Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
15 jul 2010
Uma das meninas mais legais e criativas com quem já tive o prazer de namorar inventou uma expressão ótima: ficar sem bolso.
Ela é aplicável àquelas situações em que, de fato, ficamos sem bolso.
É como ficar sem chão, mas mais humano. Pois, diferentemente de ficar sem chão, é facilmente imaginável o que acontece quando ficamos sem bolsos e, portanto, sem saber onde colocar as mãos.
Não como um desenho animado. Como quando o coiote dá tchauzinho antes de cair pelo desfiladeiro. Ficar sem chão é para tragédias e grandes revelações. Ficar sem bolso é para o dia a dia.
No inverno, no entanto, sofremos da síndrome do excesso de bolsos. Nunca sabemos em quais deles, de tantas blusas e jaquetas, colocamos a carteira, o celular, as chaves.
A coisa que procuramos não só não está em nenhum deles em que apalpamos, como tarados a se autobolinar, como deve estar justamente naquele do qual nem lembramos a existência.
No verão, ao contrário, sofremos da síndrome da falta de bolsos. Aí precisamos atulhar todas as coisas nos poucos e apertados bolsos da calça ou contar com a ajuda, no caso de sorte no amor, da bolsa da namorada.
Mas o sem bolso de que falava aquela menina que inventou a expressão é outro.
É aquele sem bolso que sentimos mesmo no inverno, quando estamos repletos deles, e nossas mãos parecem dois seres estrangeiros a procurar a pátria onde pátria não há.
Ficar sem bolso é ficar assim meio sem jeito. Porque o bolso, às vezes, é onde enfiamos nossa cara.
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