Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
17 set 2009
O Ministério da Cultura aprovou a captação de R$ 4 milhões (isso foi há algum tempo… não sei exatamente em que montante estamos) para o filme O Doce Veneno do Escorpião, baseado no livro de Rachel Pacheco, a Bruna Surfistinha. O dinheiro será obtido, portanto, por renúncia fiscal através de leis de incentivo à cultura – imagino que a Rouanet e a do Audiovisual.
Não entrarei no mérito artístico da questão. Nem li o tal livro. Não é isso. Por mim, o filme pode ser até o novo Cidadão Kane – o que, sem demérito, obviamente não será.
Antes de continuar essa história, eu preciso deixar algumas coisas bem claras.
Se você não entendeu ainda o que é uma lei de incentivo à cultura, eu explico.
Por exemplo: o produtor de um artista totalmente desconhecido – como o Caetano Veloso, a Daniela Mercury, a Ana Carolina, a Xuxa, o Chitãozinho e Xororó ou os do Cirque du Soleil – precisa de um dinheirinho para conseguir fazer um show ou um filme.
Ele procura então as leis de incentivo à cultura – municipais, estaduais ou federais.
Elas foram criadas para que a iniciativa privada possa ajudar desinteressadamente a esses produtos que ainda não despontaram nas gôndolas de nossos supermercados culturais.
O produtor prepara um projeto cultural bem bonitinho, que será aprovado ou não pelo Ministério da Cultura ou pelo órgão equivalente da esfera estadual ou municipal.
Aprovado o projeto, o produtor agora vai captar o valor estipulado – com cortes ou não – junto a empresas totalmente desinteressadas em finalidades que não sejam a de ajudar a cultura nacional.
Essa ajuda, afinal, custa: nada.
O dinheiro transferido para o projeto cultural – seja um show, um filme ou uma panela de barro cru – é descontado do imposto de renda da empresa. Ou de outros impostos, de acordo com a lei usada.
E, como contrapartida, a empresa pode estampar sua logomarca no projeto, no papel de incentivadora cultural e posar como entidade de alta responsabilidade social.
Antes de continuar a falar sobre o filme baseado no livro da Bruna Surfistinha, gostaria de citar a produtora cultural Yannick Bourguignon:
A Lei do Audiovisual estipula uma alíquota de dedução de 125%. Patrocinar um projeto cultural nestes termos tornou-se algo muito convidativo, por ser um ótimo negócio. Principalmente para as empresas, que com a política de responsabilidade social, vêem na cultura um campo de atuação, ou melhor, investimento gratuito e com grande retorno de imagem e marca.
Isto é gritante no caso específico do cinema brasileiro, onde é possível deduzir 100% do valor de patrocínio do imposto e ainda 25% como despesa operacional. Pesquisas realizadas revelam que, por exemplo, para conseguir R$ 60 destinados ao caixa do filme, são gastos R$ 125,00 de dinheiro público, sem qualquer contrapartida privada.
Não sei se eu entendi bem. Eu repassei R$ 1 milhão para um filme e posso descontar R$ R$ 1,25 milhão do imposto de renda? Eu ainda vou ganhar espaço publicitário na tela e no cartaz? Eu devo ter entendido errado. Alguém me explique. Tem certeza de que vocês não estão querendo me enganar?
De fato, eu ia continuar a falar aqui sobre o filme da Bruna Surfistinha, mas prefiro ser breve, dizendo o seguinte: quando você estiver comendo sua pipoca antes de O Doce Veneno do Escorpião começar e as logomarcas das empresas aparecerem, lembre-se, você pagou para que elas estivessem ali. As logomarcas e as pipocas.
E pagou, mais uma vez ainda, na bilheteria.
Mas fique grato a elas: sem as tais, esta e outras realizações cinematográficas brasileiras não seriam possíveis.
4 comentários para "Filme da Bruna Surfistinha: agora a picada do escorpião é no seu bolso"
eu já tentei levantar uma peça de teatro com ajuda das leis de incentivo. na boa. não é incentivo nenhum.
e eu vou perdendo a fé na humanidade.
Eu aprovo a ideia do filme. Temos que investir em cultura. Quantos filmes nao existem sobre prostitutas? por que nao o ministerio apoiar mais um?
http://www.nuroa.com.br
Eu acho bacana a idéia de passar o dinheiro direto do contribuinte para…o contribuinte. Todos pagando, todos recebendo, você sabendo onde foi parar o dinheiro, isso no meu mundinho perfeito.
A intenção é boa, a prática é que é péssima.
Não sei se o Cirque – ou melhor a T4F que é a responsavel pela turnê deles aqui – ainda conseguiu abocanhar essa. Mas na primeira vez já deu õ que falar afinal com tanto patrocínio e incentivo o ingresso mais baratinho ainda custa mais que R$200.
E pague quem puder!
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