O primeiro motivo que me vem para não ir a uma festa de formatura são os convidados, mesmo os mais magros, que insistem em se colocar dentro de vestidos e ternos dois números menores, seja por valor emocional da peça seja porque ninguém que se preze aluga um traje para um festa de formatura. Então, ausentar-se desse tipo de comemoração é esquivar-se de um festival de lingüiças mal preenchidas. Se algo cai no chão, ninguém se aventura a se abaixar sob o risco de rasgar a calça ou a saia. Certa vez vi uma nota de R$ 50 que ficou caída do início do baile até o momento em que eu ousei permanecer. Ninguém queria colocar à prova as costuras já tão velhinhas.

O grande problema dos bailes de formatura é que as pessoas realmente dão valor a ele. Se você é convidado e não comparece, corre o risco de perder o amigo. Afinal, foram dois anos de reuniões semanais, para discutir temas importantes como a cor do friso da toga – ô, palavra horrível -, se os homens devem estar vestidos da mesma maneira e se as mulheres poderão usar saltos menores que cinco centímetros. Ah, sim. Tem também as infindáveis votações acerca do tipo de fonte que será usado no convite.

Portanto, é muita energia desperdiçada, ou aplicada, para que você despreze com tamanha facilidade a festança. Não que eu desdenhe totalmente essas reuniões. Mas, durante minha curta estada em uma faculdade, percebi que isso não era para mim quando minha proposta de formatura não foi aceita: guardarmos dinheiro separadamente para que cada um de nós viajasse sozinho para onde quisesse.

A verdade é que os bailes de formatura são os rituais mais bizarros desde o sacrifício de virgens descabeladas em Papua, no século 13. Quarenta ou cinqüenta marmanjos e moçoilas, vestidos e empetecados como se dirigissem para a primeira comunhão, se reunem para comemorar o final de um curso que provavelmente vai lhes dar tanto arcabouço para a vida quanto um seminário relâmpago de jogo da velha.

Eles se abraçam e brindam como se essa não fosse a última vez que fossem se ver. Ou melhor, como se não fosse isso que a maioria deles deseja ardentemente: nunca mais ver aqueles seres que, pelos mistérios lotéricos do vestibular, dividiram as mesmas salas, professores e até, quem sabe, algumas doenças venéreas.

Naturalmente, todos se adoram, principalmente depois das acaloradas discussões sobre se o bufete deveria servir canapés ou canudinhos recheados com maionese. Esse tipo de coisa, canudinhos recheados com maionese, estreita os laços.

A coisa toda é mais ou menos previsível. A família do formando senta-se a uma mesa a ela reservada. O pai, empolgado com o canudo que a filha recebeu, pagará a todos – inclusive a gente que ele nunca viu na vida – doses de uísque a um preço que ele encontraria mais barato e de melhor qualidade no setor de desinfetantes do supermercado. Se você, como eu, não é do tipo que abusa das fragilidades emocionais alheias, vai ter que se contentar com um refrigerante a fim de não onerar ainda mais o patriarca, que deve gastar na ocasião mais ou menos metade do que pagou para tirar seu filho da cadeia ou para sua filha colocar as próteses de silicone nos seios.

Cada uma das mesas é, por assim dizer, uma festa particular que teria saído muito mais barata se estivesse na respectiva casa. Mas por bem ou por mal – fico com a segunda opção – algum gênio disse: ei, que tal se juntássemos todo mundo, Johnny? Vai sair bem mais barato, não acha? Mal sabia ele.

Aí tem todo aquele protocolo. Os formandos, que até então mosqueavam entre um grupo e outro tentando ser gentis com os pais de seus futuros concorrentes, se esforçando em não parecer tão embrigados, são chamados aos bastidores. E um a um são convocados ao salão, pelo locutor que invariavelmente erra a pronúncia dos nomes. Então, os bacharéis devem percorrer um determinado caminho na pista, sob pena de, se errarem, marcarem esse momento tão especial com aquela cara de “para onde vou, onde eu fico”, agarrado ao braço do pai e da mãe conforme o caso.

