Durante o Campus Party, Ana Lúcia Fernandes sofreu abusos por parte de um homem genérico

Um homem – imagine um homem genérico – não costuma nem mesmo supor o que é, para uma mulher, andar por dez quarteirões, sozinha e a pé.

Um homem – o tal homem genérico – não costuma saber que tipo de coisas uma mulher ouve nesse trajeto. Simplesmente não passa por sua cabeça. Muito embora ele mesmo, genericamente, as diga inúmeras vezes.

Coisas que essa mulher ouve, a irmã dessa mulher ouve, a mãe dessa mulher ouviu e a avó, um dia, também. E a irmã, a mãe e a avó desse homem da mesma forma ouviram, mas dita por outros homens genéricos. Mas dá na mesma: é como se ele mesmo dissesse, pois, ao repeti-las, ele concorda que os seus colegas as digam e as tenham dito para a sua irmã, sua mãe, sua avó.

E ela ouve. Simplesmente por fazer um passeio ou ir ao supermercado ou ao trabalho, um trecho que percorre diariamente, um trecho pelo qual qualquer homem genérico anda impunemente, de camisa aberta.

E as coisas que ela ouve de homens genéricos se repetem com a mesma religiosidade das calçadas e portões. As nuvens e os carros mudam, mas o homem genérico continua sempre o mesmo.

E ela ouve. E, depois de tantas vezes manifestando indignação, fechando a cara ou apertando o passo, um dia ela finge que não ouve mais. Muitas, de tanto ouvir, tristemente passam a acreditar. Outras ficam surdas para sempre e nada mais as toca, nem carinho. O coração endurece como o chão que ela pisa no trajeto.

Os indianos, digo, os indianos da antiguidade, de milênios atrás, conheciam uma coisa chamada dárshana. Um dos significados dessa palavra: quando a mulher concede ao homem a sua imagem. A visão de uma parte de seu corpo ou do corpo todo, como uma manifestação divina. A visão de si mesma como um presente.

E dizem que o homem genérico, cinco mil anos depois, é evoluído: não se faz merecedor do que vê e recebe e, mesmo assim, quer ser ouvido. E tocar.

Um homem genérico não perde uma oportunidade de confundir desejo – que a mulher pode e deve provocar – com permissão, com permissividade. Confundir essas coisas é estar a um passo do roubo. A um passo de roubar coisas que sequer se entende, que não se pode guardar e que só tem verdadeiro valor para a vítima. A um milímetro de correr em um terreno que se deveria palmilhar. Não se pode levar a água na concha formada pela mão bruta. Ela sequer chega aos lábios.

Um homem genérico, enfim, não perde uma oportunidade de mostrar que não é digno sequer de um dia ter colocado a boca no peito de sua mãe.

Isto aqui era para ser um pedido de desculpas, mas acho que não há como se desculpar de coisas que continuarão a acontecer com todas as mulheres, pelo visto, durante muito tempo ainda.

Nelson Rodrigues disse que, até os 35 anos, um homem não sabe dizer nem bom dia a uma mulher.

Suponho, ele era um otimista.

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