Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
22 jan 2008
O mundo não foi feito para as bicicletas. Os donos das ruas são os carros.
Acabei de comprar uma – ela chegou recentemente à minha casa e neste momento é montada por um especialista – e, por isso, tenho observado essas coisas.
Vejo como diversos automóveis se enfileiram ao longo da rua e ocupam todo espaço. Dentro de todos deles, cinco lugares. E apenas um ocupado. Não faz sentido.
Trata-se de máquinas projetadas para levar cinco passageiros cada uma, com motores dimensionados para arrastar essas cinco pessoas para lá e para cá e com capacidade para ir de zero a cem em alguns segundos.
O fato é que comprei a tal bicicleta.
Aula de natação
Aos doze anos, colocaram-me em uma escola de natação. Não nasci do lado de um rio ou perto do mar como parece ter acontecido à maioria dos brasileiros. Por isso precisei aprender em uma escola.
A professora tinha vinte e poucos anos. Uma pessoa assim para outra de doze está na meia idade, sem dúvida. O que não me impedia de sentir coisas contraditórias a seu respeito como o fato de eu me interessar por ela, uma vez que era bonita, ao mesmo tempo que me repudiava a idéia de me sentir atraído por uma mulher tão velha. Parecia errado.
Antes de entrar na piscina, ela me fazia fazer coisas, como correr em círculos dentro da sala de aquecimento, vinte abdominais, dez polichinelos, trinta flexões de braço. O tipo de coisas a que as mulheres costumam obrigar os homens ao longo da vida.
Lá pelo final do primeiro mês de aulas aconteceu uma coisa.
Matemática básica
Desnecessário dizer que esse motor consome mais ou menos a mesma quantidade de combustível tanto para levar uma quanto para levar cinco pessoas.
No entanto, o que se vê é uma fileira de três carros de largura e com o comprimento de muitos quarteirões nas ruas. Cada um daqueles veículos carrega uma pessoa em média. Quando muito, duas ou três, mas são casos raros.
Ao aplicar a mais básica das matemáticas descubro que, se vivêssemos em um mundo racional, veríamos uma rua com apenas um quinto dessa ocupação. Não quero partir para um óbvio e chato discurso ecologista e dizer que isso representaria oitenta por cento menos poluição.
Prefiro dizer que teríamos oitenta por cento menos espaços ocupados nas ruas e o trânsito fluiria melhor, com benefícios óbvios para o humor de todos.
Sozinho
Eu fazia aula em um horário em que havia poucos alunos. No final do primeiro mês, vi-me sozinho.
Desnecessário dizer que achei muito estranho eu correr em torno da sala, fazer abdominais, polichinelos e flexões enquanto tinha toda a atenção daquela mulher voltada para mim. Se me conhecesse direito na época, diria que começava a achar aquilo um tanto erótico.
Talvez por isso um inexplicável sentimento de constrangimento, perfeitamente compreensível para alguém de 12 anos.
Lembro dela despojadamente sentada em um canto da sala, no chão a me dar as instruções.
Eu corria e lá estava ela a me olhar. Eu fazia abdominais e lá estava ela a me olhar. Eu fazia flexões e lá estava ela a me olhar. Para quem não teve o peito da mãe, isso é no mínimo deliciosamente pecaminoso.
Depois de uma seqüência incrível de polichinelos que me fez ficar mais ofegante do que o normal, ela levantou-se, veio em minha direção, segurou meu pescoço. Senti um frio na barriga. E, então, olhou nos meus olhos.
De tal forma que eu não pude desviar.
Distâncias
A maior parte das pessoas presas nesses engarrafamentos por, no mínimo, 20 minutos bem poderia ir a pé. Muitas estão a menos de dois quilômetros do trabalho. Um número ainda maior a menos de seis. Essas bem poderiam ir de bicicleta. Parece que elas perderam a noção do prazer e do bom senso. Enquanto estão sentadas ali, sedentárias, impacientes, a passar calor, diversos ciclistas a ultrapassam a uma velocidade média muito maior, a sentir o vento no rosto e a movimentar as pernas, de modo que não sofrerão de dores quando chegarem à avançada idade de quarenta anos.
