(Preciso dizer antes de iniciar a crônica que a frase “no meio da pedra tinha um caminho” é daquele tipo que, quando vem pela primeira vez na cabeça do sujeito, ele se sente muito esperto, mas um segundo depois tem consciência de que alguém bolou isso antes, afinal, os versos de Drummond de que ela é paráfrase nem são tão novos assim. Assim, se o original “proprietário” dessa frase quiser se manifestar, terei o prazer de tirar essa crônica do ar caso ele queira, desde que ele possa provar que a publicou antes.)

No meio do caminho tinha uma pedra. E, no meio da pedra, tinha um caminho. Era uma das grandes.

O caminho, o que tinha na pedra, era dos pequenos. Saltei pra cima da pedra e me equilibrei na estrada fininha, fininha. E comecei a andar sobre a pedra.

No meio do caminho da pedra, tinha uma outra pedra, que bloqueava toda a trilha. Apesar de ser pequena, um verdadeiro pedregulhinho, era suficiente para ocupar a estradinha de lado a lado.

Então, peguei um dedo – o indicador – e peguei o outro – o polegar. Aproximei a mão, assim em pinça, próxima da pedra pequena, pequena. Quando a pedra, a pedrinha – pequena, pequena – estava no meio dos dois dedos, juntei-os. O polegar e o indicador.

Peguei a pedra, a pequenina, tão pequenina que eu nem via direito, tão pequenina que era menor que meu olhar que se espremia, se espremia e se espremia tanto, que até saiu um suquinho.

Cheguei aquilo perto do olho.

E vi que, na pedra, pequenina, pequenina assim, tinha um outro caminho, menor que o fio de cabelo de um cabelo. E nesse outro caminho – imagine o quanto de pequeno ele era – havia um outro eu.

Mas, para me ver, ele precisava abrir os olhos (diferente de mim, que precisava espremer). Precisava abrir muito as vistas. Arregalar o vislumbrador, arreganhar as viseiras, arregaçar as vidraças.

E abriu tanto que quem viu fui eu.

Eu vi dentro das idéias daquele minúsculo eu-mesmo os pensamentos dele passeando por uma infinidade de pedras que tinha na infinidade de caminhos que havia dentro daquela cabeça que embora pequena-pequena-pequena também era minha.

E, num daqueles caminhos de uma daquelas pedras, ele pensava que, nossa!, no meio do caminho tinha um gigante.

Ficamos uns instantes a nos decifrar, eu de cima da minha pedra e ele de cima da dele, dois soberanos das rochas.

Fiquei com medo que ele pensasse que eu era deus. Logo eu, um mero caminhante. Mas fiquei tranqüilo, pois logo ele pensou: que nada, de fato é um mero caminhante, um caminhante gigante, mas um caminhante.

Aquilo de nos adivinharmos não ia nos levar a nada. Diferentemente dos caminhos, que sempre levam a algum lugar, e das pedras, que podem ser levadas ou deixadas. Foi então que resolvi deixar aquela exatamente onde encontrei.

Exatamente não. Coloquei no ladinho da estrada, no cantinho.

Afinal, se há uma pedra no meio do caminho, alguém pode tropeçar.

E ele, o eu-mesmo pequenino, por sua vez resolveu deixar estar. Afinal, nossas retinas já estavam fatigadas. Ele de arregalar. Eu de apertar.

De repente, no fim da pedra, sobre a qual eu andava, era o fim do caminho, do pequeno caminho da pedra. Pulei de volta para o chão e pisei de volta no caminho original.

No meio do caminho, sempre tem uma pedra. Mas, depois da pedra, o caminho continua. De qualquer forma, é melhor ter uma pedra no caminho que, em uma avalanche, estar no caminho da pedra.

Pensei em voltar para contar ao meu amigo, o pequenino, a descoberta que eu acabara de fazer.

Mas deixei pra lá.

Pedras passadas não movem moinhos.

Nem caminhos.

Leia também:

  • Homem sozinho
  • Quando eu era bandido
  • Reflexões sobre ética
  • … e, eu, uma pedra…
  • Sou inflamável, meu amor
  • 12 séries de 10 barras ou algo assim
  • Guerreiro
  • Andar é bom
  • E eu nem me preocupava com isso
  • Sapatos nos fios de luz