O menino tinha um único LP. Um disco de vinil que, aos quatro anos, ganhou da tia. Um vermelho, da coleção Disquinho, daqueles que traziam histórias com músicas de Braguinha, arranjadas por Radamés Gnatalli. Esse, o dele, era a Formiguinha e a Neve. Andava com a coisa colorida para lá e para cá.

Acontece que seus pais não tinham radiola, toca-discos, eletrola ou qualquer coisa em que pudesse ouvir aquilo. Não sei se isso era pobreza ou se, na época, essas tecnologias eram, de fato, caras. Então, a história da Formiguinha e o Sol era um mistério, daqueles feitos de silêncio, embora cheio de cor, pois a capa do disco também era bastante ilustrada.

Um dia, a professora do menino disse que os alunos poderiam levar ao colégio os discos que quisessem mostrar a seus amigos pois, na radiola, ela tocaria alguns para todos ouvirem.

O menino voltou feliz para casa porque era a chance de, finalmente, conhecer a história e, ainda, mostrar seu presente para todos. Com alguma relutância dos pais – pois era um LP, algo caro e raro -, levou-o no dia seguinte para a escola.

Na última hora do dia, a professora começou o ritual quase mágico de colocar aquelas coisas redondas de plástico para rodar. E pôs o disco de um, de outro e todos ouviam atentos. Eram coisas importantes. Mas, por mais que ele balançasse os pequenos e brancos braços que, ora na esquerda, ora na mão direita, seguravam A Formiguinha e a Neve, em nenhuma das vezes foi o escolhido.

Voltou para casa, mais uma vez sem saber a história. Não ficou triste, triste mesmo. Na verdade, a tristeza com que retornou é daquelas que só depois de adulto a gente lembra e fica com aquele sentir de que poderia ter feito algo por aquele menino tão bem intencionado. Quase uma melancolia de pedir desculpas por algo que não mais volta e tampouco tem razão para pedidos de desculpas.

O presente de Natal que eu quero hoje, dar e receber, por isso, é poder contar para esse menino de quatro ou cinco anos que a história é sobre uma formiguinha surpreendida pela neve e que, por isso, tem seus pés congelados, presos durante a nevasca. Ela pode morrer de frio se não for ajudada. Pede auxílio para animais, para o vento e até para um muro. Ninguém pode fazer nada por ela. Por último, com sua voz fininha e melancólica, pede ajuda ao sol que, finalmente a salva. Sim, temos um final feliz para o pequeno inseto.

Talvez eu não tenha a voz tão bonita e treinada como a dos atores que participam daquilo e meu jeito de narrar não seja cheio de efeitos sonoros, talvez não haja orquestra por detrás, mas não quero deixar de falar para esse menino – que sou eu décadas atrás – que o disco tem músicas lindas, que tocam mesmo o coração da gente, não como um raio de sol, mas como coisas que não se diz mas que todo o mundo conhece.

E os pés, descongelados, têm finalmente vontade de sair a correr por uma grama verdinha para a gente dar cambalhotas até chegar à parte mais baixa da colina onde nos espera a primeira namorada de quem se rouba o primeiro beijo.

E são melodias tão belas como essa que agora escuto.

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