Crônicas e contos de Alessandro Martins
5 Jun 2008








Um cartaz com duas mãos com vistosas unhas pintadas cobrindo o que parece ser - e é - uma bucetinha (provavelmente as mãos e e bucetinha pertencem à mesma pessoa) foi espalhado por Curitiba.
Ainda restam poucos inteiros. A maior parte foi depredada ou pintada.
Uma rádio de notícias local chegou a dizer que se tratava, na verdade de uma axila e não de um genital. Obviamente a esposa do repórter deve sofrer, pois ele anda errando o alvo.
Independentemente do que é ou do que não é. Isso não importa. O importante é o que parece ser.
De início, pensa-se que se trata de algum tipo de propaganda, pois - por incrível que pareça - as unhas chamam mais atenção do que qualquer outra coisa. Mas rapidamente se observa que a mensagem não está vinculada à nenhuma marca e percebe-se o que há por trás das mãos. E lê-se apenas os dizeres, ao lado de um frasco de esmalte: “base para unhas fracas”.
Certamente uma crítica à vinculação que a publicidade costuma fazer entre sexo e comércio. Vide cervejas e quetais.
Isso também não importa. Eu considero os cartazes bonitos. Melhor do que um tapume pelado são unhas pintadas.
Certamente é uma intervenção urbana de algum artista que prefere permanecer anônimo. A cena de sticks, lambs e estêncis é bem forte em Curitiba.
Atualização: acabei de descobrir que a intervenção foi bolada por Newton Gotto (Curitiba) e Alexandre Vogler (Rio de Janeiro). E, sim, é uma bucetinha.
1 Jun 2008

O Thiago - a figura gaiata acima - convidou-me para ver o ensaio da banda em que ele está tocando no momento.
Aproveitei minha nova câmara e fiz algumas imagens.
Faltou o primo do Thiago, que é o baixista.
O integrante que rendeu as melhores fotos foi o baterista, o Wilson, mas como havia pouca luz na sala de ensaio, precisei usar uma velocidade muito baixa e uma grande abertura do diafragma (é isso?), o que o tornou também o personagem mais difícil de registrar.
Clique nas imagens para ver em tamanho maior.
20 May 2008
Você deve me achar o pilantra por ter invadido a sua privacidade. Ênfase no o. Não, não vou responder dizendo, no melhor estilo jardim de infância, que pilantra é você. Ênfase no você. Afinal, nem é preciso. Te peguei. Eu vi o email que ele escreveu. Ninguém mandou ficar logada no meu computador. Fui entrar para ver a minha caixa de entrada e lá estava a sua. E, nela, uma pasta com o nome do outro pilantra. E, lá, estava a mensagem. O cara chegava a usar o termo fazer amor. Ênfase no r. Só faltou desenhar coraçõezinhos. Sinceramente, fazer amor é coisa de bicha. Não o ato. Mas a expressão. Aliás, acho que bichas afinal não fazem amor. Bichas trepam. Como se deve. O sexo mais terno deve ainda ser tratado como trepada. Com a vulgaridade da palavra, protege-se o amor da vulgaridade das intenções canalhas e do romance barato de novela. Mas aposto que, até hoje, ele nem sabe que enquanto fazia amor, você teclava, nos intervalos, com um outro pilantra que, mais tarde, garantiu para mim - ele, como deve saber, era meu amigo -, estava apenas fazendo literatura com você. Fazer amor, fazer literatura. Será que estou cercado de bichas literatas? Esse chegou a perguntar se eu já não sabia da história e se eu não tinha cumplicidade com você. Respondi que não, que estávamos passando por uma má fase e tal. Fiquei diminuído, afinal eu não tinha cumplicidade suficiente a ponto, então, de você não me contar que estava fazendo literatura com outro cara? Que espécie de namorado era eu? Ênfase no eu. Mas esqueci de dizer para ele que, se não podia contar com a sua, eu esperava alguma cumplicidade dos amigos. Porém, como se sabe, pau não tem código de ética. Só me pergunto se o pilantra número dois sabia que você chegou a ir a outra cidade para ver o pilantra número três. Para fazer literatura ao vivo, se é que me entende. Enfim, não sei qual de nós foi mais covarde. Ênfase no nós. Eu por fugir primeiro e voltar atrás ou você, ao me ver fugir, correr para outros braços, sei lá quantos. E, depois, sem que eu soubesse desses braços, me cobrasse fodas mais