Minha avó se arrumava para ir à escola. Reunião de pais e mestres. Então meu pai, criança, perguntou. Por que, afinal, ela usava sempre o mesmo vestido nessas ocasiões. Ele não lembra do que ela respondeu, apenas que ela chorou um pouquinho, com a frágil vaidade derrotada pela pobreza.

É uma história curta, mas das mais tristes que eu conheço.

Certa vez, fui com minha avó até o escritório onde ela conseguiria se aposentar. Nunca a vi tão feliz e empolgada. Ela costumava comprar balas para mim. As deixava dentro de uma caixa dentro do armário de sua casa. Sempre que eu queria uma ia ali e não precisava pedir para ninguém. Mas para fazer isso, precisava pedir dinheiro a meu avô. Com a aposentadoria, seria independente para comprar as balinhas para o neto, para mim.

Não recordo se ela chorou um pouquinho, mas deve ter ficado decepcionada quando o funcionário a informou que, por uma burocracia qualquer, não teria sua pensão mensal. No dia em que isso aconteceu, não fiquei triste. Era muito jovem para perceber a importância daquilo. Talvez até estivesse com pressa para voltar para casa daquele passeio chato. Mais uma história triste para a coleção.

Meu avô foi criado pelos padrinhos. Do que escutei restou a impressão de um regime de semi-escravidão. Para experimentar suco de groselha pela primeira vez, bebeu o líquido que um de seus irmãos de criação derramara sobre a mesa. Era colorido e cheiroso demais para uma criança resistir. Apanhou por causa disso.

Em outra ocasião, eu voltava para casa com meu pai para casa. Andávamos e conversávamos sobre algum cara famoso que, como víramos no noticiário, tinha tido problemas com drogas. E eu caí na armadilha do discurso fácil. Disse que drogados não mudavam nunca. Meu pai ficou triste, pois naquela época se recuperava da dependência de anfetaminas. Falei sem pensar e o magoei. Lembrar disso sempre dói um pouco.

É inevitável ficar um pouco melancólico ao contar todas essas histórias.

Por outro lado, também posso me emocionar quando estou no cinema. Embora nenhuma das coisas que estejam no filme tenham ligação comigo, elas sempre podem me levar às lágrimas.

O que posso concluir disso tudo é que essas coisas todas, todas, não passam de uma grande ficção.

Li em algum lugar que, a partir do momento em que uma história é contada, ela passa a ser nada mais nada menos que isso: ficção. Seja ela uma história verdadeira ou não.

A melhor definição de memória que conheço é a de um sábio: a memória é a não extinção das experiências passadas. E o que faz com que todas essas ficções – as verdadeiras e as verdadeiramente ficcionais – sejam tão efetivas nas emoções é isso. As experiências passadas estão sempre muito vivas dentro das pessoas.

Talvez haja um modo certo – não, um modo melhor – de encarar o mundo. Não digo que seja o caso de extingüir a memória. Mas saber que lembrar de uma dor, embora cause impressão, não a faz doer novamente. A dor está no mesmo lugar para onde o escuro vai quando se acende a luz.

Porém, existe uma outra forma de encarar essas narrativas um tanto tristes, e o mesmo vale para as um tanto felizes – e elas são tão ou mais numerosas. Todas elas são sim verdadeiras.

O filme no cinema é tão verdadeiro quanto minha avó a voltar cabisbaixa para casa sem sua aposentadoria, quanto seu melhor vestido já tão usado, quanto à voz tão triste de meu pai e a sede de meu avô por algo doce e róseo.

Gosto de pensar que quando lembro posso criar uma realidade, não outra realidade, mas esta, a sua que, nesse instante me ouve neste texto. Torno ainda mais real aquilo que, mesmo sem mim, existiria, numa linha sutil que, finalmente, chega até onde deveria: seus olhos ou outras partes.

Por isso, termino dizendo que, ao ouvir a pergunta de meu pai, minha avó vai até o guarda-roupa e mostra-lhe um vestido novinho em folha. Anos depois ela consegue a aposentadoria, o dobro do que esperava. Meu avô ganha um refresco de groselha só para ele. E meu pai nunca teve problemas com drogas.

Não. Prefiro tudo como está. A vida é boa como ela é. E, uma só, não vale a pena se perder tempo em pensar sobre como seria se ela tivesse sido diferente. Bobagens.

Já há ficção suficiente num dia seguido por uma noite seguida por um dia seguido por uma noite.

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