Minha casa é na esquina de suas pernas. Onde coloco-me em parte, mas como se fosse todo. Suas pernas, o encontro de meu lar. O intervalo entre o instante em que elas a trazem e o momento em que elas a levam de mim é o único agora possível.

Andar é acessório. Elas foram feitas para abraçar. Criadas para fincar os calcanhares como esporas em meu dorso.

Preciso aprender a viver no exílio, pois o dia todo assim sou, um exilado, longe do lugar, não de onde vim, mas de onde escolhi morar. Até que a noite me devolva você, até que você faça então surgir a manhã, até que você novamente diga adeus. Adeus, pois o Universo morre e nasce até que você retorne.

Sou a criança que vê o Sol se pôr, sem a certeza de que ele nascerá no dia seguinte.

Por isso, construirei um dia uma morada em nosso entorno.

Para tanto, quero fazê-la de dentro para fora. Primeiro não há nada. Apenas nós a flutuarmos naquilo que, de outra forma, seria vazio. Eu dentro de você e você dentro de mim, ainda que a me envolver. Em seguida, com madeira perfumada farei brotar uma cama que nos ampare.

Depois farei paredes, um chão, um teto. Eis nosso quarto. Com uma janela e uma porta. Uma janela que se abre para o mundo, feito à sua imagem, se fosse você montanha, árvores, estrelas, flores. Uma porta que se abre para o resto da casa que se cria tão somente por nosso movimento. E tudo é mero reflexo, consequência do primeiro molde que tomei para essa criação, em que tateio para aprender cada detalhe.

E, desse molde, projetei uma casa à nossa volta, construí uma cidade, ergui um país, forjei um mundo de terra e água e, então, onde nada havia, há coisas que não se vê onde terminam mas que se sabe onde começa. Na esquina de suas pernas, que escolhi para morar.

Aqui estou, mulher. Para que converta minha ignorância e descrença em sabedoria e em fé. Não peço que realize um milagre pois sei que é feita da mesma matéria humana que eu, sensível, delicada, falível, frágil. Apenas desperte-me, fazendo-me adormecer. E coloque-me para dormir ao acordar-me. Sei que não somos deuses, mas se um dia eu for capaz de flutuar sobre as águas só o farei se for a seu lado.

Aqui estou, mulher. Aí está você, frente a mim. Deixe-me, mais uma vez, entrar. Jogarei a chave fora â?? jogue também â?? pois sinto que, desta vez, é para sempre.

Leia também:

  • Botas, bico fino, cano longo, domingo de sol
  • Flamenco no Café Madrid
  • Flores para uma flor
  • O ladrão de carrinhos de supermercado
  • A publicidade é surreal
  • Dor e não-dor
  • Oficinas de blogs comigo. Grátis.
  • Salmo
  • Homem-aranha
  • Mostra Marginal no Tuc