Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
2 ago 2010
Certa feita estava eu muito triste depois de longa viagem até Campo Mourão. Fui até lá para um daqueles casamentos em que se mata um boi que, devidamente assado, é repartido entre os convidados na festa depois do matrimônio.
O que me entristecia era justamente a perspectiva do retorno, uma vez que ele seria inevitável e inevitavelmente duraria mais nove horas, coisa demais para quem tinha apenas nove anos, um para cada hora. Era muito para qualquer paciência ficar tanto tempo dentro de um ônibus.
Permanecemos na casa dos pais da noiva naqueles dias. Apesar do leve aborrecimento pelo qual passava eu me divertia com o papagaio que falava frases interessantes para as visitas como:
- Vai embora!
Ou:
- Cala boca!
E todo aquele repertório gentil que os donos de papagaios insistem em ensinar a esses animais.
Aliviou-me muito do enfado o fato de a mesa de café da manhã da casa ser do lado de fora. Uma grande mesa sob uma grande varanda com um fogão a lenha próximo e uma variedade de pães e doces, manteiga e queijo, café de coador e leite tirado de uma vaca por mão de gente.
Café da manhã sempre foi a minha refeição preferida.
Mas a manhã passava e o fato de estar longe de casa me enchia de tédio por não poder me sentir à vontade em um clima que, na proximidade do meio-dia, ficava cada vez mais quente. Enchia-me de um sentimento de não ter o que fazer a poeira que se levantava lá na rua e dentro de mim. E o conforto do café da manhã se esvanecia com o orvalho, que as folhas das plantas aos poucos esqueciam sob o sol forte e seco.
Até mesmo o fato de ter sentado em uma poltrona e em seguida ter sido advertido de que aquele lugar pertencia ao dono da casa, tal e qual trono, deixou-me um tanto sem ter onde pôr as mãos. E a bunda, naturalmente.
Pois bem, que eu andava de lá para cá na grande casa, com suas cortinas de miçangas entre os cômodos, como costuma ser, e só isso eu fazia, sem que me ocupasse, ouvindo o tilintar dos fios coloridos que se abriam e fechavam e balançavam à minha passagem. Vários dos convidados, de outras cidades, já começavam a se acomodar por ali, para o casamento que se daria logo mais. Um ou outro perguntava olhando para mim:
- Esse aí? De quem é?
Como se eu não soubesse falar.
Bem. Eu já disse que tudo isso estava me deixando meio cansado. Muita gente. Muita gente conhecida e muita gente desconhecida. Barulho, música, falação e tudo o mais. Eu sempre fui um cara mais sossegado, de pequenas platéias e de pequenos palcos. Quer dizer, mesmo aos nove anos eu era um cara mais sossegado, de pequenas platéias e de pequenos palcos. Mais chegado ao monólogo e aos diálogos simples.
Por volta do meio-dia, quando não se podia passar por um cômodo sem que nele houvesse pelo menos cinco pessoas a fazer estardalhaço, a se arrumar, a garantir o ajambramento do traje para a noite, a contar histórias de outras bodas, a falar mal de parentes que não apareceram, quando voltei para a sala, na poltrona que me fez receber a recomendação de mudar de lugar estava um velho. E só havia ele na sala. Não o havia visto até aquele momento. Era como se não tivesse chegado ali, mas apenas surgido.
Sempre gostei mais de velhos que de crianças. Mesmo quando eu era criança, um cara de pequenas platéias, pequenos palcos e monólogos.
Achei melhor avisar o velho de que aquela poltrona pertencia ao dono da casa e que logo alguém viria dizer-lhe para desocupá-la.
Mas era um velho tão velho que parecia uma árvore. Um chapéu tão velho quanto ele, talvez, repousava sobre o apoio do braço e sob sua mão, que eram como raízes.
Fiz menção de dizer algo, mas antes disso ele fez um gesto para que eu me aproximasse.
Assim o fiz.
Adiantou-se a qualquer reclamação minha e tomou meu punho e colocou em frente aos seus olhos. Como eu não entendi exatamente o que ele queria de mim e ele estivesse tendo alguma dificuldade para conseguir, ele preferiu explicar.
- Faça assim.