O beijo
Eu, uma criança de 12 anos e uma mulher de vinte e poucos a segurar o meu pescoço a olhar para meus olhos em uma sala vazia e silenciosa. Não havia música. Diversas coisas passavam por minha cabeça e meu coração estava disparado. Ao mesmo tempo em que eu temia que ela me beijasse, não sei se gostaria disso. Por outro lado, pensei se, talvez, ela não gostaria que eu tomasse a iniciativa. E se eu estivesse errado? Seria vergonhoso. O tempo passava lento. Parecia eterno, claro. Por um instante, pareceu-me que ela aproximava seu rosto do meu. Meu coração começou a saltar.
Estrutura
Não há ciclovias suficientes nas cidades. Não há educação dos motoristas em relação aos ciclistas. Não há lugar para estacionar as bicicletas. Os ônibus não recebem pessoas com bicicletas, o que impossibilita o transporte combinado para as distâncias maiores.
O mundo não foi feito para as bicicletas.
Independentemente disso, resolvi enfrentar o mundo e ser um pouco diferente, mais um pouco. Comprei uma bicicleta pela internet. Ela chegou e agora está para ser montada. Fica pronta na terça-feira.
Antes porém, ao lembrar que terei diversas subidas e descidas em meu caminho, e também por mera curiosidade, resolvi calcular minhas freqüências cardíacas máximas. Existem cálculos e tabelas para isso. Na verdade, foi mera curiosidade, pois não pretendo ficar a conferir como um maníaco os meus batimentos. Foi quando lembrei de tudo.
Pulso
- Talvez seja melhor você pedir para sua mãe o levar ao médico. Seu coração está muito acelerado – disse enquanto conferia o relógio. Apenas um minuto se passara. O tempo para medir a freqüência cardíaca.
E soltou meu pescoço.
Jamais saberei se ela fez aquilo de propósito. Mas nunca mais verificou minha pulsação daquele jeito.
Apenas quando estivemos sós, naquela ocasião.
11 comentários para "O beijo"
Gostei dessa ligação dos dois posts. A principio eu pensei “O que diabos tem a ver a escola de natação com bicicleta”, mas realmente tinha algo a ver.
Também fiz escola de natação, nadei por cerca de 10 anos da minha vida e tem algo nas professoras de natação que é simplesmente erótico. Principalmente quando elas usam biquinis.
Acho que é o fetiche da salva-vidas misturado com o da professorinha, fazendo um combo cruel para garotinhos na puberdade.
Um novo jeito de fazer supense…
Funcionou.
Bjos
Muito bom, adorei!
Eu não sei se você fez de propósito, mas a parte da bicicleta eu li correndo…
eu adoro esses textos que parecem que não tem nada a ver, mas no final se complementam!
eu queri poder ir p/ os lugares de bicicleta, mas no meu caso e impossível!
beijos!
muito legal muito haver
adoro suas narrativas!
o mundo pode não ter sido feito pras bicicletas, mas logo você irá perceber que as bicicletas foram feitas pra tornar a sua vida mais doce, mais sublime.
tampouco o mundo foi feito pra ser emporcalhado por pessoas mal-educadas e máquinas fedorentas, o que torna particularmente importante comprar uma bicicleta.
;D
Você começou por dizer que a Professora tinha vinte e tantos, agora disse vinte e poucos. Mesmo que tenha 12 anos, entre ter 22 e ter 28 vai uma boa diferença. Entre ter vinte e poucos e ter vinte e tantos faz diferença. Eu, por exemplo, vou fazer vinte e três anos, não são vinte e tantos, vinte e tantos são 27, 28, 29, vinte e tantos já são perto de 30
Tem razão. Vou arrumar. Abraços!
Kra seus textos são muito bons eu fico triste de ter tomado conhecimento deles somentye hoje,embora em dias atuais se fala tanto que na internet não tem coisas “interessantes e inteligentes”eis que, encontro esse sitio e fico assim boba…Você está de parabéns.Esse do beijo nossa é mara,as pausas dramáticas,cortada de assunto e ocasmento deles no final deram um sabor picante ao texto até me provocou uma lembrança do meu embaralhado primeiro beijo.
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