Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
27 jul 2009
Sexta-feira passada recebi por correio o comunicado de que deveria entregar minha Carteira Nacional de Habilitação. Na carta, gerada por computador, havia até o número do processo que tinha causado a suspensão do meu direito de dirigir.
Detalhe: há uns seis anos não cometo uma infração.
Pesquisei no site do Detran e descobri que se tratava de uma multa por excesso de velocidade em 2003, em Garibaldi, no Rio Grande do Sul. Na verdade, quem estava no volante era meu falecido pai. Nunca estive em Garibaldi e, se você me pedisse para localizar essa notável cidade no mapa brasileiro, eu teria dificuldade para encontrá-la.
Só a idéia de comparecer ao Detran, ainda que seja apenas para usar o mictório, causa-me um certo receio. É o tipo da repartição pública onde a síndrome do pequeno poder tem uma maior tendência a surgir. E eu teria que ir já na segunda-feira entregar o tal documento. Não tive dúvidas quanto à possibilidade de debater a questão: com funcionários públicos e computadores não há como discutir.
Você já reparou como em todas as repartições públicas onde existe atendimento há aquele aviso dizendo que ofensas a funcionários públicos no exercício de suas funções pode dar cadeia e multa? Pense um pouco e você logo enumerará duas dúzias de razões pelas quais esse tipo de alerta é desnecessário na iniciativa privada. Sinceramente, a presença desse aviso me ofende antes mesmo de que eu possa pensar em ofender um funcionário público.
Na verdade, não posso dizer muito sobre isso, pois meu próprio pai era funcionário público, atendia às pessoas e, até onde sei, era muito gentil.
A moça que me atendeu, realmente, até teve boa vontade e verificou a possibilidade de algum engano. Segundo os dados do Detran, o senhor João Francisco entrara com recurso para anulação da multa, na época, mas esquecera de se apresentar como o motorista responsável.
A multa não foi anulada e tudo ficou por isso mesmo até hoje. A moça até pareceu acreditar no fato de não ter sido eu o motorista infrator. Mas não teve jeito. De 10 a 14 de agosto eu farei um curso de reciclagem que talvez até renda algumas histórias para publicar aqui.
Para resumir a história: minha carteira está suspensa por uma infração que não cometi, em um lugar onde nunca estive, por um motorista que já está morto.
Sinto-me num daqueles casos em que os descendentes de um nobre pagavam pelos erros das gerações anteriores. Sou uma espécie de Hamlet do volante.
Quando, durante as aulas de direção defensiva ou outro item que eu conheça mais ou menos bem, eu estiver me fazendo de louco ou com um livro aberto e o instrutor perguntar o que estou lendo, responderei:
- Legislação, legislação, legislação.
De trânsito, naturalmente.
Espero, na minha impaciência, não ter a carteira suspensa definitivamente. Se tudo der certo, recupero o direito de dirigir no dia 19 de setembro.
Mas você sabe. Existem mais coisas entre o banco do motorista e o volante que possa supor nossa vã filosofia.
11 comentários para "Eu: motorista infrator hamletiano"
Eita,que situação surreal.Boa sorte e paciência.
Alessandro:
Só com você acontece uma história desta…
E ao contar ainda me deixa mais curiosa ainda com as possíveis de acontecer. E vai acontecer.
Boa sorte na empreitada.
Anny
Obrigado, Anunciação. Valeu pela torcida!
Anny,
no fundo é bom. A Júlia está começando a dirigir e vai pegar mais o carro e eu vou andar mais de bicicleta… pena que está chovendo tanto!
Beijos!
Naturalmente, tem algo de podre no reino das repartições públicas…
Thiago Gonçalves… conheci-o muito bem…
“É o que todos dizem. Aqui, todos são inocentes”. Já estou até vendo.
Já estou com uma história ainda mais triste que a verdadeira escondida na manga, Caminhante. Vai colar. hehehe.
[...] como uma sugestão para melhorar o trânsito, não foi um xiste ou uma ingênua brincadeira sexista.Saiba por que um cara que não comete uma infração há 5 anos estava numa turma de reciclagemMuito embora a maioria dos presentes naquela sala de motoristas infratores fossem homens (um placar [...]
[...] por comodidade e não por uma razão ética de fato: por exemplo, por considerar a lei injusta (no fundo, o engano que ocasionou a suspensão foi meu e de meu pai).Assim, quando surgisse um momento de me rebelar contra uma lei que julgasse de fato injusta, eu me [...]
“Existem mais coisas entre o banco do motorista e o volante que possa supor nossa vã filosofia.”
Essa frase é perfeita….rsssss
Alessandro, acho que só no Brasil acontecem essas presepadas, que barbaridade!
Infração que não cometeu, num lugar que nunca esteve e o motorista está morto………affff
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