Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
24 abr 2007
Nos Estados Unidos, como vimos no filme Paris-Texas, do Win Wenders, os peep-shows consistem em cabines em que belas garotas, sob a proteção de uma grossa mas transparente vidraça, tiram a roupa e executam pequenos truques de acordo com o gosto do cliente.
Aqui no Brasil, somos mais modestos. E o que chamamos de peep-show não passa de um corredor com pequeninos cubículos. Em cada um deles há um televisor – e em cada canal passa um filme pornográfico diferente -, uma cadeira, um rolo de papel higiênico e um cesto de lixo onde o tal papel higiênico será posteriormente depositado. Normalmente são freqüentados por aqueles senhores que ou não têm videocassete em casa ou não têm, diante do puritanismo e da não-aprovação da mulher, a possibilidade de assistir a tais aventuras na intimidade de seu quarto ou que gostam, tem tara, adoram freqüentar peep-shows.
Poesia concreta
Poeta concreto, para mim, é Muhammad Ali. O resto é perfumaria. De fato, nada mais concreto que o estrago feito por ele na cara dos adversários. Aquilo sim era poesia, construída a custa de bíceps, tríceps e músculos similares. O punho a atirar o corpo do adversário para o alto na trajetória parabólica e inevitável do nocaute, sim, é digno de tal classificação nos ramos e sub-ramos da arte. Diante daqueles que se dizem poetas concretos e, no entanto, fazem tão mal uso das palavras, dispensa-se o uso das letras. Fiquemos então com a dinâmica do gesto que, como um murro, diz pouco, mas diz tudo.
Mas sou injusto em não citar um outro grande nome da poesia concreta.
Aquele Cassius Clay também era muito bom.
A loja na feira-do-cu
Certa vez, no tempo em que eu não tinha quarto próprio em casa – quanto mais videocassete no quarto próprio – senti vontade de ver um filme pornográfico. Embora não fosse casado e nem seja até hoje, enquadrei-me nos dois primeiros casos acima citados e, quem sabe, até mesmo no terceiro: sem vídeo-cassete, sem aprovação dos familiares e com uma certa tara pelos lados obscuros da vida. Fui até a Ponto G, sex-shop que havia perto do lugar onde eu trabalhava e que agora mudou de nome. Ali eles ofereciam, na época, esse tipo de serviço.
O lugar fica em uma viela que, durante o dia, tem algumas simpáticas lojas de artesanato e, que à noite, se transforma no que habitualmente se chama de feira-do-cu, com garotos de programa a vender os seus serviços aos pais de família curitibanos.
Lan houses
Curitiba não tem mar, mas tem bar, já disse alguém. A cidade muda, os jovens que nela vivem mudam. E, hoje, eu diria que Curitiba não tem mar, mas tem Lan House. Nos fins de semana essas casas com seus computadores em rede ficam cheias. O público, formado principalmente por homens na faixa dos 15 aos 35 anos, se diverte a brincar de polícia e ladrão. Com a diferença de que agora é lícito matar o inimigo, uma vez que ele renascerá ileso na próxima rodada.
Para quem nunca ficou duas horas a brincar nesses inferninhos da era do silício, descrevo a cena. Um computador ao lado do outro, centenas, cada um com um piá de bosta a olhar hipnotizado para a tela. Provavelmente, cada um deles encarna um terrorista ou um membro da força anti-terrorista. O jogo é o Counter Strike, o número um das lan houses que ficam abertas a noite inteira, pois facilmente passa-se a noite inteira a jogar.
Passeio ciclístico pela paz
Minha cabeça divagava nesses pensamentos naquele domingo, enquanto eu me via preso dentro do carro. E tais idéias se intercalavam com indagações sobre o que levava milhares de pessoas a tirarem suas bundas da cama, pegarem suas bicicletas e infernizarem o habitualmente fluido trânsito dos fins de semana.
Certamente, para um passeio ciclístico em nome da paz, ter milhares de motoristas a buzinar irados enquanto esperam o último psicopata sobre duas dominicais rodas passar, não é um bom resultado. Acredito que, se perguntassem a qualquer dos condutores que pouco pacientemente ali esperavam o que achava da paz, ele diria que estaria pronto a reinaugurar o Vietnam, com direito a fita vermelha e tesoura dourada.
De volta a lan house
A comunicação é feita através do teclado e, vez por outra, escuta-se um grito de satisfação de alguém que desferiu um tiro certeiro e os dois inimigos trocam carícias verbais pouco publicáveis. Tudo é resolvido, no entanto, à bala, mas na próxima rodada, quando os terroristas terão que explodir um alvo cujo conteúdo é pouco claro.
Não é necessário mais que duas horas portanto, nesse ambiente e com os olhos vidrados no monitor, para que o sujeito saia dali um tanto chapado e com uma leve sensação de euforia e inadequação ao mundo.
Quando, de madrugada, passo por uma dessas lan houses com suas meias-luzes acesas, para mim é inevitável pensar em solidão.
As garotas
Entrei na loja. Antes de pedir a ficha para usar no televisor dentro do cubículo, dei uma olhada nos produtos. Então ouvi que duas garotas conversavam, baixinho, com a atendente. Percebi que elas insistiam em entrar juntas na cabine, o que, pelas regras da casa era proibido. Continuei a olhar os produtos, sem muita atenção, pois agora estava atento àquelas palavras sussurradas. Não consegui entender muita coisa na verdade, mas ao que parece, as duas foram convincentes, pois compraram algumas fichas e entraram as duas no tal corredor e, provavelmente, na mesma cabine.
Esperei um minuto e comprei duas fichas para mim.
Ao entrar no corredor com os cubículos, encostei o ouvido em cada uma das portas. Elas estavam na última. Entrei na cabine ao lado que estava desocupada. Coloquei as fichas na máquina. Mas embora estivesse com muita vontade de ver aquilo, minha cabeça estava para além daquela fina parede.
Saí e novamente encostei o ouvido na porta. No momento em que ela se abria. As duas olharam firmes para minha cara
Novamente sobre poesia
Carlos Drummond de Andrade, esse sim era boxeador.
O que aconteceu
Dali a pouco, no balcão, pedi mais quatro fichas para a vendedora. Voltei para o corredor, escuro e discreto, onde para além de uma pequena porta, três pessoas, muito cuidadosamente, encontravam o que procuravam em um recinto apertado.
Era uma época em que ainda não existiam lan houses.
2 comentários para "Peep-show"
o que será que os garotos viciados em lan house pensariam se lissem esse texto? acho que vou ter que ficar na curiosidade!
bejus!
Resposta: Bom… havia tempos em que eu ia todo fim de semana… na verdade até que é divertido
Ah, sério que não tem um peep show de verdade no Brasil? Poderia ser uma forma das moças diversificarem seus serviços…
Resposta: Olha, deve existir… mas acho que não é algo assim tão popular, voltado às massas…
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