Descobri algumas coisas no primeiro dia de reciclagem no Detran. A mais interessante delas é que a maior parte das pessoas que estava na sala não tinha cometido as infrações que as levaram a ter a Carteira Nacional de Habilitação suspensa. E a instrutora sabe disso.

Ao final da aula aplicou um questionário – sem identificação e com fins estatísticos – que incluiam as opções:

  • marque com um xis a infração que você cometeu
  • marque com um xis se foi você que as cometeu ou não
  • e, nesse caso, marque também se o problema se deu por falta de apresentação do condutor ou porque você assumiu a infração por outra pessoa

Ela explicou que o personagem mais comum em suas aulas são os pais ou avós, geralmente idosos, que por assumirem as culpas de netos e filhos vão parar ali. Outro personagem comum são casos como o meu: falta da apresentação do condutor quando de alguma infração que conduza a suspensão direta ou por pontos. Ou porque ficaram com pontos na CNH pois não fizeram a transferência de um veículo como manda a lei e aquele que deveria ser o novo proprietário do veículo não assume as infrações.

Uma senhora, colega minha durante esta semana, faz pela segunda vez o curso. Disse que acha até divertidas as aulas. Tem nas costas multas que seriam para filhos e um genro. Muito paciente. O neto, um dos beneficiados, vem trazê-la e buscá-la ao final da aula.

Apenas um terço, aproximadamente, está ali por faltas que de fato cometeram. Pelo menos na amostragem de minha sala.

Um deles é um sujeito divertido ao lado de quem sentei. Caminhoneiro e ex-funcionário de funerária foi pego embriagado depois de um acidente. Nada grave (o acidente; a irresponsabilidade de dirigir bêbado ele assumiu), mas suficiente para fazê-lo ter a carteira suspensa por 12 meses. Estaria em condicional por dois anos, mas não tem ido assinar a presença no fórum, o que, acredita, pode lhe dar problemas em breve.

Há dois anos não bebe (os outros motoristas presentes disseram que preferem ficar sem carteira a parar de beber). Trabalha agora em um açougue e disse-me que as pessoas pararam de comprar carne de porco depois da gripe suína.

- Ignorância. Não tem nada a ver.

Conseguiu mudar o horário de trabalho para comparecer às aulas. Agora encontrou Jesus e, tirando o fato de não ter sido um preso condicional muito assíduo, ao que parece, está se endireitando e pretente, em breve, voltar a dirigir caminhões, sua paixão. Detalhe: com 30 anos, casado, juntado, amasiado, enfim, 8 vezes. Seis filhos. No momento, ora para que sua cara metade, tão devotada quanto ele, apareça. Diz não ter pressa.

A instrutora alertou-nos para ficarmos muito atentos às multas que levamos. Agora, no Paraná, todos os policiais tem permissão para passar notificações e alguns deles não estão suficientemente preparados. Ao que parece, tem chegado algumas bobagens passíveis de contestação ao Detran. Na primeira instância ninguém ganha. Mas se você entra com recurso na segunda instância, no Jari, as chances sobem. No entanto, no Diretran, órgão de trânsito municipal, ela não sabe como a coisa funciona.

Uma senhora, no começo da reciclagem, disse que era um absurdo estarmos naquela aula com essa história de gripe e todos os colégios com atividades suspensas. Ao que a instrutora, sempre muito sorridente, respondeu que ninguém era obrigado a estar ali e, caso ela preferisse, poderia marcar a reciclagem para uma outra data.

Ao que todos concordaram que seria uma boa idéia. Ninguém gosta de encrenqueiros.

Agora que você já leu o texto todo, que tal compartilhar com seus amigos? É só clicar nos botões abaixo!

Leia também:

  • Eu: motorista infrator hamletiano
  • Pode levar
  • Penso em você, Miss I Killed a Thousand Hearts
  • 31 de dezembro. Meia noite. Laranjeiras do Sul
  • Pedidos para apagar comentários em post sobre mercado pornô
  • Cracatoa destaca de 10.4.2010 a 16.4.2010
  • O último beijo
  • Pirateie minha vida você também!
  • Sonhos sonhos são
  • Participe da Bienal do Vazio montando e fotografando o seu próprio Vazio