Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
21 jun 2009
Tenho a intuição de que as leis Éticas são tais e quais as leis da natureza, imutáveis como a gravidade, esperando as fórmulas que as descrevam, provavelmente muito mais complexas que aquelas de Newton.
Assim, diferentemente do que imaginamos, os animais não seriam aéticos – desprovidos de Ética -, mas tão somente agiriam de acordo com as leis das quais nos desgarramos. Onde só vemos irracionalidade, na verdade manifesta-se o que há de mais puro em termos de economia, harmonia, beleza e integração com o Universo, mesmo em suas facetas mais brutais. Porém, para serem assim, os animais, por exemplo, não são livres. Eles não podem escolher agir diferente do que se consideraria ético.
E talvez justamente a nossa racionalidade nos tenha afastado disso. A todo instante buscamos trazer essas características às nossas ações, sem poder voltar à irracionalidade, no entanto: somos livres para escolher. Talvez buscando algo além da própria racionalidade, tentamos voltar para um modo ético de ser.
Os homens, a cada época e de acordo com os costumes, vivem de acordo com regras que não passam de simulacros, caricaturas, das leis da Ética. Chamamos essas regras de Moral.
Um modo de entender isso. A decisão Moral é a coletividade de um determinado local ou época se impondo sobre o indivíduo. A decisão ética é o indivíduo, por livre escolha, se posicionando em um sentido mais universal. Como se as duas coisas fossem o equilíbrio da energia centrífuga e da energia centrípeta.
Uma maneira de visualizar a relação que há entre Moral e Ética é imaginar uma pedra no meio de um lago e um barco preso a essa pedra por meio de uma corda.
A pedra é a Ética. Leis universais que estão impressas em todos os seres. Alguns seres, como os humanos, tem a opção de viver mais próximos dessas leis ou não, temos liberdade, pois nós enxergamos a Ética, embora não saibamos seus fundamentos, onde ela se finca e se alicerça no fundo lodoso do lago. Não sabemos qual a sua profundidade. Outros seres, desprovidos de tal consciência, mesmo sem ver a Ética agem de acordo com ela, pois não tem opção. Estão postados sobre ela, mas não a veem e nem tem necessidade disso, cumprindo sua sina natural.
O barco preso à corda, onde navegam os homens, é a Moral. Ela flutua de acordo com a profundidade das águas, que varia com as épocas de cheia e de seca. Na abundância, sobe. Na carestia, desce próxima à lama do fundo. De acordo com as conveniências, puxamos a corda de maneira que o barco fique mais próximo da rocha em torno da qual gravita, mas nunca a ponto de tocá-la. Por vezes, deixamos o barco se afastar. Mas precisamos estar nele.
É nele que a sociedade de cada época viaja para o estágio seguinte.
Um comentário para "Reflexões sobre ética"
Falar de ética e moral é tão difícil quando falar de arte e estética!
Posso pular do barco e ir nadando para as margens ou até a pedra lá no fundo para ver como ela é?
Isso de pular do barco me lembrou do filme Viagens Alucinantes, onde o protagonista usa drogas (se não me engano) e uma câmera de privação dos sentidos para voltar à consciência primordial, chegando a ir além do estágio Neandertal.
Acho que prefiro chamar de instinto o que você chamou de ética. Não sei se um animal tem ética ainda que tenha alguma inteligência e até consciência.
Qualquer que seja o nome que a gente dê eu também acho que há um tipo de sabedoria nisso que não devemos perder de vista enquanto desenvolvemos nossa moral e ética. Nem que seja para não esquecermos que aquela voz primal continua falando conosco enquanto nos achamos tão avançados e civilizados que nos achamos diferentes dos outros terráqueos (animais, vegetais, fungos etc).
Sabe, eu creio que parte do processo de se tornar consciente (ou moral) é observar criticamente a tal pedra lá no fundo do lago e avaliar o que devemos manter e o que já está na hora de abandonar daqueles tempos primitivos.
Ótimo post! O que nos instiga é ótimo!
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