apaixonadas quando voltei. Agora, não pode haver covardia maior que isso: não há como ganhar, em matéria de foda, de um novo amor. A pior metida de um novo amor é sempre superior à melhor do antigo. Ainda mais se ele já está inseguro das coisas que estão acontecendo. Ser cobrado nesse sentido, foi sofrer, sinceramente, a maior das covardias, sim. Foi como entrar no ringue de olhos vendados. Sem sequer saber que era um ringue. Ênfase nos socos. Eu sei que as pessoas mentem, eu sei que as pessoas falham. Faz parte e se você não consegue viver sabendo disso, é melhor se matar. Mas me aproveitar da cegueira de alguém, conduzi-la à aniquilação, isto eu nunca fiz. Tá. Aniquilação é uma coisa meio exagerada. Vamos usar a palavra nocaute, para manter a linha de raciocínio. Depois entendi que você é do tipo que não salta de uma pedra sem que o pé já esteja tocando a outra. Mas o rio que você está tentando atravessar é muito largo. Daqui não vejo a margem contrária. Talvez esse rio não seja para ser atravessado, mas seguido, na correnteza, sem esforço. Contra ela, mais possivelmente, mas tudo bem. Ênfase no tudo bem. Parece que você é movida por certo orgulho neurótico de ser assim, no fim das contas. Afinal, quem acredita em amor a primeira vista está sempre procurando o olhar do próximo. Ênfase sempre no próximo. É uma daquelas escadas impossíveis de Escher, em que parece que você subiu, mas está de volta ao andar de baixo e continua o ciclo. Chega. Estávamos falando de mim. Sinto-me uma casca vazia, se é que quer mesmo saber. Afinal você ficou com as lembranças. Disse que tem boas lembranças nossas, não é isso? Eu sempre achei mesmo que as lembranças certas ficam com as pessoas erradas. Você disse que nossa história foi boa, apesar do péssimo final. O que quer dizer que isso tudo não serve nem para se escrever um livro, certo? O final acaba dando significado ao início e ao desenvolvimento: isso quer dizer que as florezinhas do capítulo 15 viraram merda lá pelo capítulo 23 e, portanto, as florezinhas eram florezinhas de merda. Ênfase no fechar das páginas. Mas é isso o que você está vendo na sua frente. Uma casca vazia. Sem lembranças, sem amor, sem emprego, sem dinheiro, sem rumo, sem serragem por dentro das veias. Claro que estou magoado. Se você estava me ouvindo até agora deve ter entendido isso. Fui claro, não fui? O mais louco é eu ter pedido tantas desculpas quanto tudo virou merda. Eram pedidos sinceros. Eu me senti culpado. O engraçado é que fiz a coisa virar merda por ser sincero. Hoje me sinto culpado por ter me sentido culpado. Agora até entendo por que as pessoas mentem. Tem que ter muito culhão para falar de verdade o que se sente. E agora é você quem vem me pedir desculpas como se fosse fazer realmente diferença depois de tanto tempo. A impressão que eu tenho é que só se pede perdão quando não faz mais diferença, os perdões são negados quando necessários e só se fala a verdade quando já é tarde demais ou quando se deveria mentir. Ênfase no tarde demais e no mentir. Assim, com o que aprendi dessa história toda, minha boca te perdoa, mas acho que sou fraco demais para ser sincero novamente. Ou então não sou forte o suficiente. As pessoas mentem, certo? As pessoas fraquejam, certo? As pessoas dissimulam, certo? É melhor morrer que não aceitar isso, certo? Perdôo você, então. Até dou um sorrisinho. Mas sou muito pilantra para ser verdadeiro a esse ponto. Sim. Pois ainda acho que mais pilantra é você. Porém, isso eu, sinceramente, calarei. Pilantra. Ênfase silenciosa no pi, no lan e no tra.
9 May 2008
As abelhas são solitárias, disse-me ela.
A condição natural das abelhas é o vôo sem companhia. O enxame, a colméia são acasos, são a contradição de seus mais internos sentidos. Ela disse, enquanto uma passava perto do seu rosto, sobrevoava seus olhos. Seriam doces talvez e tive ganas de lambê-los.
O enxame, a colméia, um mal necessário. Os males, todos necessários talvez. As pessoas a nossa volta, com conversas paralelas e que não as levariam a lugar nenhum, violentavam palavras a que tentávamos dar sentidos ocultos.
