Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
11 set 2010
O primeiro beijo sempre pode ser descrito em detalhes.
O que se fez quinze minutos antes, a roupa que se vestia, que bebida se bebia, que conversa o antecedeu, a intensidade da luz. Se havia música ao fundo ou apenas o som das ondas a quebrar na praia. Se dedos devotados se entrelaçaram ou se mãos, audazes, se perderam. Quem sabe algum sabor ou simplesmente o paladar inédito de uma boca inexplorada. Talvez, sob o frio da madrugada, respirações trocadas tenham servido de morno alento para os lábios.
Mas como é difícil lembrar do último.
Ele é o suspiro final. As duas únicas testemunhas que poderiam estar lá, não estavam. Como se um viajante, que não mais voltará, acenasse para aqueles que já olham para o outro lado e que abandonam a estação por caminhos diferentes. Observam o chão, distraídos, enquanto o amor, entre as costas curvadas que se afastam, deixa de respirar.
Esse, o último beijo, é um fantasma que assombra pela ausência. Tenta-se lembrar da face pálida, abre-se os olhos na escuridão sem medo do que virá e, no entanto, nada vem. Talvez na lembrança impossível do último beijo estivesse também a resposta para a pergunta que quer saber onde se errou. Afinal, era amor, era amor, era amor, é certo que era amor. Ainda é, mesmo que ele esteja numa espécie de limbo onde ficam exilados as emoções descartadas pela vida.
Talvez esteja lá o último beijo, ladeado por pequenos fracassos mútuos, expectativas abandonadas e frustrações gigantescas.
Em uma música o cantor pede para que sua namorada o beije muito, como se fosse a última vez. Chame de amor. Eu chamo de licença poética. Nesse momento, dezenas de amantes dão o último beijo sem saber. Se o soubessem, que intensidade haveria então. Mas já não seria o último beijo. Esta entidade sorrateira, em seu parentesco com a morte, sempre chega sem avisar.
Mas, também nesse momento, dezenas de casais dão o primeiro beijo. E o último, desde esse instante, está a espreita. Então pode ser que os dois, primeiro e último, se fundam. E, como nessas coisas de amor nada é absoluto, há então duas possibilidades. Ou este é o beijo de uma vida – o que se leva nos lábios até o dia em que eles se fechem pela última vez – ou é o que se perde no ar, como as plumas do dente-de-leão, belas mas efêmeras.
Os amores deveriam começar com o último beijo.
Primeiro as bocas explorariam uma à outra meio distraídas, sem volúpia, como se nada de diferente acontecesse, apenas o trivial. E, aos poucos, na medida em que o ímpeto dos amantes aumentasse ao longo dos anos, os beijos ficariam mais intensos. E, assim, se fosse para essa história terminar, como acabam e começam tantas outras todo dia a cada minuto, que terminasse. Sem dores. Sem dramas.
Mas com um inesquecível primeiro beijo. Na boca, a memória da temperatura exata das respirações que, na fria madrugada, na escuridão de algum jardim estrangeiro, serviram de morno alento para lábios que nunca mais se encontrarão.
6 comentários para "O último beijo"
“O amor vive de repetição; e a repetição converte o apetite em arte. Ademais, toda vez que amamos, é o único amor da nossa vida. A diferença de objeto não altera a unidade da paixão. Intensifica-a, simplesmente. Cada um de nós tem, na existência, no mínimo uma grande aventura. O segredo da vida é reeditar essa aventura sempre que possível. ”
Esse é Oscar Wilde, ele é um grande mestre da sabedoria que se diz humana. Desculpe-me a citação, mas ambos os textos têm a mesma base. Um grande abraço.
perfeito! como tudo na vida isso também deveria começar de trás p/ frente!
beijos!
Esse post lembrou-me um filme francês que assisiti outro dia, não lembro onome, mas era a estória de um casal que se apaixonava mostrada de trás para frente. Aí vc vê o amor num crescente, já que no começo eles seseparam.
Gostei do texto, essas idéias de inverter a ordem são boas.
Será que os esquimós se beijam?
Creio que precisamos dar aquela saidinha, caro Dolmancé…
um afetuoso abraço,
de seu irmão,
Thiago gonçalves
Encantador esse texto, Alessandro!
Agradeço por ler algo tão lindo
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