Eu sempre vi de muito longe os acontecimentos no tal do planeta Terra. As notícias demoram a chegar por aqui, sabe?

Agora eu soube que os cientistas tiraram de mim o título de planeta. Bem, no que me diz respeito, se um dia eles me deram esse título, podem tirá-lo quando bem entenderem. Se você quer saber, não faz muita diferença.

Antes de os cientistas existirem, muito antes, eu era essa esfera rochosa a atravessar o silêncio. E depois, muito depois de eles deixarem de existir, ainda serei. E naquela época eu nem nome tinha, quanto mais um título. E muito tempo passará, suficiente para que eu mesmo esqueça que um dia tive. O frio que faz por aqui, no entanto, vai permanecer o mesmo.

Ouvi dizer que a Terra é azul, mas daqui não dá para ver muito a cor. Mal dá para ver o Sol que, para mim, é pouco maior que as demais estrelas. O calor que chega dele é tão pouco que mal me faz cócegas.

Daqui a alguns bilhões de anos ele vai inchar, depois de gastar todas as suas forças, vai entrar em colapso. E em sua agonia vai engolir Mercúrio, Vênus, Terra, talvez até Marte. Todos eles serão calcinados. Mas tudo isso são coisas de que ouvi falar. Talvez nem aconteçam.

Mas se acontecerem, também ouvirei sobre isso com imensa curiosidade. Talvez, quem sabe, eu até consiga enxergar melhor o Sol da distância em que o orbito, caso ele se expanda tanto quanto dizem que fará.

A verdade é que, com algum atraso, claro, fiquei sabendo que não sou mais um planeta. Aqui não tem internet banda larga, sabe? As fofocas custam a serem ouvidas.

Eu tenho essa órbita esquisita, que não está no mesmo plano que os demais planetas. Digo, os planetas. Afinal, agora não sou mais um deles. Também sou muito pequeno para ser. Meu diâmetro é menor que o do satélite da Terra, a Lua.

Mas me preocupa muito saber que haja tanto interesse numa bobagem dessas por parte dos habitantes do planeta Terra. O único planeta habitado, aliás, deste sistema do qual excluiram-me. Ao menos como planeta. Sim, preocupa-me, pois os cientistas falam muitas coisas, algumas delas bem importantes para o futuro das demais pessoas, esses autodenominados humanos.

Falam do aquecimento global, falam da camada de ozônio, de mudanças climáticas, da fome, da sede, da falta de ar, de água, de comida, dos perigos das radiações solares para suas imensamente frágeis vidas, para sua imensamente frágil permanência na superfície do único planeta habitado nas proximidades. Digamos único em milhares de anos luz em qualquer direção. Talvez milhões. Mas quando falam sobre todas essas coisas importantes, ninguém presta atenção.

No entanto, quando o assunto sou eu, tão distante, tão pequeno, me transformam nas manchetes dos jornais. Bem, se milhares de cientistas se encontraram para debater se eu era ou não um planeta, devo lá ter minha importância, mas, sabe? Não é pra tanto. Se estou tão longe é porque é de minha natureza ser tímido e não me importar com títulos e honrarias.

E quando alguém finalmente dá bola para algo que um astrônomo diz a preocupação seguinte é mais espantosa ainda. E a astrologia como fica? Como a influência do outrora planeta Plutão, agora rebaixado na hierarquia dos corpos celestes, fica sobre as pessoas nascidas sob este ou aquele signo? Algum jornalista deve ter se achado genial por fazer essa pergunta estúpida. Sim, ouvi falar dos jornalistas já.

Olha, quero dizer que nunca tive a intenção de influenciar alguém e, ainda que tivesse, duvido que, tão afastado, conseguiria. Você sabe, o campo gravitacional da parteira é mais influente que o meu sobre o bebê recém-parido. Nesse caso, se alguma coisa deu errado na vida de alguém, não me culpem. Mais fácil culpar o obstetra, o ginecologista ou o que for. Sou inocente portanto das boas e más sortes que acompanham as gentes por aí.

A questão é que neste instante, as pessoas deveriam se preocupar mais com os cientistas que estudam Vênus, por exemplo, um planeta – ah, este sim um planeta – muito parecido com a Terra. Mas mais parecido com a Terra caso o efeito estufa e as chuvas ácidas continuaem se agravando a esse passo. Embora tenha o nome de uma deusa dedicada ao amor, Vênus é mais parecido com um inferno com sua atmosfera corrosiva e suas altas temperaturas. Bem, tudo isso me contaram. Posso estar desatualizado. As notícias demoram a chegar por aqui, eu já disse isso. Você também deve saber que a cada dia, um pouco da calota polar da Terra derrete um tantinho.

As coisas estão mudando por aí. Não importa o nome que se dê às mudanças, chega um ponto em que elas não tem mais volta.

Talvez seja melhor se preocupar com as coisas mais próximas, como o destino do lixo da casa de cada um – lixo, um privilégio de planetas habitados. Eu, Plutão, nem um planeta sou mais, de acordo com os cientistas, não há porque se ocupar tanto comigo.

Talvez seja melhor se preocupar consigo mesmo, antes que seus filhos, seus netos, seus bisnetos tenham que enfrentar tantas mudanças ruins e antes que eles, em guerra por um copo de água, substância antes abundante no planeta sob sua responsabilidade e de seus antepassados, tenham que ouvir de um cientista que o homem também, como eu, foi rebaixado.

Deixou de ser um humano para ser outra coisa. Ainda sem nome.

E, finalmente, deixe de existir.

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