Uma das passagens mais memoráveis dos quadrinhos, para mim pelo menos, é de uma historinha do Pateta. Permita-me contá-la mais ou menos como lembro dela, já avisando que, como convém, a lembrança é um pouco diferente do original, mas que o ponto a que quero chegar está preservado:

Pateta comprara uma casa cujo jardim estava muito mal cuidado.

Mato por todo o lado.

Mal se mudara, os vizinhos já começaram a olhar torto e a fazer comentários sobre o desmazelo do proprietário.

Ora, ele tinha acabado de adquirir a casa. Não tinha culpa e mal tivera tempo de arrumar a propriedade. As pessoas, porém, não se importavam em dizer que aquele era o quintal mais sujo e feio que já tinham visto na vida bem na frente do novo vizinho, como se ele tivesse morado ali nas últimas décadas.

Tudo o que ele desejava era ser querido por seus vizinhos e, tão logo chegou o fim de semana, pediu ajuda para seu amigo Mickey e, juntos, começaram a dar um jeito naquela bagunça.

Arrumaram canteiros aqui, cortaram a grama ali e plantaram flores acolá.

A surpresa se deu quando, ao capinar o mato mais alto do jardim, descobriram que sob aquilo tudo havia uma fonte. Uma fonte com peixinhos que cuspiam água e com uma pequena queda que poderia ser acionada para tornar o jardim, agora limpo, ainda mais bonito.

No dia seguinte, quando as pessoas iam para o trabalho, Pateta fico a postos para observar as reações ao seu jardim – agora limpo – e à fonte recém-descoberta.

Elas detestaram. Acharam a fonte horrível e, embora o quintal estivesse limpo, agora só viam a fonte que, para o gosto daquela gente, era terrível.

Mickey chega a tempo de encontrar seu amigo com a cabeça sob a pequena queda d’água, a enxarcar-se.

- O que está fazendo, amigão?

- Estou com a cabeça debaixo da água para ninguém perceber que estou chorando.

Não dá para agradar todo o mundo. Às vezes não dá para agradar ninguém.

Certa vez, eu tinha passado a manhã com meu pai em seu trabalho. Voltáramos de ônibus, pois embora tivéssemos carro, um fusca vermelho, não tínhamos dinheiro para a gasolina na época.

Então íamos a pé, nós dois, pai e filho, pela rua que ligava o ponto do ônibus até a nossa casa. Uma imagem suburbana de Curitiba. O pai voltando para casa com o filho, os dois prestes a fazer a próxima refeição – arroz, feijão e picadinho – preparada pela avó (a mãe trabalhava também).

Vou supor, para efeitos dramáticos, que era o ano de 86, o da Copa do Mundo do México, embora não tenha certeza.

Eu tinha então 12 anos e estava na sexta-série do que, na época, era chamado de ginásio. Meu pai, 36 (minha idade hoje).

Falávamos sobre, é claro, o mundial de futebol. De repente, vem à nossa conversa um personagem qualquer.

Vou supor, para efeitos dramáticos, que era o jogador Maradona, embora tenha quase certeza de que não era pois tenho a impressão de que seus problemas com drogas ainda não tinham se tornado públicos.

De qualquer maneira, poderia ser qualquer um dentre todas as personalidades que já tiveram problemas com drogas. Você sabe, celebridades desse tipo nunca mudam e são todas iguais.

Certo? Concorda comigo?

E foi o que eu disse quando a questão das drogas e o nome Maradona vieram à discussão.

- Essa gente nunca mais muda e são todos iguais.

O que eu esqueci foi que.

Meu.

Pai.

Tinha.

Acabado.

De.

Sair.

Da.

Reabilitação.

Por.

Abuso.

De.

Drogas.

- Então é isso o que você pensa?

Disse ele.

Não vou escrever o que respondi, pois não lembro. Talvez tenha tentado emendar o soneto. Talvez tenha ficado quieto.

Meu pai não era uma celebridade. Meu pai nunca jogou bola bem. Meu pai tinha um trabalho de meia-boca no serviço público.

Até onde sei, daquele ano em diante nunca mais teve problemas com drogas ou com qualquer outra coisa até o dia de sua morte.

(esses aí em cima: eu e meu pai)

O fato é que nem sempre você consegue agradar todo o mundo.

Às vezes nem o seu filho, que se revela nos resvalos das palavras. Nessas horas, às vezes o melhor é colocar a cabeça sob a água para ninguém perceber que você está chorando.

- Então é isso o que você pensa?

Disse meu pai. Sem chorar.

Essas palavras foram mais duras que qualquer surra que ele pudesse me dar. Eu ainda as ouço.

Quando vi a Argentina ser desclassificada de um jeito tão catastrófico e ouvi algumas pessoas comemorando por aqui de um jeito tão infeliz (toda comemoração pela derrota alheia é infeliz), lembrei-me da Copa de 82, quando o Brasil tinha um time que jogava de um jeito tão ou mais (provavelmente, para efeitos dramáticos, mais) expansivo que o argentino deste ano.

Zico, Falcão, Júnior, Sócrates e outros foram personagens de minha infância. Não eram atletas, eram heróis gregos. Estavam acima da bandeira de qualquer multinacional de artigos esportivos. E as camisetas eram de algodão.

(Maldito seja Paolo Rossi, maldito seja, pelas duas horas que fiquei berrando sob a mesa da sala, dizendo que você não passaria no exame anti-dopping, que o jogo seria anulado, e de um jeito tal que meus pais pensaram em me levar para emergência médica para curar algo que até hoje não foi curado)

A saída melancólica e humilhante da Argentina desta Copa do Mundo de 2010 acabou me lembrando de todas essas histórias.

E, de repente, percebi que, bem ou mal, Maradona deixou de ser um jogador ou um técnico argentino. E passou a ser um desses personagens da minha infância, alguém com dimensões míticas, não porque o noticiário diz que assim ele o é, mas porque eu assim o percebo.

Ele deixa de fazer parte desse ou daquele país e passa a fazer parte de um território chamado minha memória. Para mim e para tantos outros. E quando algo faz parte desse território, é como se fizesse parte de um órgão vital que não está nos manuais de anatomia, porém sem o qual você não é você.

Se você não o tem, você não é nada. Se você não o valoriza e não cuida dele, mais próximo de ser nada você está.

Se você fez pouco desse time que há pouco perdeu por 4 a 0 da Alemanha, é bom lembrar que é difícil agradar todo o mundo. Para muitos, 4 e 0 não são números, mas uma conveniência.

Às vezes você não agrada ninguém e números, que normalmente não tem nenhum sentido emocional, passam a ser isso: convenientes.

Torço agora não para times, mas para que todos nós tenhamos por perto uma fonte. Para quando os números forem convenientes, para quando nosso time perder o campeonato, para quando fizerem pouco de nossas lembranças mais preciosas, para quando dissermos algo que não deveríamos ter dito a alguém que amamos ou até para quando Maradona estiver triste.

Assim, quando for preciso, teremos onde colocar nossas cabeças e esconder nossas lágrimas.

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