Queridas tias,

Mariza, Marli, Marise, Zandaíra, Nazaré, Maria Thereza e tantas outras de que não lembro o nome, mas de que lembro as faces e cabelos lindos e que tão bem cuidaram de mim entre 1979 e 1984.

Escrevo do futuro. E espero que, quando esta mensagem chegar a vocês, as encontre com saúde e alegria.

Quero que saibam que estou muito bem. Não sou um sujeito rico, no sentido vulgar do termo, mas também não sou um sujeito pobre. Minha riqueza está no saber que nunca vai me faltar algo. Tampouco sobrar. Tenho as coisas na medida exata. Esse é um valor que, creio, comecei a aprender aí.

Aqui no futuro as coisas são complicadas, mas muitos de nós sabem mais ou menos lidar com elas e procuram ajudar os que não sabem. Claro, tem gente indiferente também. Continuamos todos aprendendo. Ainda não inventaram a pílula da sabedoria absoluta.

Dizem que o clima mundial não está muito bem. Outros dizem que é assim mesmo. É uma guerra de informações em que alguns, individualmente ou em grupo, tentam fazer a sua parte.

Ao mesmo tempo, um coreano traz a sombra da ameaça nuclear que pairou sobre nossas cabeças na época em que estive aí. Na verdade, não importa a nacionalidade. Sempre vai ter um maluco dizendo que quer explodir o mundo. Quando eu estava com vocês, o nome dessa ameaça era Guerra Fria, como bem me lembro. Mas não víamos falar sobre isso na escola. Só no Jornal Nacional.

Atualmente a economia oscila entre os tempos de bonança e os tempos de crise. Não é preciso ser muito inteligente para saber que sempre foi e sempre vai ser assim e, caso aí no passado vocês tenham alguma dúvida, eu garanto: não tem sido diferente durante esses 25 anos que as deixei para viver aqui, no futuro. Portanto, para viver bem, há que se acostumar com essas oscilações.

Mas tenho uma boa notícia: não tem mais aquela inflação. Se ainda está difícil comprar as coisas de que precisamos para viver, pelo menos ficou mais fácil fazer as contas e planejar.

Israel ainda não se entendeu com os palestinos.

O Brasil ainda é o País do Futuro. Mas acho que pouco a pouco estamos colocando nossos pés mais no presente. Sem perder, no entanto, a perspectiva para o tempo distante.

É difícil, mas algo me diz que as coisas estão melhorando. Claro que ainda tem coisas muito ruins. Mas não quero falar tanto sobre elas, para não chateá-las. Ninguém disse que seria fácil.

Porém, apesar de tudo isso, clima, guerras, economia, as pessoas continuam tão esperançosas, talentosas e capazes quanto eram quando eu estava junto de vocês.

Acho muito possível que vocês não lembrem de mim, mas se tiverem curiosidade estou certo de que há um arquivo em que poderão saber um pouco mais sobre como eu era (por isso assino com o nome completo: para acharem a minha figura magrela). Talvez até encontrem uma foto minha. Estou muito diferente, pois a viagem até o futuro me causou, como efeito colateral, a perda dos cabelos. Mas minha mãe garante que continuo bonito apesar disso.

Coisas que não esqueço: o dia de pegar livros e levar para casa; a vez em que interpretei Pluft, o Fantasminha, ao final da quarta série; o primeiro amor – que aí conheci (ela não me conheceu) – e até as pequenas decepções infantis.

Ah, claro! Na primeira série, caí da arquibancada (lembram? ela tinha apenas dois degraus, a arquibancada) e uma de vocês, acho que foi a Tia Mariza, me levou à Clinica Vila Hauer (não existe mais) para levar pontos.

Um dia teve gincana e eu ganhei um concurso de estourar balões. Infelizmente, não segui a carreira de mergulhador em apnéia que essa pequena vitória prenunciava. Acho que foi em um dia dos pais.

Meu pai morreu recentemente, de câncer, mas não se preocupem pois já estamos bem, minha mãe, minha irmã e eu. Ele foi valoroso e forte nessa história toda e, creio, dessa maneira nos deixou fortes também. Sofreu o mínimo e nós, da mesma maneira. Claro que ainda sinto falta dele, assim como sinto falta de todos os meus avós que também já partiram. Talvez vocês se lembrem da Dona Rosa e do Seu Purciano que todo dia levava-me pela mão e, ao final da tarde, buscava-me. Quanta coisa aprendi nesse caminho de ida e de volta.

Acho que fui um bom aluno, mas quando a Tia Marise passava de carteira em carteira, depois da correção dos cadernos, devo confessar que sempre fui um tanto condescendente para comigo mesmo e dizia ter cometido menos erros do que os que realmente cometera. Digam a ela, caso não esteja lendo esta carta, para não se preocupar, apesar disso. Pois minha formação ética hoje não me permitiria cometer tais deslizes intencionalmente. E que esses pequenos erros de ontem fazem com que eu tenha mais acertos hoje. Seja lá o que forem acertos.

Talvez a vida, de fato, não se meça por erros ou acertos. Talvez ela seja medida apenas pelos lugares por onde se passou, pelas pessoas que, nesses lugares, se teve oportunidade de amar e se, de fato, essas oportunidades foram aproveitadas.

Não sei dizer dos outros, mas fico feliz por ter passado por aí e amei isso.

Amo vocês de todo o meu coração.

Saudades,
Alessandro.

*para quem ficou curioso a escola é a Escola Sebastião Paraná, aqui em Curitiba

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