E flexiounou um pouco o próprio punho, de maneira que no pulso, no ponto onde os médicos costumam colocar os dedos para medir os batimentos cardíacos, formaram-se algumas rugas.
Hesitei, imaginando que aquilo fosse algum tipo de brincadeira. Mas o velho insistiu e não tive outro meio senão fazer.
Com uma mão ele segurou meus dedos e com outra meu antebraço, como a um livro. E, ali nas rugas do meu pulso, começou a ler.
Disse muitas coisas. Muitas importantes inclusive. Mas de fato importante para essa história disse apenas isto: que eu teria uma dessas três profissões, médico, engenheiro agrônomo ou padre.
Admito que a expressão engenheiro agrônomo, mesmo para minha avaliação de criança de nove anos, pareceu descabida na boca de alguém que parecia ter acabado de sair do mato, alguém que parecia ser o próprio mato, mas enfim, convenci-me tanto pelo fato de haver engenheiros agrônomos sobretudo no mato e pelo fato de o não encaixar da palavra na boca dar um toque ainda mais sobrenatural para aquilo tudo.
Quem me conhece sabe que não me tornei nem médico nem padre nem engenheiro, tampouco agrônomo. Porém, como eu disse, esse dado específico por ele revelado nas previsões que fez têm relevância para esta história e talvez apenas para esta história pois, até o momento, teve nenhuma para minha vida.
Eu poderia dizer que eu saí da sala para chamar alguém para conversar com aquele velho misterioso e quando voltei ele havia desaparecido. De fato, daria uma impressão um tanto dramática à narrativa. Mas não foi isso que aconteceu.
Enquanto eu conversava com o velho algumas pessoas apareceram na sala e passaram a ouvir tudo aquilo com curiosidade. E foram se juntando em torno, loucas para que ele lesse também o futuro delas.
A mãe da noiva explicou que ele era um amigo da família que vivia em tal cidade – de que agora não lembro o nome – no interior do Mato Grosso do Sul. Ele tinha esses poderes e, dizem, falava com espíritos.
Minha mãe pediu para que ele visse o seu futuro. Ele relutou e falou que não poderia pois ela tinha o que chamou de corpo fechado. Depois de muitas insistências dela, ele pediu um copo. Teria que fazer algo diferente. Colocou o copo no ouvido, um desses copos banais de requeijão, e começou a resmungar algo, como se estivesse ouvindo alguém falar, como se fosse uma chamada telefônica para o além. Conversou, resmungou e finalmente parou. Depois disso, disse diversas coisas para minha mãe. Não lembro de nenhuma delas.
Depois disso, a tarde passou, o casamento aconteceu, assaram os pedaços do boi e todos os convidados comeram à vontade. A viagem, no dia seguinte, nada me custou pois aconteceu à noite e eu dormi o percurso inteiro.
O fato mais marcante porém aconteceu cerca de um ano depois.
Meu avô, que vivia no mesmo terreno que meus pais e minha irmã, nunca saiu do Paraná. Para falar a verdade, se ele foi a três cidades em toda a sua vida, acho muito. Não preciso dizer que, na década de 80 as comunicações não eram tão adiantadas para que as pessoas trocassem informações a grandes distâncias com tanta facilidade.
Ele estava juntando as folhas que, no outono, caíam das três pereiras sobre o quintal e eu devia estar ocupado com bolas de gude ou algo assim. Do nada, ele se vira para mim e diz.
- Sabe, eu acho que você ou vai ser médico ou padre ou engenheiro agrônomo.
Mas ele explicou de onde tirou aquilo. Na época eu me interessava muito por assunstos médicos. Minha mãe, meu pai, ele e minha avó eram enfermeiros. Por outro lado, eu vivia às voltas com plantas, em nosso jardim. E, enfim, eu me dedicava também ao estudo da Bíblia, numa época em que eu levava a religião mais a sério.
No entanto, nunca, nunca, nunca, ele conheceu alguém do Mato Grosso do Sul.
Esta história é verdadeira e eu até estava trazendo uma sobremesa da festa de casamento para você, mas no meio da viagem de volta, acordei com fome e comi tudo.
Depois voltei a dormir e só despertei novamente em Curitiba.
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