Poderia ser o médico, o contador, o dentista.

Mas não. Era o barbeiro.

- Opa! Só passeando, hein?

Não reconheci na hora. O rosto era familiar. Pensei que era um jornalista. Alguém com quem tivesse trabalhado.

- Opa! Tudo bem?! – eu disse, surpreso.

Apertei firme a mão e sorri olhando nos olhos, tentando decifrar aquele enigma proposto por minha memória falha.

- Você não lembra de mim, né?

- Claro que lembro – agora eu estava certo disso -, você trabalhou comigo no jornal x.

- Não, não – ele riu – eu cortava o cabelo de seu pai.

Claro! Como eu pegava o ônibus perto da barbearia, associei a imagem dele a trabalho.

- Seu pai falava muito de você. Sempre acabávamos falando de você. Ele tinha o maior orgulho.

- Estou indo numa peça aqui perto. Tenho dois convites sobrando, aceite.

Ele pegou os convites, mas permaneceu no tema.

- Também perdi meu pai. Em 2003. Era ele, antes, quem cortava o cabelo do seu. Mas nunca vi um pai para ter orgulho do filho como ele. Precisava ver.

Poderia ser o médico, o contador, o dentista. Mas era o barbeiro. Algo tão cotidiano e de tal maneira inusitado, naquele momento e local, me fez pensar que era quase como uma mensagem vinda de não sei onde deixada por meu pai.

As pessoas vivas são bloquinhos de recado daquelas que partiram.

Obrigado por ter deixado esse, João Francisco. Também te amo.

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