Eu descia a ladeira até a panificadora para tomar o café da tarde.

O trânsito estava engarrafado e o condutor de uma picape, descontente com aquilo que deveria ser o seu trânsito, insistia em buzinar, incomodando os outros motoristas, os pedestres e provavelmente os pacientes do hospital ali perto. Afinal ninguém conseguia compreender a dimensão de seu drama.

Parecia irritado com o veículo da frente, que não lhe dava passagem a fim de que pudesse avançar mais 10 metros para o meio daquela maçaroca de carros em que estava transformado o seu trânsito.

Finalmente o semáforo fechou.

O cara da picape abre a porta e desce. Fecha a porta. Andando, vai até a janela do veículo adiante.

Com cuidado, como fazem os coléricos no limite do controle, pede que o outro abaixe o vidro da janela. E começa a lhe falar, de um modo aparentemente calmo, provavelmente explicando o que julga ser o mais correto para o andamento do seu trânsito.

Nisso eu, meio que sem acreditar, atravesso a rua e passo pela cena, chego ao outro lado e digo:

- Moço…

O sujeito continua a explicar para o outro como o seu trânsito deve funcionar.

- Moço…

Continua…

- Moço…

Finalmente, ele se vira para mim. O outro também olha.

E eu digo:

- O senhor desceu do carro no meio do trânsito. O senhor está maluco?

Ele não diz nada e, sem acreditar, como um zumbi, volta para a sua picape.

Nisso, sinto uma mão sobre meu ombro.

Eu me viro para olhar. É um homem. Careca como eu.

- O senhor falou com um homem que não conhece e que desceu do carro em pleno trânsito. O senhor está maluco?

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