Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
20 set 2010
Às mulheres que matam
A sua vida é a cena de um crime, Miss I Killed a Thousand Hearts. Você, nas horas vagas, finge ter um torso sangrento na sala de estar. Tudo perfeito, sem os vestígios da mão assassina. Nenhum objeto fora do lugar, o sofá frio – ninguém sentou ali – e o dia acaba silencioso, sem telefonema.
E, se alguém a vir de fora, pela janela, verá apenas o seu olhar doce, garota, enquanto toma o chá após colocar ordem na casa, perdido como um farol estático, que não elucida as rochas. Antes faz cem barcos se lançarem aos arrecifes.
Uma culpa a mais, uma a menos. Não faz diferença para quem sonha deitada sobre a lâmina de uma espada. O entardecer tem aço nas cores que, pouco a pouco, viram noite. E a noite, para você, é dura como tal. Pois as injúrias, as que carrega, são como fantasmas. Não as vê, mas estão ali. A vigiar você, ao seu redor, de cima para baixo, com um julgamento de densidade metálica.
Você procura algo. Como um predador. Mas não sabe o que é. Em certo momento, supõe saber. Agarra-se a esse algo e, ao descobrir-se enganada, depois de ter sugado e doado, em uma troca insana, larga a presa. Pois, não, não era isso o que buscava. Piedade não existe. A piedade é um rato fedorento que começa a roer pelas tripas, de dentro para fora. Como a esperança.
Porém, nem bem chega a noite, nem bem chega a chuva, o telefone toca. O telefone toca e você está na metade do chá. Um destes de sabor sofisticado.
- Alô?
A voz do outro lado, aflita, quer respostas que você não tem. Não há respostas.
- Não. Não sei. Eu já expliquei. Você não entende. Não. Isso não existe. Nunca ouvi falar. Não.
Negar sempre. Negar tudo. Até a si mesma negar se preciso. Quem não sabe o que quer não sabe nada. E, se não sabe, posicionar-se a respeito de qualquer coisa inclui possibilidades de se assumir o que não se fez. Ou pior. Assumir o que se fez. Assumir, sem saber, inclui até mesmo as impossibilidades. E as impossibilidades, o legado do desejado e não satisfeito.
- Não. Assim é pior. Não, eu já disse.
Negar sempre. Uma lágrima pode sair espremida entre a necessidade de esconder os sentimentos e a premência que eles têm em ser paridos. No máximo.
Pode ser que, um dia, você sucumba ao peso dos corpos que arrasta como a um cordão. E seus passos, assim, fiquem mais lentos, o sorriso calculado que leva em seu rosto menos branco, os seus braços menos viçosos, sem forças com que agarrar-se ao que quer ou acredita querer. E aí seria bom que, a essa altura, soubesse mais de seus anseios. Pois aquele que sabe não persegue nem caça. Deixa vir.
Talvez um dia você descubra que os desejos, os verdadeiros, pousam no indicador como o pássaro que faz amanhecer. E, sem esforço, ouve-se a canção da vida e sente-se vivo na melodia.
Porém, se por outro lado não tiver feito essas simples descobertas, pode ser que o aprendizado venha pela dor. Pois a dor faz parte do mundo. E ela só é conhecida através do outro. Causá-la por ignorá-la não a deixa imune de seu revés.
Insone, deitada a ler palavras no teto em línguas desconhecidas, verá a silhueta que se aproxima com o punhal. E, finalmente, sem saber mais o que fazer, deixará que esse espírito vingativo lhe arranque do meio do peito a flor seca e mal cultivada. Ele, que faz isso de um só golpe, sou eu, é o outro e o outro. Somos nós, todos os traídos por sua alma volúvel e pelos próprios julgamentos ingênuos.
Despencará a lâmina sobre a carne com o peso do que poderia ter sido mas que você não permitiu ser.
E, então, restará apenas uma coisa a ser dita.
Aqui jaz Miss I Killed a Thousand Hearts: amada, sem saber se deixar amar, e amante, fatal para os que a amaram.
Jamais será esquecida.
Leia também sobre as duas outras misses:
2 comentários para "Penso em você, Miss I Killed a Thousand Hearts"
Nossa, essa doeu! Belo texto…
Consigo compreender a Miss I Killed a Thousand Hearts… Ou pelo menos acredito que sim.
O mundo não parece uma imensa pista de corrida, às vezes?
Resposta: Misteriosa J.
Pode ser. A gente corre, corre, mas para chegar no mesmo ponto de onde saiu. Pode ser isso… ainda assim é divertido. Gosto de sentir. Não sei se é esse o sentido que dá ao comparar a vida a uma pista de corrida….
Mas eu também entendo a Miss I Killed a Thousand Hearts. Depois que você aprende exatamente o que ela quer, fica até mais fácil desejá-la, sabendo-se até onde se pode ir. Afinal, não é por mal. Cada um dá o que tem.
Beijo,
do Alessandro.
Oi Alessandro,
Tamanha a identificação com eles!
Tudo bem?
Faz um tempão que quero te escrever…
Sou a-pai-xo-na-da pelos teus textos.
E ‘no pacote apaixonada’ entenda por tudo que a paixão faz com a gente.
Sem qualquer pretensão, (por favor!!!) me identifico com a miss, aliás com to-das. E até com o Pintinhas…É incrível. Mas os bons textos são assim mesmo. A gente pensa (sonha?) que foram escritos para e sobre a gente.
Quanta sensibilidade.
Meus parabéns.
Abraços.
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