No meio da noite, os dois acordados, estendidos na cama.

Ele – Acho que tenho tênia.

Ela – …

Ele – Sabe tênia?

Ela – Como é?

Ele – É um verme que fica na barriga da gente. Come muito. Faz você sentir muita fome e tal.

Ela – Não, não… eu sei o que é uma tênia…

Ele – Então por que perguntou…?

Ela – Não… não perguntei… apenas achei estranho que tenha resolvido dizer isso agora, a essa hora da noite… sabe que horas são?

Ele – Deixa eu ver o celular… são 3h44.

Ela – Então…

Ele – Então eu acho que eu tenho tênia…

Ela – É? Mas por que você acha isso?

Ele – Sei lá… é um pressentimento…

Ela – Claro.

Ele – Sabe quando você sente uma coisa estranha dentro de você e não sabe exatamente o que é… sei lá, uma coisa…

Ela – Sei, sei…

Ele – … bem… tenho sentido uma coisa assim nos últimos dias… só pode ser tênia.

Ela – …

Ele – Minha avó dava remédio para matar vermes para meus tios. Saía lombriga até pelo nariz. Era nojento.

Ela – Eca… nojento mesmo… dá para mudar de assunto?

Ele – É que uma coisa puxou a outra… tênia, verme, lombriga… o pensamento funciona por associações…

Ela – E o que você pensa fazer a respeito?

Ele – Nada… a mente funciona assim… é normal.

Ela – Eu estava falando da tênia.

Ele – Você também está com tênia?

Ela – Não.

Ele – Então não precisa fazer nada.

Ela – Eu estava falando sobre sua tênia.

Ele – Ah, claro.

Ela – Então?

Ele – Então é isso. Não vou fazer nada.

Ela – Como assim? Acaba de achar que tem tênia e não vai fazer nada? Não vai ao médico?

Ele – Não… acho que não vai ser preciso… tenho a impressão de que já gosto dela, estou me acostumando, entende?… as tênias são tão, tão, tão…

Ela – Solitárias?

Ele – Como sabia que eu ia dizer isso?

Ela – Sei lá… o pensamento funciona com associações, você sabe.

Ele – Pois é… sei sim. Por falar nisso, sabe que horas são?

Ela – Deixa eu ver aqui no celular… 3h51.

Ele – …

Ela – …

Ele – Sabe?

Ela – Hm.

Ele – Estive pensando.

Ela – …

Ele – Pode ser que com essa tênia… eu esteja largando proglotes por aí… contaminando o mundo…

Ela – Sei lá. O que é proglote?

Ele – São os anéis da tênia… por onde ela larga os ovos.

Ela – Eu não sabia que as tênias tinham dedos, quanto mais se usavam anéis…

Ele – …

Ela – …

Ele – Na verdade elas não têm dedos… o corpo da tênia é formado por anéis… e tal… ela os larga com ovos… são os proglotes.

Ela – … “… vão-se os anéis e ficam os dedos”. É o que diz o ditado…

Ele – … não… não é isso… deixa pra lá. Esquece isso de proglotes…

Ela – Proglotes…

Ele – …

Ela – Proglotes…

Ele – 4h10…

Ela – Proglotes…

Ele – …

Ela – Acho que não gosto de palavras com “gl”…

Ele – Como assim?

Ela – Proglote, glote, Gladimir, glacial, glosa…

Ele – Eu entendo… entendo… eu, por exemplo, gosto muito de palavras com vr…

Ela – Vrum, vrum, vrum. Típico de meninos…

Ele – É que me parece tão improvável o encontro dessas letras…

Ela – Proglote…

Ele – Acho que precisamos dormir…

Ela – Tem razão…

Ele – Então vamos…

Ela – …

Ele – …

Ela – …

Ele – O que é glosa?

Ela – Sei lá… não vou pegar o dicionário agora…

Ele – Tá bom…. acho que tem alguma coisa a ver com poesia… alguma coisa assim… glosa…

Ela – Deve ser…

Ele – Glosa…

Ela – …

Ele – Glosa…

Ela – …

Ele – Acho que também não gosto de palavras com “gl”…

Ela – Eu entendo…

Ele – Esse encontro de letras para mim soa como, como, como… passar doce de banana em um pedaço de melancia… não combina…

Ela – Sei lá… metáforas não funcionam comigo…

Ele – Como assim?

Ela – É isso. Metáforas não funcionam comigo.

Ele – Como você consegue viver… se comunicar e tal?

Ela – Sem metáforas. É possível viver sem metáforas. Posso respirar sem precisar pintar o ar de azul para entendê-lo.

Ele – Ei.

Ela – O quê?

Ele – Isso.

Ela – Isso o quê?

Ele – Isso foi uma metáfora…

Ela – Sei lá. De qualquer forma não preciso delas para viver. Elas simplesmente não funcionam comigo.

Ele – 4h30.

Ela – Vamos dormir…

Ele – Isso… vamos dormir…

Ela – …

Ele – …

Ela – …

Ele – E onomatopéias?

Ela – What?

Ele – Onomatopéias funcionam com você?

Ela – Morro de medo desses bichos.

Ele – Acho que você… bem… não, uma centopéia… Parece uma minhoca com muitas pernas… e eu estou falando de onomatopéias… a figura de linguagem… brum, crash, tchibum, prucurundum…

Ela – Sei. Você tinha acabado de falar que a tênia não tinha mãos, dedos, anéis e tal… e agora vem com esse papo de minhoca com muitas pernas… melhor dormir…

Ele – …

Ela – … e que faz barulhos estranhos…

Ele – …

Ela – … escuta… que horas são?

Ela – Acho que é tua vez de olhar…

Ela – 3h40.

Ele – Como?

Ela – Digo 4h40…

Ele – Ah, bom… por segundos achei que o tempo tinha voltado…

Ela – Que inferno…

Ele – Ei… o tempo não voltou? Diga que não…

Ela – … dormir.

Ele – … dormir.

Ela – …

Ele – …

Ela – …

Ele – Você tem certeza de que não sabe o que é glosa?

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