Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
30 jul 2010
Praia de curitibano é shopping center e o povo gosta de passear nesses lugares de plástico como se fosse divertido. Dia de inauguração de loja importante costuma causar comoção e locomoção de milhares de pessoas para o local da dita. Foi assim com a FNAC, com seus estoques infinitos de títulos de livros, CDs e DVDs. Convites disputados à tapa e presença de personalidades inchadas do meio musical e global. Cometi o erro de estar parado quando cairam-me na mão alguns desses pepelotes que me deram direito a levar eu e mais duas pessoas que eu bem entendesse para me acotovelar com a turba no meio das estantes.
Quando estávamos lá dentro – meu pai, a Tati, com quem eu namorava na época, e eu – já era tarde demais. Aqueles corredores eram uma espécie de Caaba. Lentamente a multidão se locomovia em torno dos produtos trocando pisões, suores e, por muito pouco, também tapas na disputa pelo ar viciado. Todo mundo queria estar ali dentro, ninguém queria estar fora. Um braço esticado conseguia, raramente, garfar um refrigerante ou uma água ou um salgadinho e não se sabe quais técnicas os garçons usavam para se deslocar mais rapidamente que os muçulmanos de ocasião.
Para completar, nós três acabamos nos perdendo uns dos outros. Lembrava muito aquelas cenas de filmes em que a multidão separa as pessoas que deveriam estar juntas e só se vê a mão erguida do outro sinalizando a posição que, ainda assim, em segundos se perde. Não tive dúvidas. Nunca mais nos veríamos novamente.
Para encontrá-los, decidi ir em sentido contrário do deslocamento das pessoas. Não bastassem aquelas que prefiriam ficar paradas, agora eu atrapalhava o culto, indo na contra-mão. Olhavam-me com certa raiva.
- Com licença, licencinha… com licença… ops… refrigerante sai fácil da roupa, sabe? Com licença?… ah… ainda não tinham batizado seu sapato novo?… como? No seu calo? Olha conheço calistas excelentes… sim, sim… a sua mãe também…
Finalmente encontrei a Tati. Eu estava decidido a sairmos dali. Levei-a até a entrada onde havia menos gente.
- Olha fica aqui para não nos perdermos mais. Vou tentar encontrar meu pai. Se eu não voltar em dez minutos, chame a Swat.
Encontrei-o arfante, suado e angustiado. Certamente também imaginava que nunca mais nos veríamos. Tinha encontrado um lugar mais tranqüilo entre as prateleiras de CDs de Beethoven e de Chopin, embora temesse que o grande grupo em volta dos lançamentos de axé music fizesse um arrastão raivoso para aquele lado, como uma boiada.
Como estava difícil chegar até ali fiz um sinal para que me seguisse. Eu abriria caminho usando técnicas de kung-fu. Iria bater ferindo o menos possível os inocentes úteis. E os inúteis também. De vez em quando, eu olhava para trás e verificava se ele ainda me seguia.
Finalmente cheguei até a Tati, depois de passar pela última barreira de pessoas. Novamente olho para trás e observo que meu pai, que continuava a me seguir, dá de dedo em alguém que, pacientemente, escuta. Finalmente, junta-se a nós.
- Pai, você sabe quem era aquele?
- Não sei e nem quero saber! Você acredita que o amigo dele não queria me deixar sair? Me barrou? Falei algumas para os dois. Que falta de educação. E eu ali querendo só um pouco de ar fresco…
- Acho que não era o amigo dele… acho que era o segurança…
- Ah, é?
- Pois é. O sujeito era o Lulu Santos.
- É mesmo?
A essa altura, Lulu Santos já estava sobre um pequeno palco colocado ali para os famosos dizerem palavras elogiosas sobre a nova loja.
- Então era mesmo o Lulu Santos? Ele não é cabeludo?
- Era, pai – respondi de uma vez as duas perguntas com uma única afirmação.
Então João Francisco, meu pai, até resolveu perdoar o cara e acenou para ele, todo feliz por ter conversado com o cantor, ainda que dando uma bronca. Lulu retribuiu o cumprimento. Certamente o rei do pop sentiu-se melhor.
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