O primeiro beijo sempre pode ser descrito em detalhes.

O que se fez quinze minutos antes, a roupa que se vestia, que bebida se bebia, que conversa o antecedeu, a intensidade da luz. Se havia música ao fundo ou apenas o som das ondas a quebrar na praia. Se dedos devotados se entrelaçaram ou se mãos, audazes, se perderam. Quem sabe algum sabor ou simplesmente o paladar inédito de uma boca inexplorada. Talvez, sob o frio da madrugada, respirações trocadas tenham servido de morno alento para os lábios.

Mas como é difícil lembrar do último.

Ele é o suspiro final. As duas únicas testemunhas que poderiam estar lá, não estavam. Como se um viajante, que não mais voltará, acenasse para aqueles que já olham para o outro lado e que abandonam a estação por caminhos diferentes. Observam o chão, distraídos, enquanto o amor, entre as costas curvadas que se afastam, deixa de respirar.

Esse, o último beijo, é um fantasma que assombra pela ausência. Tenta-se lembrar da face pálida, abre-se os olhos na escuridão sem medo do que virá e, no entanto, nada vem. Talvez na lembrança impossível do último beijo estivesse também a resposta para a pergunta que quer saber onde se errou. Afinal, era amor, era amor, era amor, é certo que era amor. Ainda é, mesmo que ele esteja numa espécie de limbo onde ficam exilados as emoções descartadas pela vida.

Talvez esteja lá o último beijo, ladeado por pequenos fracassos mútuos, expectativas abandonadas e frustrações gigantescas.

Em uma música o cantor pede para que sua namorada o beije muito, como se fosse a última vez. Chame de amor. Eu chamo de licença poética. Nesse momento, dezenas de amantes dão o último beijo sem saber. Se o soubessem, que intensidade haveria então. Mas já não seria o último beijo. Esta entidade sorrateira, em seu parentesco com a morte, sempre chega sem avisar.

Mas, também nesse momento, dezenas de casais dão o primeiro beijo. E o último, desde esse instante, está a espreita. Então pode ser que os dois, primeiro e último, se fundam. E, como nessas coisas de amor nada é absoluto, há então duas possibilidades. Ou este é o beijo de uma vida – o que se leva nos lábios até o dia em que eles se fechem pela última vez – ou é o que se perde no ar, como as plumas do dente-de-leão, belas mas efêmeras.

Os amores deveriam começar com o último beijo.

Primeiro as bocas explorariam uma à outra meio distraídas, sem volúpia, como se nada de diferente acontecesse, apenas o trivial. E, aos poucos, na medida em que o ímpeto dos amantes aumentasse ao longo dos anos, os beijos ficariam mais intensos. E, assim, se fosse para essa história terminar, como acabam e começam tantas outras todo dia a cada minuto, que terminasse. Sem dores. Sem dramas.

Mas com um inesquecível primeiro beijo. Na boca, a memória da temperatura exata das respirações que, na fria madrugada, na escuridão de algum jardim estrangeiro, serviram de morno alento para lábios que nunca mais se encontrarão.

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