Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
17 ago 2008
Essas coisas que eu faço. Essas coisinhas que escrevo.
Não são apenas para comer todas as garotas que como e que comi.
Essas coisas que eu faço. Essas coisinhas que escrevo.
Há muito por trás delas além de um pau dentro de algumas bucetas.
Além dos fatos de que, por trás do pau, há um homem – eu – e de que por trás das bucetas há mulheres – elas.
Já escrevi por muitos motivos. Um deles é para chatear. Se você está chateada (e ainda estamos nos primeiros parágrafos), talvez esse seja o objetivo deste texto.
Se não está – ainda -, talvez não seja.
Escrevo também para contar o que aprendi. Mais do que para contar, para não esquecer. Mais do que para não esquecer, para lembrar. Pois tudo o que se conta, esquece-se. Tudo o que se esquece, lembra-se.
Esqueci para poder recordar, diz o velho. Mais das vezes lembra-se tarde demais. Ao menos, aí, ao escrever-se, está tudo registrado para o camarada saber onde errou quando lembrar que fez anotações sobre isso em algum lugar e vai revirando os bolsos.
Quando escrevo, às vezes, me vêm imagens na cabeça.
Me vem imagens da Avril Lavigne, por exemplo.
Como é que uma cantora tão disparatada como Avril Lavigne vem parar na cabeça de um homem como eu? Eu, tão Billie Hollyday.
Muito bem. Acontece que namorei uma garota que era a cara dessa tal deliciosinha Avril. Igualzinha ou muito parecida. Mas a imagem me vem pois sempre que eu penso nessa garota – a que namorei – sinto que a Avril, em seus clipes (mesmo nos tristes) parece mais feliz que ela.
E é absurdo, pois eu chego a parar para ver os tais clipes. Só para sentir uma certa melancoliazinha: ao concluir como a cantora é feliz – chega a saltitar e a segurar microfones lantejoulados – e a outra (a menina que namorei)… bem, ao concluir que a outra eu não sei se é feliz. E estou quase certo de que não é. Mas não importa agora. Pois não penso na garota em si – que me deixou -, mas na idéia de que nem sempre – quase nunca – podemos fazer os outros felizes.
Só sei que ela só se sentia calma ouvindo música pesada, que a Avril Lavigne me lembra dela e que ela me lembra desse sentimento. Talvez ela até leia isso aqui, mas sei que não vai se importar porque em tantas outras ocasiões não se importou com o que escrevi.
Também escrevo porque certa vez – ao dizer que estava decepcionado com uma dessas mulheres – ouvi ela responder que é isso mesmo: que as pessoas decepcionam. Não é nada pessoal: você tem que estar preparado para as decepções. Não é nada pessoal.
Ainda que atirem em sua cabeça com uma escopeta, não é pessoal. O problema não é você. Sou eu, que estou com uma arma e munição pesada. Não levar nada como algo pessoal é a filosofia que os portadores de escopetas sugerem às suas vítimas.
Por isso, enquanto escrevo, às vezes, me vem a idéia de comprar uma escopeta. E, claro, se eu escrever algo que ofenda ou entristeça alguém, espero que essa pessoa entenda: não é nada pessoal.
Cuidado, porque quando os cartuchos saltam da arma, depois do tiro deflagrado, ainda estão quentes e podem queimar, de leve, quem está do lado do atirador.
Escrevo porque um dia gritei com minha primeira namorada. Foi por um motivo bobo. E essa única vez é suficiente para que eu escreva triste, triste, triste de vez em quando.
Escrevo porque é a das poucas coisas que sei fazer e me sinto fluir enquanto o faço e a única que faço que, bem ou mal, paga as contas. Talvez eu não seja tão bom. Mas não me importa, se me sinto fluir. Ninguém questiona um rio. Um rio é um rio. Uns podem achar aquele mais bonito, aquele outro mais sujo. Mas um rio é um rio, disso não há dúvida.
E também porque, quando penso, não me vêm imagens, mas palavras apenas. Só consigo ouvir minha voz solitária. Solitária como a máquina de escrever do Snoopy, quando tudo começou em uma noite de tempestade. Minha barriga está cheia de palavras, meus bolsos estão cheios de palavras, meus sapatos estão cheios de palavrinhas que incomodam meus pés, como pedras, quando ando. Meu verdadeiro fetiche são elas, as palavras.
E, às vezes, quando vou falar, fico mudo. As palavras também são meus fantasmas. Nascem mortas em minha boca, assombram-me durante a noite ou quando estou só e são exorcidadas quando as escrevo. Palavras são como zumbis. Atire sempre na cabeça. Ainda assim, algumas sobrevivem. Não há gigabyte suficiente no mundo para dizer o que eu tenho para dizer. As palavras, elas me cercam, esses zumbis.
