Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
15 set 2007
Alguns, de estrupícios de feira, transformam-se em heróis de bolero.
Outros largam a batina.
Uns mudam de horário e chegam atrasados, dia sim, dia não.
Tem aqueles que se jogam da ponte e se arrependem no meio do caminho.
O que sai do emprego.
O que arranja um emprego.
O que abandona tudo.
E um que nunca teve nada, mas comprou um buquê e mandou entregar.
Uns não fazem coisa alguma, pensando em fazer tudo. Ainda assim, calam e escutam, embora as palavras sempre ganhem formas inesperadas, mais próximas de seus desejos.
Tem um que, largado na vida, nada mais fez que se agarrar, como o galho à deriva se prende à curva do rio, com outros tantos galhos emaranhados.
Outro beijou a mulher, os filhos, foi embora e nunca mais voltou.
Há o abandonado que vê a amada todo dia. Mas escondido.
E também o que não esconde nem as vistas nem os sentimentos. Destes há os com esperanças e os sem, em maior e menor grau, de acordo com a temperatura, a luminosidade do dia e a pressão barométrica.
Tudo é uma questão de clima às vezes. Às vezes, faça chuva, faça sol, não importa, é a mesma coisa.
Tudo, às vezes, é uma questão de ar, como se respirar dependesse de alguém. De fato, uns morrem asfixiados. Outros renascem, tal fosse o primeiro alento.
Diversos terminam em tragédia.
E outros, desta tragédia, fazem uma maior, numa sucessão bíblica de cataclismos. Até o fim, seguem como se a vida fosse um barranco.
Existem os que, de um fim, com paciência reconstroem a casa em outras paragens. E os que empilham as pedras no exato mesmo lugar, com boas e más arquiteturas.
Não faltam os que se sujeitam a humilhações. Embora haja os que aguentam tudo, menos isso.
Os grandiosos que se dão a fazer palácios gigantescos para a que virá ou para a que está ou para a que já foi. De pedras, sempre se pode fazer ou muros ou paredes. Ou pontes.
Tem o patético que bebe até cair, não consegue esquecer e morre de dor de cabeça.
O que atravessa o rio a nado pra ver se encontra um tesouro, alguma coisa, e resgata um pneu.
O que atravessa o rio a nado e, do outro lado, já esqueceu. E volta de costas.
O que beijou no cinema e nunca mais esqueceu e evita a trilha sonora, como se aquelas notas fossem a manifestação sonora do Cão.
Como esse, alguns deixam de ir a lugares só para não lembrar. Pois nos lugares, mais que os beijos, mais que as palavras há – houve – os olhares.
Os que jogam a louça fora infestam o mundo. Pois na louça, em certa manhã, se bebeu à vida.
Tem os que entristecem quando o sol entra pela janela de seu quarto em determinado ângulo, com determinado calor, pois foi sob aqueles raios, vindos daquela estrela a milhões de quilômetros, que certos olhos brilharam para os seus.
Mas quando garoa é pior.
Tem quem não agüente fim de semana.
Tem quem prefira.
Os que não amarram mais o cadarço, em desmazelo. E, na seqüência, desistem de andar simplesmente, escorrendo para a calçada e mendigando.
Há os que acham que vão morrer mas acabam numa boa e os que no melhor da vida se dão a jogos perigosos, como se não mais se importassem.
Mas, finalmente, há os que – talvez de tanto tentar, talvez por talento, talvez por sorte mesmo – conseguem ser felizes, ainda que debaixo da ponte ou no conforto de uma lareira.
Sim, esses também há.
Enfim.
Há de tantos tipos que sei lá se cabe chamar algo tão único em sua variedade com um nome só.
Talvez cada amor merecesse o nome de sua vítima.
2 comentários para "Os cento e um loucos nomes do amor"
E há aqueles que vão ao Inferno, brigam com o Desdito, voltam pra Terra, sacodem a poeira e continuando a crer no amor, encontra-lhe o centésimo segundo nome, dá-se-lhe por inteiro sorrindo e espera ser a última esta.
Ainda tem mágica nesta sua cartola, Alessandro?
Quando penso que já li tudo…
E só não postei comentário ali na história do vira-lata porque as lágrimas embaçaram olhos e o teclado escorregava pelos dedos.
Clap! Clap! Clap!
Beijos e aquela coisa toda.
“Talvez cada amor merecesse o nome de sua vítima.”
UAU!!! Que desfecho! Adotei.
Parabéns!
=)
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