Nota explicativa: este é um texto de ficção. Isto nunca foi necessariamente verdade e provavelmente não é agora. Não tenho ido a esse estabelecimento ultimamente, mas posso dizer que gostava muito de ir lá há alguns anos

Sou péssimo observador. Nesses anos todos freqüentando o lugar, não tinha percebido que as pessoas ali não se beijam. Sem uma lei escrita que impeça o ato, os casais – já conjugados ou ainda por conjugar – não trocam beijos.

Veja, a coisa não é proibida. Mas, ali, no James Bar, soa esquisita e tal. Um beijo, sob aquele teto, se torna algo tão perdido quanto uma cebola na salada de frutas.

Os zamerus
Os zamerus são uma tribo do centro da África. Livingstone, em suas peripécias pelo então continente selvagem, passou raspando por esse povo sem, no entanto, dar com ele. Se o tivesse encontrado depararia com casais que, a exemplo do público do James Bar, não se beijavam. Entre os zamerus, a cultura do beijo era inexistente.

O bar
Imagine um corredor estreito, estreito como as casas holandesas da época em que o governo decidiu cobrar tributos de acordo com a largura da frente de cada residência. Se for possível, imagine agora, a beirar cada uma das paredes, uma fileira de mesas, cada uma delas com quatro cadeiras à sua volta.

Tal é o ambiente. Com uma lotação média se torna praticamente inevitável que alguém que queira ir da entrada do bar ao banheiro, que fica nos fundos, pratique algo que o Kama Sutra sem dificuldade classificaria como preliminar. Com pessoas dos mais variados sexos.

Esses incidentes, no entanto, são encarados da maneira mais blasé possível.

Novamente, os zamerus
Conta-se que a primeira vez em que levaram o cinema para a tribo dos zamerus esqueceram da tela. Carregado até ali por uma equipe de antropólogos para uma pesquisa bizarra, o filme teve que ser projetado sobre uma velha pele de zebra.

A superfície alternadamente branca e preta causou confusão na platéia neófita. A fita a que assistiram, Casablanca, para eles não passou de um desfile de imagens sombrias e confusas. A dificuldade da tradução simultânea piorou tudo. O perito em línguas bem que tentou, mas não conseguiu encontrar equivalente para a palavra beijo no léxico zameru. Enquanto ele gaguejava, o pianista do filme dizia que um beijo era só um beijo, os zamerus se olhavam atrapalhados e os antropólogos faziam anotações loucamente.

Os porquês
Dizem que o beijo evadiu-se do James porque ali todos já ficaram com todos. Isso significa que a descoladinha fulaninha de tal não quer que a vejam agarrando o transadinho beltraninho de bal porque a enturmadinha cicraninha de cal lhe disse que ele ouve a banda xis e que, portanto, essa história não pegaria nada bem. Logo é bom inventar uma desculpa para ir ali fora ou no apartamento dele ou dela e tascar umas beiçadas no rapaz.

A grande verdade, porém é que fulaninha de tal sempre foi a fim do beltraninho de bal. Beltraninho de bal até que não é mal sujeito apesar das costeletas superdesenvolvidas. E a banda da qual ele gosta até que nem é tão ruim assim. O problema é que cicraninha de cal já deu uns amassos no sujeito e viu que ele é promissor. Como é recalcada quando o assunto é relacionamentos a dois decidiu empatar a vida sexual de beltraninho tanto quanto fosse possível usando para isso a influência de que dispõe no seu círculo de amizades e os gostos musicais do rapaz. E de tal modo que o que vemos agora é um casal a sair discretamente pela porta da frente, não sem antes perpetrarem atos libidinosos involuntários com todos em seu caminho devido à lotação do bar.

Garotos e garotas sabem o que eles vão fazer, mas o assunto é tabu, ninguém fala sobre isso. E todos pensam, suandinho frio: oh! eles vão se beijar.

Atos substitutos dos zamerus
Depois de algumas semanas de observação, os antropólogos descobriram que, no lugar do beijo, os zamerus praticam o que chamam de zeba-zeba. Os pares tomam com a ponta dos dedos indicador e polegar em pinça as bochechas do consorte, puxando-as e balançando-as de maneira a quase descolá-las da mandíbula. Parece estranho e dolorido a um só tempo. Mas os zamerus dizem que é muito gostoso.

Um casal de antropólogos, contrariando a regra que diz que o pesquisador deve interferir o mínimo possível no objeto observado, decidiu diante daquele espetáculo constrangedor demonstrar o que seria um beijo hollywoodiano.

Os zamerus praticaram, então, o que os povos mais ao ocidente costumam chamar de vômito coletivo.

Recreio
Como todos ficaram com todos, é comum que, por exemplo, uma garota encontre ali, no mesmo ambiente, pelo menos cinco ou seis garotos com quem já tenha trocado os mais variados fluidos corporais. Uma das intenções ao levar o pretendente ali para fora é evitar dar o gostinho a qualquer um desses cinco ou seis, talvez todos, de ficar pensando coisas como: “Ah… olha ali ela querendo fazer ciúme para mim.”

Outra possibilidade. O garoto se interessa por determinada garota. Mas como suas costeletas não estão suficientemente protuberantes naquele dia, não se sente seguro para uma aproximação. Por outro lado, outra garota que não aquela demonstrou claramente inclinação para os jogos amorosos com o rapaz. Para não perder a viagem naquela noite, ele se contenta com a segunda. Porém, de forma alguma quer que aquela para quem volta suas reais intenções presencie a substituição temporária.

Resultado das duas hipóteses: porta da frente.

Conseqüencias antropológicas
Na década de 70, os zamerus passaram pouco a pouco a adotar o beijo como ato cotidiano. No entanto, aquilo era mal-visto pelos adultos e as crianças o faziam por pura jocosidade. Hoje, os jovens o utilizam mais como forma de protesto contra as tradições, consideradas castradoras, que como manifestação erótica. Acredita-se, apesar disso, que o gesto seja adotado da mesma forma que em outras culturas tais como a francesa, a brasileira e a chilena, em aproximadamente duas décadas.

O banheiro
Para o amor urgente, aquele que não permite que se vá à casa de um ou de outro, o método é o que se segue. Sigilosamente um se levanta em direção ao banheiro. Depois o outro, para ocupar a mesma cabine do banheiro.

Fatos odontológicos
O fenômeno cósmico do mau hálito não é conhecido entre os zamerus.

Fatos antológicos
Soube que na semana passada, um garoto – um dos mais requisitados entre as garotas que perambulam pelo bar – baixou as calças exibindo uma graciosa calcinha azul. Tudo para chamar a atenção. Algumas acharam sexy.

Em outra ocasião, um travesti – travestis não são habituês no James Bar – entrou ali e, por conta de sua personalidade assaz irreverente, acabou sendo convidado a retirar-se. Para despedir-se, deu as costas para a platéia, também baixou as calças, a cueca – ou calcinha -, tudo o mais, e enfiou o dedo. Você entendeu onde.

Mas isso não tem nada a ver com a história de as pessoas se beijarem ou não por ali. Foi só assim, como direi, uma alegoria.

Nota explicativa
É óbvio que a tribo zameru não existe. Mas, também, ninguém acreditaria em um bar onde as pessoas não se beijam. Está na cara que é balela. Os casais se beijam e tudo. Generalizar é feio. Mas não generalizar reduz um pouco o fator diversão.

Segunda nota explicativa
Os freqüentadores do James Bar não têm nenhum parentesco com o povo zameru.

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