Talvez por isso, jamais consegui enganar uma mulher. Não por incapacidade de mentir. Mas por um vício secreto de ser sincero. Uma fraqueza que eu tenho de querer saber como ferem as sílabas a pele nua. Escolher uma verdade – dentre as muitas possíveis – sempre me foi mais fácil do que dizer a mentira exata. E só existe uma mentira exata. Verdades? Milhares, todas prováveis. Mas só a mentira exata produz o resultado desejado, seja lá qual é ele.
Vivi por uns tempos com uma garota que acordava chorando. Haviam tirado dela algo muito precioso, algo que eu jamais poderia substituir – já falei algo aqui sobre felicidade, certo? – e era isso: ela acordava chorando, com a vontade deposta, as mãos incertas e a incapacidade de viver esmagando-a na cama. No caso dela, eu poderia dizer que escrevo pelas vítimas da má aplicação da justiça. Mas nunca escrevi algo assim. Pois a justiça humana é algo que não entendo e que jamais entenderei, porque aparentemente não há justiça humana no mundo suficiente para todos os humanos. O que deveria ser uma fonte inesgotável e perene, dia a dia mostra ser finito e perecível. A justiça, o amor, as lágrimas, a capacidade de se compadecer, o que for.
Escrevo porque sempre pedi perdão na hora errada.
Pedi perdão certa vez e, aparentemente, era muito cedo.
Pedi perdão uma outra vez e, aparentemente, era tarde demais.
Talvez não haja hora para pedir perdão, talvez toda hora seja certa para pedir, mas só o segundo perfeito permita que ele seja concedido.
Escrever pode ser, entre outras coisas, pedir perdão permanentemente. Eventualmente é pedir perdão permanentemente no momento errado, no caso desse momento certo nunca existir. Um texto é pior que um relógio parado, então. Dizem que um relógio parado, pelo menos duas vezes por dia está certo. Já um texto pode estar errado eternamente, não importa quantas voltas dê em torno de um relógio parado.
Assim, escrevo, de qualquer maneira, sem me importar com tudo isso, para pedir perdão. Se algum dia escrevi algo que chateou você – vocês -, escrevi como o Capitão Ahab que, ao tentar matar a baleia branca Moby Dick, não tentava matar a baleia, mas a ele mesmo, o ele mesmo que havia dentro da barriga do animal. Esta noite parto para o mar, meu amor, para não mais voltar. E, se eu conseguir perdoar a mim mesmo, você saberá ao quebrar das ondas, pois perceberá que o mar ficou mais leve.
Essas coisas que faço. Essas coisinhas que escrevo, nada têm a ver com meu pau ou a sua buceta ou de quem quer que seja.
Por trás delas há muito mais, por trás do pau, um homem, por trás das bucetas, mulheres.
Por trás de tudo isso – como em camadas e camadas de inseguranças, tristezas, medos – há um amor imenso, que teima em sangrar através delas. Como uma rosa a sair da pedra, como uma música que atravessa a parede de uma cela e traz o mundo para o encarcerado. Como palavras em um livro fechado. Um livro fechado do qual, de vez em quando, consigo vislumbrar uma frase por entre uma fresta que abro. A formiga a erguer o rochedo.
Por isso escrevo.
Conhecer você – vocês – foi a melhor forma que encontrei para me conhecer. Conhecer você – vocês – foi a melhor coisa que já fiz em minha vida.
Por isso escrevo.
8 comentários para "Por que escrevo ou Nunca escrevi para comer ninguém"
É, escrever é sempre algo estranho e incomum, ninguém escreve sópro escrever, mas há sempre o que escrever es empre um porquê de escrever independente de se saber ou não o motivo. Voltarei mais vezes gostei do local e dos escritos. Até breve!
Rapaz… que coisa!
Volta e meia também fico pensando em porque escrevo… e nunca tinha encontrado uma resposta (de todas as possíveis)!
De qualquer forma, hoje posso dizer que escrevo pra poder causar nas pessoas o que esse texto seu causou em mim…
Sei, é muito parcial e impreciso para todos os que vão ler isso aqui… mas, nesse momento, é o máximo que eu posso dizer!
Abraço!
É realmente tocante…Inquietante mesmo…
Mas cada um tem seus motivos, ânsias e desejos pelas palavras…
Resumindo…Perfeito!
[...] Leia também Por Que Escrevo ou Nunca Escrevi para Comer Ninguém no blog Cracatoa Simplesmente Sumi… [...]
Tocante e sincero. Adorei a idéia da mentira exata. Na minha opinião, você atinge seu objetivo ao escrever. Parabéns.
Thiago,
ainda demora para eu atingir o objetivo. Talvez eu precisasse de duas vidas. Mas todos nós, até onde sei, só temos uma.
Abraços.
gostei muito do site, dos textos, e ainda mais do conteudo, vc é um otimo escrito, não sei bem qual seu objetivo ao escrever, mais achei muito tocante seu texto. se vc não fosse escritor eu ate mesmo diria que esta sofrendo de amor..rsrsrs parabens.
Edsangela,
como diz Fernando Pessoa:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Beijos do Ale.
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