Eu batucava este teclado enquanto ouvia Mateus, o filho de cinco anos da diarista que há oito semanalmente vem segurar a onda da bagunça aqui em meu apartamento, Zica.

É notável como as crianças tem uma capacidade de observação absurda e o dom de mostrar a realidade tal e qual já não a percebemos mais.

Claro que esse problema será corrigido por um processo chamado escola ou educação formal, que em poucos anos transforma as criaturas geniais que elas são nas criaturas medíocres que somos nós. Mas é bom poder colher essas pérolas com as quais elas nos presenteiam enquanto isso não acontece.

Eu escrevia, escrevia, escrevia e ele colocava, colocava, colocava alguns objetos na porta do aposento onde eu estava para bloqueá-la: cabo de vassoura, almofada, extensão elétrica e outras coisas que ficam à disposição durante o processo de limpeza.

- Estou fazendo uma entrada proibida – diz Mateus.

- Como assim, entrada proibida? – diz Zica.

- Entrada proibida… é quando eles fecham pra quem não tem dinheiro e abrem pra quem tem.

Se você encontrar uma, dê uma olhada em seu bolso. Provavelmente não está cheio o suficiente.

Ah, sim. Quando perguntei a Mateus se eu poderia passar ele sugeriu que eu saísse pela janela. Achei uma saída um tanto arriscada e fiquei na minha.

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