Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
29 jul 2010
O homem, com o olho roxo, encontra o amigo.
- Brigou, é?
- Não…
- O que é isso então? Caiu da escada…
Difícil entender por que uma das desculpas preferidas de quem aparece com o olho roxo é dizer que caiu da escada. Não há corrimão em forma de punho. Por isso, preferiu contar a história.
- Sabe… aquela mulher?
- Aquela que você ia sair ontem?
- Isso. Então. Saí.
- E o que tem a ver? Vai dizer que ela bateu em você?
- Foi.
Tudo tem uma explicação lógica. Ou ilógica. Mas tem.
A verdade é que nem sabia disso, mas estava cansado daquela vida de emoções fortes e sensações intensas a que nunca tinha se entregado com a devida virtuosidade. Não agüentava mais o meio termo. Ou se entregava para aquela existência – que não conseguia evitar – ou se enclausurava, protegido. Entre ser ermitão ou louco paraquedista sem pára-quedas, preferiu entrar para a categoria dos que saltam do veículo em movimento, que é a mesma dos que pulam para dentro dos trens quando ele já partiu da estação.
- Fomos no cinema. Depois fomos ao café. As coisas aconteceram como deveriam acontecer. Conversamos muito, aqueles papos cheios de entrelinhas que dão a entender tudo o que as linhas não dão.
- Sei como é.
- E, por isso, acabamos no meu apartamento.
- E sabe como é, né?
- Claro!
Sexo é uma coisa que acontece, afinal de contas. Não tem muito segredo.
- Lá pelas tantas, com ela montada em mim, eu senti muito tesão.
- E já não tava?
- Tava. Mas senti mais. Não sei se você entende. Não era só o pau, que até doía de tão duro. Me deu uma coisa na cabeça. Fiquei meio possuído.
Ele, na hora, não encontrou as palavras exatas para descrever. Talvez tenha tido pudor, daqueles pudores que impedem de falar coisas que em outros momentos seriam banais, mas naquele eram por demais apenas às paredes segredáveis. Mas o que sentiu era como ter visto de novo as nuvens avermelhadas da infância, na cidade do interior onde nasceu, que prenunciavam uma noite quente e talvez tempestade na madrugada e que lhe encheram de angústia pois iria dormir, como poucas vezes naquela época, longe dos pais. Ou a sensação de solidão e desolamento no dia que fez um piercing no pinto, que então não parava de sangrar, causando uma sensação concreta de responsabilidade sobre absolutamente todos os seus atos e suas conseqüências.
- Então eu falei pra ela me bater.
- Sério? E ela?
- Estacou. Parece que não entendeu.
- E?
- Eu repeti: “me bate”.
- E ela te meteu um soco.
- Não. Eu tive que segurar a mão dela e mostrar que aquilo não tinha nada demais. Eu queria. E fiz ela dar um tapa no meu rosto.
A delícia de transformar chumbo em ouro. Nada como ver Luke Skywalker convertido ao lado negro. Sua delícia, embora ainda não soubesse disso, era descobrir o momento exato em que a hesitação diante do proibido se transforma em ímpeto furioso e comprometido com a desagregação.
Por isso, segurou o braço dela e fez com que lhe aplicasse um tapa. Sabia que, a partir dali, não haveria volta. As paixões são assim. Depois que o banhista entra no mar furioso, nem sua vontade será capaz de tirá-lo das ondas.
- Ela ficou meio assustada. E eu disse: “viu? não dói… não faz nada.”
- E então?
- Falei pra ela me dar um. Saiu fraco.
- Claro. Acho que ela estava com medo de machucar.
Ele entendia isso. No colégio, ele mesmo nunca fora de brigas. Não que achasse que poderia apanhar. Mas sempre teve medo de machucar demais seu adversário. Não era lutador exímio, pelo que se pode imaginar. Mas a mera possibilidade de ferir alguém o assustava. Por isso, evitava contendas físicas.
- Então chamei ela de fraca.
- Não parece uma coisa boa de dizer nessas horas.
Cada hora é uma hora diferente. E as coisas boas de então podem ser coisas ruins de outros tempos.
- É. Mas era o que eu precisava dizer. Me senti um maestro. Ela me deu um mais forte. Fez eu virar o rosto. Até fiz ar de susto, mero reflexo. Olhei no olho dela, com raiva, sabendo o que estava a fazer, e disse de novo: “fraca”.
- Funcionou?
- Aham. Meteu-me mais um. E repeti isso mais três vezes até que não fosse mais preciso. Ela começou a me bater e a me agredir com fúria, ali, sobre mim. Eu só fazia me defender, mas – como eu queria – algumas vezes ela me atingia. Batia com a mão aberta, fechada, se movimentava, como se estivesse descontrolada. No final, caiu exausta sobre meu corpo. Chorava como se tivesse expulsado um demônio. Eu acariciava suas costas como se faz aos gatos, enquanto eu mesmo escorria de dentro dela. Aos poucos sossegou, a respiração já não estava mais ofegante, e me deu um beijo. Com certeza o beijo mais gostoso que já recebi.
- E o olho roxo?
- Só fui ver hoje. Deve ter sido no meio daquilo tudo.
- E agora?
- Ela acabou de me ligar. Vamos sair de novo amanhã.
Um comentário para "Olho roxo"
Um texto simplesmente delicioso!
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