Talvez haja mais um problema quanto às roupas das pessoas. A variedade de cores, brilhos e texturas excessivas transformam a coisa toda em algo mais tresloucado que uma festa à fantasia. O conselho é, caso não haja meio de evitar o evento: vista algo discreto e talvez ninguém note que você esteve por ali. Disfaçar-se de pilastra pode funcionar.

As bandas contratadas para essas festas são um caso à parte e têm revolucionado tanto as formaturas quanto os casamentos. Começam, geralmente, com músicas românticas enquanto os convidados vão chegando, tentando passar entre as mesas, cadeiras e bundas suarentas espremidas. Você poderá notar que, para cada canção, o casal de vocalistas – sempre um casal – tem uma coreografia diferente. São afinadíssimos e além disso cantam bem, tentando imitar ao máximo o cantor original, o que me faz pensar por que diabo não contrataram uma vitrola. Seria mais barato.

Depois é a vez dos formandos que dançarão com seus pais e mães uma versão sitentizada da Valsa do Imperador que, na falta de um adjetivo mais eufemista, vamos chamar de jacu. Não bastasse isso, o mestre de cerimônias chama à pista todo o resto dos convidados, aqueles que gostariam de valsar ao som das Ondas do Danúbio, mas que acabam tropeçando uns nos outros num arranjo que lembra muito as Marolas do Tietê.

Agora entra um motivo pessoal para eu não gostar de bailes de formatura – e ele não supera em nada a idéia de que eles são extremamente chatos e assustadores, embora pese na minhão opinião -, que é o fato de eu conhecer alguns marrecos e ornitorrincos que dançam melhor que eu. Não que eu não dance. Eu danço, mas meu seguro de vida não cobre isso.

Todas as duas vezes em que eu fui a um baile de formatura foi a convite de alguém, duas garotas com quem eu saía, em cada uma das ocasiões. Em todas elas havia a promessa de se dançar duas ou três músicas e partir. Da primeira vez, imaginei que a experiência havia sido ruim. Na segunda, resolvi dar uma chance ao baile. Um evento em que os convites são tão disputados não pode ser tão ruim assim.

Então, como relacionamento é sempre ceder um pouco, eu ia. Nas duas oportunidades, vi caras feias e descontentes como se eu tivesse sido responsável pelo holocausto na Segunda Guerra Mundial quando a única coisa que fiz foi querer a contrapartida ao fato de estar ali, no baile, dizendo gentilmente que não queria mais dançar. E não que eu não permitisse a minha acompanhante dançar com outra pessoa mais versada nas artes de Fred Astaire. Eu apenas queria ficar ali, apreciando o freak show, quando engravatados e mulheres de vestido longo praticavam patinação naquilo que já era uma lama feita de cerveja e refrigerante, ornados agora com os brinquedos fosforescentes que as organizações dos bailes inovadoramente distribuem, sob a inspiração de Belzebu, naturalmente.

A essa altura a banda está tocando qualquer tipo de música, desde que seja a que estiver mais na moda e a que você não tocaria para seu filho de dez anos, não só pelo baixo calão, mas principalmente por seu valor estético. Ou seja, é uma música adequada para pessoas que acabaram de sair da faculdade.

Não posso negar que cheguei a imaginar o que aconteceria caso algum piromaníaco, depois de cinco anos de um curso de psicologia, resolvesse dar vazão a seus impulsos mais primais. Mas, claro, isso não passou de um capricho de minha imaginação, antes que alguém diga pra mim que freak sou eu.

De fato, devo ser, afinal, eu danço mal e talvez precise fazer um curso de danças de salão.

Mas o último lugar em que eu gostaria de dar mostras desse meu novo conhecimento é num baile de formatura. Se você quiser ir a um, não me chame.

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