Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
7 out 2009
Eu descia a ladeira até a panificadora para tomar o café da tarde.
O trânsito estava engarrafado e o condutor de uma picape, descontente com aquilo que deveria ser o seu trânsito, insistia em buzinar, incomodando os outros motoristas, os pedestres e provavelmente os pacientes do hospital ali perto. Afinal ninguém conseguia compreender a dimensão de seu drama.
Parecia irritado com o veículo da frente, que não lhe dava passagem a fim de que pudesse avançar mais 10 metros para o meio daquela maçaroca de carros em que estava transformado o seu trânsito.
Finalmente o semáforo fechou.
O cara da picape abre a porta e desce. Fecha a porta. Andando, vai até a janela do veículo adiante.
Com cuidado, como fazem os coléricos no limite do controle, pede que o outro abaixe o vidro da janela. E começa a lhe falar, de um modo aparentemente calmo, provavelmente explicando o que julga ser o mais correto para o andamento do seu trânsito.
Nisso eu, meio que sem acreditar, atravesso a rua e passo pela cena, chego ao outro lado e digo:
- Moço…
O sujeito continua a explicar para o outro como o seu trânsito deve funcionar.
- Moço…
Continua…
- Moço…
Finalmente, ele se vira para mim. O outro também olha.
E eu digo:
- O senhor desceu do carro no meio do trânsito. O senhor está maluco?
Ele não diz nada e, sem acreditar, como um zumbi, volta para a sua picape.
Nisso, sinto uma mão sobre meu ombro.
Eu me viro para olhar. É um homem. Careca como eu.
- O senhor falou com um homem que não conhece e que desceu do carro em pleno trânsito. O senhor está maluco?
4 comentários para "O senhor está maluco?"
Genial!
Dois malucos no trânsito…hahahahaha
Essa cena me lembrou o filme “Um dia de fúria”, qualquer semelhança é mera coincidência.
Agora que achei seu blog de crônicas, vou me deleitar!
Aqui falamos a mesma língua !!!
Abraço
Parece que foi preciso um maluco para acordar outro pra maluquice.Que coisa!
Muito bom!
Somos muitos os loucos nesse mundo. É sempre bom conhecer mais um!
Abraço
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