo talvez impossível. Aquela coisa de heroínas de revista em quadrinhos desenhadas por geeks. De mocinha de cartaz de filme de Hollywood.

Apesar de ela ter aquelas formas inesquecíveis, com o desconto que se dá às mulheres da vida real, estava na cara que jamais conseguiria isso. Nenhuma mulher consegue ser melhor do que a realidade que representam, a delícia que é de fato.

Ela voltava religiosamente ao meu apartamento. Mesma situação, mesmo horário, quase os mesmos gestos.

Sim, religiosamente. Embora eu não tivesse nada a lhe ensinar, eu me sentia como um interventor entre ela e coisas que ela precisava saber. Eu era sacerdote e, sem saber naquele instante, sacrifício. Mediador entre ela e coisas, sei lá que coisas, que precisava saber.

E, novamente, eu ligava para a recepção da editora para avisar que não me sentia muito bem e que, mais uma vez, chegaria atrasado, embora sem problemas pois poderia ficar até mais tarde se fosse o caso.

Ela tinha tesão em coisas violentas, como ser estuprada. Quero imaginar que não de verdade. Mas lembro de ela ter ficado muito excitada quando, um dia, estávamos prestes a sair – eu para o trabalho, ela sei lá para onde -, ataquei-a e arranquei-lhe sua roupa às pressas e tive tempo de apenas abrir minha braguilha para penetrá-la.

A delicadeza de seus traços contrastava com o peso das coisas de que gostava. Às vezes fazia cortes na própria pele só para ver a cor do sangue.

Quando pensou em me prender na cama, não sugeriu cordas, mas correntes, das mais grossas possíveis. Se me batia, não gostava de gemidos e, por conta de um, mandou-me calar a boca e ameaçou-me de colocar-me uma mordaça.

Certa vez, teve o descaramento de dizer que eu fui o primeiro a lhe fazer gozar. Antes de mim só conseguira sozinha. Acreditei com reservas, se é que se pode acreditar em algo com reservas. Ou se acredita ou não se acredita. Senti, no entanto, uma ponta de orgulho de macho.

São fraquezas que nós, homens, tendemos a ter. Admito. Sou homem, sou fraco também.

Foi pra ela que comprei o espelho, para que ela também pudesse ver aquele rosto perfeito enquanto me chupava.

Mas ela tinha aquela coisa de ter um corpo perfeito e começou a tomar os tais remédios para emagrecer. Como se precisasse. Uma fórmula, dizia. Com receita e tudo e acompanhamento médico. O humor dela começou a ficar horrível.

Creio que isso, juntando-se ao fato de que ela por algum motivo começou a ficar cheia da minha cara, fez com que ela me deixasse. Foi uma tarde de sol de outubro. Ela já estava com aquelas feições chupadas, as maçãs do rosto evidentes, efeitos da medicação.

A questão é que, naquele dia, chorei como uma criança. E não sem alguma vergonha conto e lembro disso. Chorei de babar e assim chorei por mais algumas semanas. Cheguei a procurar uma psicóloga. E um psiquiatra também.

O psiquiatra ajudou-me dando-me umas pílulas daquelas com uma caixa com uma tarja preta em volta. A psicóloga ajudou-me a saber exatamente aquilo que eu já sabia.

Que não importava a razão que havia feito ela me deixar. Essa razão estava nela e eu nada poderia fazer para mudá-la. A questão, enfim, era como eu poderia reagir às coisas que o mundo me impunha de vez em quando. Creio que saí desse tombo mais esperto. De fato, não precisei mais das pílulas daquelas com uma caixa com uma tarja preta em volta.

Sinto-me melhor e mais forte. Mas admito que, cada vez que lembro dela, lembro de coisas ruins junto com as boas.

Acredito que ela escreveu coisas em meu coração, mas em lugares muito escuros para que eu as possa ler. Talvez apenas as tenha revelado para mim. De qualquer forma, não será ela quem irá me dizer que palavras são essas.

Hoje, eu soube que ela morreu.

Apenas mais um dia de lembranças embaçadas em minha vida.

Nada a fazer quanto a muitas coisas de nossas vidas.

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