Um certo medo que coisas ruins aconteçam. O vizinho do lado, Ivan Lins no último volume. Naquela hora da noite. A nos separar, apenas, a mureta da sacada, transponível com apenas uma pernada. Sei lá. E, tarde da madrugada, ainda a tevê ligada, muito alto. Hoje mesmo, o plim plim da Globo, abafado pela espessura de uma parede fina, o fim do sono às três da manhã. Há dias ele sem dormir direito. Insônia. Certamente insônia. E a ouvir Ivan Lins no último volume. E com o sono em débito daquele jeito. Sei lá. Vai que uma hora, insano, desesperado, louco e solitário, a silhueta na minha janela, de faca de destrinchar frango na mão. Afinal, Ivan Lins naquele volume.

Preciso colocar uma tranca melhor na janela.

Fantasmas
E esta noite não foi só isso. Acordei mais de uma vez. A outra foi quando senti. Senti presenças. Presenças no meu quarto. Coisas. Vi e era uma fumaça, algo assim. Mas algo mais difuso, um plasma. Um plasma negro que, mesmo na penumbra, amenizada pela fraca luz da lua que atravessava a vidraça, distinguia-se da transparência do ar. Era da altura de uma criança. Era um fantasma certamente. Olhei para o outro lado e havia mais um, este mais alto, como um adulto. Não tive medo. Eu sabia que não dormia, mas também sabia que não estava acordado. Fiz força para acordar definitivamente. Despertei de um tranco só. E as duas coisas desapareceram. Tudo voltou a ser seco como a realidade palpável. Senti minha cama confortável. Mas pensei que aquelas coisas ainda estivessem ali, apesar de eu não mais poder vê-las.

Comecei a rezar. Não sou um cara rezador. Quer dizer, não rezo antes de dormir. Ou quando me levanto. Ou antes das refeições. Há muito não vou à igreja. Acho chato pra cacete. Uma missa é a visão do inferno. Mas acredito no poder das preces. Sobretudo aquelas que milhões de pessoas rezam todos os dias, muitas vezes sem nem prestar atenção no significado. Acho que essa repetição toda confere força e poder a elas. Depois de um tempo começaram a funcionar no embalo, entende? Como senti que logo dormiria de volta, com medo de encontrar aqueles fantasmas, passei a orar de forma rápida o Pai Nosso. Várias vezes. Quando as palavras começaram a se embaralhar na minha cabeça, comecei com o Santo Anjo, que é curta. A oração que minha própria avó me ensinou.

Santo anjo do senhor,
Meu zeloso guardador,
Se a ti me confiou
A piedade divina,
Sempre me rege e guarda,
Governa, ilumina,
Amém.

Nisso, comecei a imaginar a mim mesmo com aquelas asas enormes. A bater aquelas asas enormes e a espantar as coisas ruins que podiam haver em minha volta como um ventilador. Um grande abanador de penas. Certamente aquilo era culpa do vizinho. Ivan Lins naquela altura.

E, finalmente, adormeci.

Vírus
Uma gripe me atacou. Isso também atrapalhou meu sono. Não consigo entender por que os vírus são tão estúpidos. Baseados na sobrevivência da espécie, um mecanismo presente em todos os seres vivos, poderiam bem provocar sensações boas em suas vítimas. No lugar da dor no corpo, prazer físico. No lugar da corisa, uma respiração mais abundante. Ao invés de febre, a melhor manutenção de uma temperatura agradável. Imagine, se houvesse um vírus que provocasse perda de gordura e colesterol ruim. Todo mundo iria querer pegar.

Mas não. Quando um sujeito pega um vírus é tão ruim que às vezes ele não consegue nem levantar da cama. Quando tem essa opção naturalmente. Certos empregos obrigam o camarada a trabalhar sob qualquer circunstância.

- Estou com ebóla, não poderei ir hoje.

- O doutor Armando exige sua presença na sala dele às 10 da manhã. Está muito irritado.

- Está bem. Vou ver o que consigo fazer.

- Ok. Eu aviso o doutor Armando.

- Sônia… – Sônia é a secretária do Armando.

- Hm…

- Duas perguntas…

- Sim…

- O ebóla é um vírus ou uma bactéria? E, mais importante, o Armando é doutor em quê?

- …

Resultado. Quando se pega um vírus, a primeira coisa que todo mundo faz é tomar remédios para reduzir seus efeitos, traduzidos em terríveis sintomas. Cientistas gastam milhões do governo e da iniciativa privada para bolar formas de acabar com eles.

Ninguém é amigo dos vírus.

Bem. De qualquer forma. Tomo esses remédios para resfriado. Digo, para os sintomas dos resfriados. O anti-histamínico vai me provocar sono e logo dormirei novamente.

Medo de ficar louco
Todo mundo tem.

Amor
Subitamente, no ônibus, Sônia sentiu vontade de lavar as cuecas de Roberto. Era amor, então.

Mas isso foi antes. Antes de Roberto começar a ouvir Ivan Lins no último volume. Antes de ela o ter deixado. Antes mesmo de ela descobrir que não era amor, afinal. Antes de ela pegar nojo das cuecas e das outras roupas de Roberto. Antes de eles terem feito sexo pela última vez. Antes de eles terem feito sexo, como se faz só depois de haver mútua confiança entre o casal. Antes de terem feito sexo, pela primeira vez, como se faz com a insegurança de quem ainda não se conhece. Antes até de, meses atrás, ela ter chegado a sua porta, como ser apaixonado e com alma lavada e entregue por essa paixão. Antes de ela ter pago a passagem, passado a roleta, decidida a ir até ele, de alma lavada e entregue. Isso foi antes. Foi quando ela sentiu vontade de lavar as cuecas de Roberto. Era amor.

Agora, Roberto ouvia Ivan Lins pois o amor, de uma hora para outra, não passava disso. Uma súbita vontade de lavar cuecas que vinha ao coração das mulheres. E podia ir, assim mesmo, de uma hora para outra.

Enlace
Outra vez acordo. Outro dia. Na noite seguinte, acho. Desta vez não há quarto. Não há fantasmas. Estarei possuído por almas do inferno ou tomado por algum tipo de vírus altamente nocivo? Há somente a vidraça do vizinho. Que, por sua vez, desvia os olhos de olheiras fundas da tevê para a janela. E nela há uma silhueta. Faca de cozinha na mão.

Nunca mais Ivan Lins no último volume.

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