Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
5 set 2008
As folhas vêem o sol e conversam com ele. Com elas, a planta se entende com o astro.
Mas, um dia, a árvore escolhe jogar fora as folhas. Torna-se apenas tronco e flores. Flores amarelas como a urgência. E estende os galhos para tocar o céu.
(se tivéssemos a lentidão das pedras, veríamos as plantas explodirem em cor de tempos em tempos)
Sem folhas – cega, surda e muda, portanto -, torna a si a expressão do querer mais, do querer a não mais poder, de fazer a vida caber em um compartimento menor que a própria vida, um recipiente cuja a função é se deixar vazar.
A ânsia de se atirar em alguma direção, qualquer uma, se realiza com a certeza de chegar onde quer, ainda que sem olhos, ouvidos ou voz, projetada em altura, profundidade e flor.
Como se houvesse uma única chance para o imprescindível e como se o inevitável precisasse, ainda por cima, de um empurrão. E talvez seja isso mesmo: girar a roda da vida, desengrenada, na ladeira e sem freios. Alguma coisa precisa acontecer.
Então, ontem, você mostrou-me a tal árvore. Bem próxima à Rodoferroviária de Curitiba. No meio do trânsito, era como um navio ancorado na calçada. Mas ninguém navegará nesse barco. Quem dali parte, sai de ônibus ou trem. Estamos, pois, em uma rodoferroviária.
(apaguei a fotografia em que você acenava pois, por um instante, temi que a árvore fosse de fato um navio e viagens de navio, você sabe, são mais demoradas que as de ônibus)
As pétalas amarelas, as que caíram, mediam forças com o verde da grama e ninguém ousaria remover esse tapete. Tive vontade de vê-la deitada ali pois seria como um sonho. Tão simples essa frase e esse desejo. Mas estou mais preocupado com sua realidade que com sua complexidade, ainda que nela eu fale de um sonho.
Então, um sonho é real. E real também é o desejo. E como negar um desejo a quem se ama, seja lá qual for, sem negar esse desejo também a si mesmo e ainda que esse desejo seja contrário aos seus próprios? E, se assim é, como satisfazê-los?
Não sei. A solução talvez sejam as flores dessa árvore, em um encadeamento em que não pretendo, agora, encontrar lógica. Estou prestes a descobrir, mas não faço questão de desenvolver o problema e nem sei. Fico com as duas pontas: a primeira letra da pergunta e o ponto final da resposta me bastam.
Afinal, teoremas não fazem brotar.
(você conhece minha carne, meus pensamentos, meu coração: e nossa morada é qualquer lugar onde cada uma dessas partes estejam unidas à sua carne, seus pensamentos e seu coração. afinal por que essa frase aqui? sei lá. brotou)
A árvore. Sem folhas, é cega, surda e muda. Mas com as flores ela pode tocar o mundo.
Não tenho flores. Você também não. Que milagre infinito nossos mundos terem se tocado assim.
* Na foto, você – Júlia – e a árvore de flores amarelas. Ao fundo, a rodoferroviária, onde deixei-a para que, afinal, pudesse voltar
5 comentários para "Árvore de flores amarelas*"
Lindíssima foto. Tomei a liberdade de salvá-la no meu computador.
Abraços Alessandro!
Que lindinho!
Enfim, me encontro com mais 2 apreciadores de ipês amarelos! Árvore inspiradora, com seu colorido mágico derramado no chão.
Bjs
Sara
muito lindo
obrigado, Marina. Beijos!
sao muito lindas mesmo essas flores
eu queria ate uma pra mim!!!
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