Ela abaixou a cabeça, rindo, e surpreendeu não o fato de o perfume dos cabelos dela ser o mesmo. Mas o de ele lembrar o aroma.Não teve medo de parecer saudoso ou nostálgico:

- Seus cabelos. Ainda têm o mesmo cheiro.

Pois não eram saudades ou nostalgias que moviam a observação. Mas a necessidade de mostrar que ela foi. Era. É. É importante.

- Seus cabelos. Ainda têm o mesmo cheiro.

Apenas censurou-se, logo após dizê-lo, por ter usado a palavra cheiro. Não por ser pouco apropriada mas por não ser suficiente. Pois o objeto que designava – aquilo que vinha de seus cabelos e passava por sobre a mesa – era o núcleo em torno de que se erguiam outras coisas.

Outras palavras, outro cenário, outro tom de luz e outros horários. Aquilo tudo que normalmente poderia ser chamado de passado estava ali compacto como uma pedra branca, presente naquele instante em que ela abaixou a cabeça rindo e o cheiro – que seja – penetrou-lhe as narinas. Uma realidade restrita e, ao mesmo tempo, sutil. Fugaz. Era algo que não se podia agarrar, apenas tocar levemente, como dos sonhos de que se acorda de modo repentino. Está ali. De repente, não está mais e os olhos brilham no escuro.

Ele tinha muito pouco a confessar. Confessar remete a pecados e, os dele, ela conhecia quase todos. Mas havia algumas coisas a contar.

- Tudo o que você perdeu -, disse.

Não que ela tivesse perdido em valor. Era mais como alguém que levanta no meio do filme e depois volta.

Certamente, foi assim. Um dia ele foi com ela ao cinema. Entraram com o filme já começado. A sessão lotada, sentaram na frente. Era uma aventura.

Mas um dia ela levantou e ele ficou esperando que ela voltasse. E, antes que ele julgasse o filme terminado, ela não voltou. Durante meses tentou entender enquanto olhava para uma tela branca.

- Ainda não entendi. Mas acho que isso não é mais importante – disse. Provavelmente nunca foi. Embora insistisse em entender outras coisas, embora soubesse que nessa tentativa de entendimento a vida passasse independente do entendimento em si com a força de um rio.

O que estava em jogo ali – na verdade, nada estava em jogo, pois não havia o que perder ou ganhar – era apenas aquele instante. Por isso sacou da manga uma lembrança. Uma boa lembrança para sem pudor presenteá-la. Contou-lhe qual era, pois uma recordação é algo que quem lembra guarda, mas ser recordado é um presente. No fim, as pessoas são o produto de suas memórias, as suas e as dos outros, evitando assim que o mundo seja mera imaginação.

Ela era, nessas memórias, dois olhos verdes sob certa luz de sol filtrada por uma cortina de certo tecido e certa cor, na exata época do ano, em determinado horário e num lugar específico. Sempre que todas essas condições se repetissem, como nos rituais pagãos de antigamente, ela estaria inevitavelmente presente, ainda que com a ausência de dois olhos verdes. Com a fórmula completa nas mãos, faltava o ingrediente essencial. A simples diferença entre o ser e o nada. Ou teria sido mera imaginação?

Por isso, até aqueles dias perguntava, de vez em quando por notícias dela, sem sucesso. Embora, se quisesse, pudesse procurá-la. Mas não queria uma busca. Queria uma conexão.

Mas isso não havia.

Então buscou esquecer, não por vontade, mas por uma certa resignação.

Esqueceu de fato.

Mas um dia entendeu.

E ele não sabia se foi o perfume dos cabelos ou mesmo o email em que ela indagava se ainda lembrava dela que lhe deu tal entendimento.

Esquecer é imperfeito. Quadros escondidos sempre deixam marcas claras na parede.

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