Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
18 nov 2008
Fique calmo.
Você tem cinco anos de idade e só queremos que você sente nesta cadeira desconfortável por 5 horas.
Não começaremos por tanto tempo. No início há mais intervalos e períodos lúdicos. Vamos aumentando aos poucos.
Portanto, fique calmo.
Amanhã você também sentará nesta cadeira desconfortável por mais algum tempo.
De segunda a sexta e, às vezes, no sábado também. Embora por menos tempo.
E quando finalmente aprender a sentar nesta cadeira desconfortável por cinco horas, lá na frente estará um sujeito que falará durante as cinco horas sobre assuntos que, possivelmente, não interessam a você.
Não é culpa dele. Talvez nem ele saiba mais o que está fazendo ali.
Pois ele, antes de você, já teve a fase em que sentou-se, durante anos, em uma cadeira desconfortável durante cinco horas, ouvindo alguém falar sobre coisas que não lhe interessavam.
E, depois de passar por um processo desses, repetidamente, é bem possível que ele já não ligue mais para isso. Note como ele fala calmamente.
Assim, fique calmo.
Você não está aprendendo Matemática. Não está aprendendo Língua Portuguesa. Não está aprendendo Ciências. Isso é só a fachada.
O currículo está para o verdadeiro ensino como o restaurante sem movimento está para a lavagem de dinheiro de algum negócio ilícito. É só a fachada.
O que você aprende de verdade é que você deve suportar situações insuportáveis por períodos longos do seu dia, repetidamente ao longo de anos de sua vida.
A cadeira desconfortável em que você se senta por milhões de minutos está moldando sua bunda para o que bilhões de adultos costumam chamar de cotidiano.
Esse aprendizado tornará mais fácil e cômodo aceitar aquilo que se espera de você daqui a alguns anos.
E o cara lá na frente é uma espécie de boneco de treinamento. A exemplo dos simuladores, ele não pode feri-lo de verdade. Mas está condicionando você para a coisa mais importante nesta vida:
RESPEITAR A AUTORIDADE. A AUTORIDADE SÓ FALA A VERDADE.
E, pode acreditar, você terá oportunidade de respeitá-la e também de ser autoridade, às vezes simultaneamente, às vezes como boneco de treinamento. Ser, nessa máquina, uma engrenagem. Que é movida mas que move também
Sem respeito à autoridade, o mundo como o conhecemos não funciona. E todo o mundo sabe como o mundo, tal e qual o conhecemos, é ótimo. Todos o adoram. Ninguém quer engrenagens que se movam em algum sentido inesperado.
Então. Fique calmo. E sentado.
Outra coisa importante: errar é horrível.
Esperamos que você só acerte nesta vida.
Sabemos que ter medo de errar prejudica a criatividade, pois a criatividade presume eventuais erros.
Mas também ninguém espera que todo o mundo seja criativo. Afinal, o que seria da autoridade se todo o mundo começasse a ser criativo e tivesse liberdade para errar sem medo?
Assim, mais fachada: parece bonito ensinar alguém a só acertar, mas de verdade o que você tem que aprender mesmo é o medo de errar.
O mercado não admite erros.
Não havíamos tocado neste assunto, ainda.
O mercado.
Mas saiba que o mercado é a cola que une a sua bunda a essa cadeira desconfortável. Afinal, você precisa, um dia, ser capaz de ser um empregado e fazer parte do mercado.
É por isso que você está sentado. Sentado e calmo.
Fique calmo.
E, depois de anos de cadeira, ouvindo alguém falar de coisas que não lhe interessam em absoluto, você passará por uma coisa chamada vestibular.
O vestibular verifica se você ouviu e absorveu o suficiente de coisas desinteressantes e se, assim, será capaz de, mais tarde, vender seu tempo para projetos que também não lhe interessam necessariamente. E, assim, ser um empregado exemplar.
Isso tudo depende de:
Se você tiver absorvido tudo isso, certamente passará no vestibular. Muito embora – e mais uma vez entramos no tema da fachada – o vestibular pareça medir coisas como Matemática, Língua Portuguesa e Ciências.