Mas, se assim não fosse, uma abelha não sairia na busca, ficaria sempre junto dos seus semelhantes. O prazer, a luz, a certeza, o amor, o desejo, a verdade que há por trás das coisas, até das mentiras. Tudo uma busca. Para uma abelha, uma flor não é feia nem bonita. É alimento. Dê-me um beijo, seja minha guloseima nesta manhã, um sabor que se leva na boca ainda depois do manjar lentamente degustado. Não. Ela não disse isso, enquanto a abelha passava próxima a seus lábios sem medo.
Se assim não fosse, se assim não houvesse a necessidade dos tais vôos isolados, não haveria como garantir que houvesse flores na próxima primavera, mel no próximo inverno.
Porém, mais que cores quero néctar.
Não pensei nisso naquela hora. Pensei em qual seria o peso de sua mão direita atrás de minha nuca, a puxar-me em sua direção, as unhas pintadas de vermelho, a polpa macia contra o dorso de meu pescoço. Minha virtude, meu vício, os dois começavam a me arrebatar naquela direção sem que ela precisasse sequer me tocar, no entanto. Juntos ali, imersos na vontade, éramos um corpo sem gesto.
Abelha, em francês, deve ser uma palavra que rima com errante. Na verdade, não. Mas gosto de pensar assim. Na falta dela, tentamos inventar. Mosca do mel, quem sabe. Esfreguei as mãos meio pela expectativa do que poderia acontecer, meio para aquecê-las. Estavam frias naquela hora.
As abelhas são solitárias, disse-me ela.
Capturei-me a pensar sobre qual seria seu cheiro. Não seu perfume. Seu cheiro de mulher, cheiro de gente. Não seu cheiro eventual. Mas seu cheiro ali no agora, no exato instante em que, para mim, ela existia. Tive vontade de me aproximar mais, inclinar-me um pouco e achegar-me de sua pele. Não da região a que chamariam de garganta. Não da região onde as vértebras pronunciam notas musicais. Mas da parte intermediária, ali onde eu via uma artéria pulsar com doçura sob a pele claríssima. Em silêncio, dizendo mais do que nós mesmos dizíamos e relutávamos em parar, embora o dia corresse sob os cuidados de nossa distração mútua. Quieta pulsava, contava o tempo a se esgotar.
Finalmente, chegou o instante em que teríamos de nos despedir. As abelhas são solitárias, disse-me ela.
E me vi ali. Eu estava próximo ao mel. Pedi um bocado. Desde o primeiro instante, pedi. Mesmo antes de pedir, pedia. Pedi. Recebi.
Era o mel, era a picada.
Toda abelha tem um ferrão. Ainda arde. Delícia.
6 May 2008
Aprendi finalmente que alguns amores - aqueles que não deram certo, sobretudo - são como certas dores das pessoas idosas, cujo corpo já carrega cicatrizes, alguns entorces mal recuperados, ossos mal regenerados depois de fraturas.
Por mais que o organismo esteja em boas condições no conjunto - feliz em sua integridade de organismo - basta que alguma condição climática se altere para que uma pontada se insinue ali ou um desconforto se pronuncie aqui, avisando da chuva por vir ou do frio que se aproxima.
Antes de serem insuportáveis, essas dores são sim um pouco incômodas. No limite para se fazerem notáveis.
Então, você desiste de lutar contra elas e entende que é preciso simplesmente aceitá-las. Na maior parte do tempo elas se deixam esquecer em algum lugar da geografia das células, mas estão latentes a espera de alguma particularidade atmosférica que vai novamente acioná-las. Elas fazem parte da anatomia da cura das dores realmente dolorosas. A alma se costura ao homem pelas cicatrizes e através da pele marcada deixa-se ver com mais facilidade.
E, assim, aceitas as dores, quando surgirem talvez sirvam até de companhia. Vê como os velhos falam sozinhos às vezes. Conversam sobre o clima com suas marcas.
Assim a vida segue. O corpo é forte como uma árvore cujos galhos amam o céu e as raízes amam o chão. É possível ser verdadeiramente feliz ainda que faltem alguns pedaços. A vida não é matemática. Não é completamente resolvível. Alguns problemas permanecerão sem resposta. Alguns problemas são a resposta.
Assaltado hoje por pensamentos aos quais pertenço, aprendi finalmente que dores tais são a definitiva expressão de certos sentimentos que jamais se resolverão até que a última cartilagem e o último nervo sejam esquecidos pela terra em que finalmente me aninharei.