Todos aqueles que porventura conheceram um casal com relacionamento aberto acabam por admirá-lo, por seu desprendimento, desapego e emoções bem resolvidas.

Mas apenas os homens acabam demonstrando.

Com entusiasmo de cachorrinho que acabou de ser solto da coleira.

Não estou, naturalmente falando das exceções, mas da generalização.

Acontece que a mulher, em geral (a partir daqui, vou parar de usar termos que demonstrem que se trata de uma generalização, supondo que o meu leitor é inteligente), acha admirável tal casal, mas não se relacionaria com o parceiro desse casal ainda que gostasse dele, uma vez que espera algo mais de um relacionamento, seja ele casual seja ele mais que isso, em diferentes graus. E, considerando que já existe um casal – ainda que um casal com um relacionamento dito aberto -, esse mais não é possível.

Isso passa por outras questões, por exemplo, não saber exatamente o que é esse mais, o que é suficiente e o que é mais que suficiente, mas isso seria assunto para outro texto.

Por outro lado, geralmente (eu disse que não usaria mais termos desse tipo, não é? menti), os homens vem nas mulheres que compõem casais de relacionamento aberto mais uma oportunidade de experimentar o sexo com uma parceira com a qual supostamente (em suas cabeças ocas) não terão um tipo de comprometimento emocional.

Indo mais longe, alguns, casados ou envolvidos em outras modalidades de relacionamentos fechados, vão à maneira dos mitomaníacos jurar para si mesmos que tem sim relacionamentos abertos. E acreditar! Embora sua esposa não saiba disso e, pelamordedeus, que jamais venha a saber.

Quanto a esses, cada casal se comporta eticamente à sua maneira, mas o que se pode se esperar de uma dupla que decidiu conviver honestamente, sem esconder sequer pensamentos um do outro, de alguém que prefere viver de outro modo, de um modo quase oposto a isso? É o óleo sobre a água pura.

Curiosamente, algumas mulheres de personalidade mais frágil (em geral, em geral! você não e nem suas amigas e nem suas parentas!) vão se interessar em se relacionar com essa categoria de homem, pois nele veem a possibilidade daquele mais, pois embora fincado na mentira o novo relacionamento se sustenta também no desmoranamento do outro que essa própria mentira atesta.

O homem que vive em relacionamento aberto, por outro lado, agiria com mais correção – de acordo com essas normas sociais – se também mentisse, dizendo que não, não tem nenhum relacionamento em andamento e que, a exemplo do outro, revelasse-o mais tarde, quando a pequena estivesse em suas mãos. Pois, comportando-se com a verdade, ele tira a expectativa do mais. A verdade pode assustar quem se compromete com ela e quem a observa em ação.

Mentir é o comportamento do canalha. O canalha, normalmente, vê assim no relacionamento aberto a oportunidade de ser apenas meio-canalha, como se houvesse vantagem em ter de se safar apenas de meio problema. Esse também costuma agir ocultando da parceira, aquela que de fato tem um relacionamento aberto, que tem um relacionamento fechado.

Existem também relacionamentos abertos em que o homem está muito satisfeito com suas inúmeras parceiras, mas quando depara com a possibilidade de sua companheira ter outro relacionamento além do dele, passa a agir de maneira diferente daquela com que espera que ela aja em relação a ele.

Há também o mito de que é possível relacionamentos abertos em que a emoções e sentimentos não estejam envolvidos. Meus amigos, minhas amigas: não somos robôs. Se você espera que seu parceiro ou sua parceira se relacione com alguém pelo qual não nutra a mínima afeição, sinceramente, espero que ela ou ele encontre alguém melhor e não estou me referindo ao outro e à outra. Se você acha que tudo se baseia no “lavou-tá-novo”, prepare-se para grandes momentos de decepção. Você não entendeu nada.

Também poderíamos pensar sobre o que diz respeito ao casal e ao que diz respeito a cada um dos seres que o compõe e qual o direito de cada uma dessas 3 entidades (o casal e os dois seres) se meterem individualmente nas relevâncias que não lhes dizem.

Assim, nesses meus 37 anos em que experimentei alguns tipos de relacionamentos dentre os infinitos possíveis posso dizer que vi poucos relacionamentos realmente abertos, pois um relacionamento realmente aberto exige um casal verdadeiramente fechado em suas convicções éticas.

Mais uma vez, faço o necessário friso de que tudo o que escrevi acima é uma generalização (embora saiba que o(a) leitor(a) é inteligente, quero que você saiba que nem todos os que aparecem aqui são meus leitores). Em muitos casos, onde escrevi homem pode ser lido mulher e onde escrevi mulher pode ser lido homem. Também acho que talvez se aplique a casais do mesmo sexo ou mesmo a outros tipos de casais dos quais ainda nem ouvimos falar com tanta frequência.

Outro adendo importante: o relacionamento aberto é apenas um conceito e certamente quando damos um nome a um conceito as pessoas preenchem essas palavras com todas as suas expectativas boas e más, boa parte das vezes equivocadas. Ele é apenas uma de inúmeras opções que temos para interagir afetivamente com outras pessoas. Cada um deve buscar a sua modalidade, aberta, fechada, feijão com arroz, colorida… não importa. Não existe a melhor: existe a sua.

Como não sou autoridade no delicado assunto, abro os debates.

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