Podemos concluir, grosso modo, que quanto mais concorrida a vaga de um curso, mais ela exige das três capacidades acima arroladas.
Matemática, Língua Portuguesa e Ciências são índices apenas. Na verdade, estão para o verdadeiro ensino como o hambúrguer está para o cadáver do boi.
Ainda assim, FIQUE CALMO.
Sim. Finalmente, você entrou em uma faculdade.
PARABÉNS!
Mais alguns anos de cadeira desconfortável. Só para garantir.
Mas agora você não precisa ficar sentado nela durante tanto tempo. Não é preciso. Seu espírito já se dobrou. Possivelmente, ele está sentado neste momento, suportando alguma situação insuportável, mesmo quando você está em pé.
Bem calmo.
É bem provável que essa faculdade em que você entrou tenha como slogan algo semelhante a “preparamos para o mercado” com a foto de um modelo sorridente abaixo.
Não confunda: ele não é um estudante da instituição, mas os dentes daquele sorriso são o mercado.
Para as fachadas mais humanas, o slogan é algo como “preparamos para a vida”. Que, considerando que vida e mercado hoje são quase sinônimos, dá na mesma.
“Preparamos cidadãos” – e seus equivalentes – quer dizer “ensinamos você a usar o Procon”. Porque, no mercado, o bom cidadão é o consumidor. Talvez a única vez que você tenha questionado o sujeito que fala coisas desinteressantes lá na frente tenha sido dizendo algo como: “Ei, eu pago o seu salário! Sou um consumidor!”. Parabéns, você aprende rápido.
Pois se você é incapaz de consumir, não é um cidadão de primeira classe. Talvez nem seja um cidadão.
E o mercado pede que você seja um cidadão. E o máximo a que o seu questionamento será capaz de chegar irá até estas três letrinhas: SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor).
Se as empresas quisessem atender pessoas, colocariam gente de verdade atendendo aos telefonemas. E não gravações ou outras pessoas lendo scripts e preparadas pelo mercado.
Por isso, o mercado – de olho no futuro – cola sua bunda à cadeira desconfortável durante horas.
Para aprender a suportar situações insuportáveis, respeitar a autoridade e para nivelar sua criatividade tão aceitavelmente quanto a volúpia de um gato castrado.
Para que assim, um dia, você possa contribuir e, só então, consumir: realimentando o processo.
Eu sei que, aos cinco anos de idade, é difícil entender o que está acontecendo.
Mas peço que, por alguns instantes e nos seguintes, você FIQUE CALMO.
Em alguns anos você vai aceitar tudo perfeitamente.
18 comentários para "Fique CALMO: algo sobre tudo o que você já aprendeu"
Sou infeliz ao perceber que posso ter aprendido tudo isso muito direitinho.
Ou a consciência da crise é um caminho para a saída? Hm, creio que não…
Ok, vc conseguiu se superar no meu conceito de Blogueiro Master Pica! Texto para favoritar e reler até que, como pai, educador, empresário, eu seja capaz de formular (ou contribuir para a formulação de) algumas saídas para esse tipo de enrascada na qual nos deixamos ser metidos, dentre outras coisas, pela nossa própria incapacidade de formular saídas.
Caralho! Puta que pariu! De fuder! Você é foda! Adorei esse texto Alê. Sintetizou em um post tudo que é referente a essa tal vida “muderna” e seus esparros robotizantes.
PS: a demissão realmente te fez bem, teus textos estão cada vez melhores. Acho que preciso de um estímulo parecido.
Nessa vc se superou. Vou até mandar pra galera da minha turma, tenho certeza que eles vão adorar o texto.
Adorei, mas fiquei pensando num futuro filho que eu venha a ter… tadinho, vou olhar pra ele e pensar… ir pra escola? pra que? ai ai ai ai
isso não vai dar certo.
Bjim pra vc, e parabéns!
