Em certas noites, noites como esta, Carlos gosta de imaginar que poderia estar em um carro, no banco do passageiro enquanto uma bela garota loira, de cabelos curtos, dirige em direção ao interior do estado.

Ajustaria o retrovisor do lado direito para que sempre pudesse ver a lua grande, redonda e amarela a segui-los.

Mas ele sabe que nem todo carro é veloz o suficiente para manter a lua sempre na linha do horizonte, como se tivesse acabado de anoitecer. Nem toda estrada é reta o bastanta para que a lua fique sempre à retaguarda.

Nessas noites quentes, um cheiro forte e doce de flor preenche o ar. Um aroma que, em alguns momentos, associado às numerosas estrelas, dá até enjôos. É bom e ruim ao mesmo tempo.

- Jasmim.

- Como?

- Jasmim. Isso é jasmim.

- Ahn? Eu achei que jasmim fosse um chá ou coisa parecida.

- É uma flor e serve para fazer chá também.

- Mas tem esse cheiro forte assim?

- Tem.

- Alguém deve ter uma plantação de jasmim aqui por perto… enfim… devem ser muitos pés… muitas árvores. Sei lá.

Colocaria a cabeça para fora da janela, como fazem os cachorros. Quem sabe até dependurasse a língua, tal se vê nos cães. Aguentaria alguns segundos a ventania nos olhos e que o impediria de respirar direito e voltaria para o seu assento, com as idéias mais geladas que o resto do corpo. Olharia para o lado para verificar a reação da garota. Ela, impávida ao volante, olharia com o canto dos olhos e daria um pequeno sorriso. Difícil saber se de aprovação ou sarcasmo. Ele adorava essas dúvidas. Na verdade, não adorava. Mas elas o deixavam fascinado de qualquer forma.

A essa altura, a lua já estaria no meio do céu. Branca, teria perdido aquela coloração entre o amarelo e o vermelho que prenuncia o fim do mundo.

Há muito tempo estaria no céu aquela estrela, a mais brilhante.

- Estrela não. Planeta. Aquele é o planeta Vênus.

- Engraçado.

- Engraçado o quê?

- Um planeta com nome de preservativo.

Isso faria com que ele lembrasse do pai. O pai sempre o corrigia quando chamava Vênus de estrela. Na verdade, era iniciado astronomicamente. Mas não gostava de demonstrar sempre o que sabia. Por várias vezes, fingia-me de bobo.

- Planeta, é? Duvido.

É impressionante como uma ignorância teimosa tem o poder de irritar as pessoas.

Quando chegassem à cidade, estaria tudo silencioso. Um cheiro de lenha queimada, porém, denunciaria que, como em toda cidade interiorana, algumas pessoas já estariam de pé. Os fogões acesos, não para aquecer – pois as poucas nuvens no horizonte, tingidas de vermelho, anunciariam mais um dia de calor -, mas para preparar o café.

Ela levaria o carro para o centro da cidade. Centro. Alguns prédios de dois, três andares. Pararia na frente de um sobrado.

- Desce lá. Abre o portão.

Ok.

- Ei. Tem que dar um tranco do lado direito. Se não der um tranco ele não sobe.

Daria um tranco do lado direito e, como previsto, o portão subiria.

- Sobe você primeiro. É muito estreito. Só cabe o carro. Depois você não passa.

Apertado mesmo. Boa motorista para conseguir tirar o carro de ré dali mais tarde.

- Mais tarde a gente pode ir ao clube. Tem só um clube aqui. Eu gostava de ficar na piscina encostada na parte onde sai a água. O jato pegava bem no meu cu. Acho que o salva-vidas sacava. Ficava me olhando.

Seria bom saber que mesmo uma cidade do interior tem um turismo interessante.

Exausta de tanto dirigir, ela sentaria no sofá, tiraria os sapatos e colocaria sobre o tapete de pele de vaca.

Ele, já nu, se aproximaria, levantaria a saia dela, e, com as mãos, afastaria as pernas e aproximaria o rosto. Adorava o cheiro.

- De joelho não. Fica de quatro. Quero ver sua bunda no ar.

Veria então uma gata branca a observar a cena.

- Jasmim.

- Ahn?

- Jasmim. É o nome da gata.

- O nome do chá? Digo, das flores?

- Cala a boca e chupa.

Na estrada, ela teria se enganado. As flores com forte perfume que sentiram à caminho da casa dos pais dela, mortos há um mês em um acidente, eram damas-da-noite.

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