Rosana,
o importante é que as boas inflências sejam mais fortes que as más. Tenho boas lembranças da escola também…
Beijos do Ale.
Fabio,
finalmente, depois de anos de ensino, consegui ser o que todo mundo no fundo, no fundo ambiciona: um desempregado… hahahaha!
Abraços do Alessandro!
Wagner,
claro que, como é um texto literário, pintei as coisas em cores mais fortes. Mas não deixa de ter, mesmo suavizando os contrastes expressionistas, ter seu fundo de verdade. A verdade, porém, é que tenho boas lembranças da escola.
Abraços do Alessandro.
Brisa,
entre sermos um hamster que vê as grades e um que não vê… difícil escolher. O que vê, pelo menos, talvez consiga fugir
Beijos do Ale.
ri muito com o texto haha
Muito bom Alê!
E até hoje não sei como passei no vestibular…mas amo a faculdade, colégio e afins. Não pela sala de aula em si – tem cada coisa que somos obrigados a escutar – mas pelas pessoas que conheci lá, aprendi muito mais fora da sala ;D
Pri, como eu disse para alguém lá em cima: claro que a escola tem coisas legais… é por elas que a gente, no fim, acaba gostando… beijos!
Cara, vi seu comment no blog do mestre, e vou ter que republicar no meu blog! simplesmente fantástico!
grande abraço
Edilson
Ale. Você é o cara! Parabéns pelo texto.
Um abraço forte do amigo
Rapha
É fato que no Brasil, estamos em uma época de profundas mudanças na área educacional, todos tentando utilizar a melhor metodologia, o melhor teórico, as melhores disciplinas, humanizar ou não a escola, entre outras dúvidas… Mas acredito muito que isso entre em equilibrio, daqui uns anos, e a Educação em nosso país comece a funcionar.. Preciso acreditar, sou professor rsrs
Parabéns pelo texto, do início ao fim….
Po Ale: mania de fazer as pessoas pensarem por si só
Realmente, apensar da formatação literaria, dificil questionar a logica.
Posso republicar interalmente ou repassar via e-mail ou prefere citação parcial?
Abraço, Amísio.
“Observe o modo que são educadas as crianças. Quando reparamos nos fatos tais como são, e como sempre foram, salta aos olhos que toda educação consiste num esforço contínuo para impor à criança maneiras de ver, de sentir e de agir às quais ela não teria chegado espontaneamente. Desde os primeiros tempos de sua vida a obrigamos a comer, a dormir, a beber nas horas certas. Obrigamo-la à limpeza, à calma, à obediência. Mais tarde, obrigamo-la a ter em conta os outros, a respeitar os usos, as conveniências, a trabalhar, etc, etc. Se, com o tempo, essa coerção deixa de ser sentida, é porque, pouco a pouco, engrenou hábitos e tendências internas que as tornaram inútil, mas que só as substituem porque derivam dela. É verdade que, segundo Spencer, uma educação racional deveria reprovar tais processos e deixar a criança agir com toda liberdade; mas, como esta teoria pedagógica nunca foi praticada por nenhum povo conhecido, só constitui um desideratum pessoal, e não um fato que possa opor-se aos precedentes. Ora, o que torna estes últimos particularmente instrutivos é o fato da educação ter justamente por objetivo fazer o ser social. Nela se pode ver, em suma, como esse ser se constitui na história. Esta pressão permanentemente exercida sobre a criança é a própria pressão do meio social que tende a moldá-la à sua imagem, e dos quais pais e professores são meros representantes e intermediários.”
Émile Durkheim, As regras do método sociológico – 1895
[...] NA ESCOLA Por Ricardo Jevoux Eu li no Livros e Afins mas diz lá que o texto original é do Cracatoa Simplesmente Sumiu. Pasmem com esse texto. Sem [...]
[...] Fique CALMO: algo sobre tudo o que você já aprendeu Posted on 05/06/2010 by ◕‿◕ Fonte [...]
Adorei!! E o que mais dói é que tudo isso é verdade. Obrigada
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