Eu fui revisor em uma fábrica de biscoitos da sorte.

Depois de comer da comida chinesa daquela caixinha entregue em casa, é graças a alguém como eu que você não encontra erros no bilhetinho.

Você quebra a massinha seca e, antes mesmo de levar cada um dos dois pedaços à boca, limpar as migalhas que ficaram sobre a toalha, você começa a ler. Nenhum erro. Uma mensagem banal, inócua, como

SERÁS PRÓSPERO SE GUARDARES PARA O FUTURO

ou

TERÁS SABEDORIA SE RESPEITARES OS PAIS

ou

A VIDA TRARÁ COISAS BOAS SE TIVERES PACIÊNCIA

Os fabricantes de biscoitos chineses da sorte atuais adoram frases na segunda pessoa. Na segunda pessoa do plural, melhor ainda. Mas eu pelo menos procurava ser persuasivo para manter segunda pessoa do singular. Algo em mim tinha medo que os comedores de comida chinesa pensassem que foi o próprio Deus quem escreveu aquilo. Receava que, se a segunda pessoa do plural fosse mantida, as pessoas iniciassem um culto aos biscoitos da sorte.

No singular, já soa suficientemente pernóstico.

Era outro cara quem escrevia as mensagens. Fazia isso o dia inteiro. Eu, por minha vez, revisava. Também o dia inteiro.

Os proprietários da fábrica adotaram uma política de qualidade total. Por isso eu estava ali.

Imagine a reação de uma pessoa se, depois de uma refeição gordurosa, empanturrada com uma comida que lembra a comida chinesa tanto quanto um hambúrguer lembra um giló, ela encontra um verbo haver no plural? Haver no sentido de existir, digo. Que não tem plural.

Nem na segunda pessoa do plural.

Algo como

HAVERÃO GRANDES ACONTECIMENTOS NA TUA EXISTÊNCIA SE MANTIVERES A SENDA

Se o cliente for um professor de gramática, certamente procurará o telefone da fábrica na embalagem individual do biscoito. Não se importará que seja sábado, 11 horas da noite, importunará o vigia até que ele lhe dê o número residencial do proprietário e, lá pelas 11 horas e 47 minutos, vai falar com ele:

- Escuta aqui. Sou cliente seu. Não sabia que o verbo haver no sentido de existir não tem plural? O certo é Haverá grandes acontecimentos bababá bababá.

- Não entendi.

- O verbo haver não tem plural no sentido de existir.

- Digo, não entendi essa parte do bababá. Tenho certeza de que ninguém teria escrito uma coisa dessas numa das sortes de nossos biscoitos.

- Olha. Vocês estão de brincadeira. Esses erros não podem macular a nossa Língua Portuguesa.

E diz assim, com iniciais maiúsculas, como deve ser. Bem, a história acaba com o dono da fábrica de biscoitos processado e o professor de gramática com uma indigestão, no hospital. Tudo por causa de uma conjugação errada. Conto o final para deixar o meio por conta de quem lê.

Aliás, diga-se de passagem, o verbo haver errado é um perigo. Se ele surge conjugado errado em um jornal, ainda que escondido em uma nota de rodapé, um bando de fanáticos começa a ligar pela manhã – como se tivesse descoberto a América dos erros gramaticais – e os telefonemas só terminam no dia seguinte, repletos de avisos, advertências e ameaças.

Mas daí se vê o tamanho da responsabilidade que eu tinha.

Por outro lado, imagina-se o tamanho de meu tédio. É muito chato revisar durante o dia todo bilhetes de biscoito da sorte. Como não bastasse a imagem de chato que todo revisor tem. Acreditem, os revisores são heróis. Apesar de salvarem diariamente a Língua Portuguesa, assim, com iniciais maiúsculas, como tem de ser, eles têm essa imagem de chatos.

Mas vamos admitir, nada mais chato do que alguém cuja profissão é apontar os tropeços alheios, muitos dos quais os próprios alheios são capazes de perceber. É um trabalho difícil, mas alguém tem que dar conta da tarefa ingrata. Tarefa ingrata mesmo.

A minha sorte mudou quando o dia em que meu tédio atingiu seu limite coincidiu com o dia em que o redator dos bilhetes da sorte estava desaparecido há uma semana.

Supostamente, não havia quem o substituísse.

Como todo revisor, obviamente, eu tinha meus pendores literários. Rapidamente, ofereci-me para a tarefa.

E comecei. Sem inventar muito.

TERÁS BOA FORTUNA SE OLHARES PARA O FUTURO COM CAUTELA.

ou

FARÁS BOA FIGURA SE NÃO APARENTARES SER MAIS DO QUE ÉS.

E, de repente, passei a achar aqueles conselhos muito prudentes. Em um instante, percebi o tamanho do poder que tinha nas mãos e ele, o poder, subiu-me à cabeça.

Lá pelas 11 horas da manhã já escrevia coisas como

ARRUME UM EMPREGO MELHOR. VOCÊ MERECE.

ou

NÃO SE CONTENTE COM POUCO. A VIDA É CURTA.

ou

HÁ MUITO MAIS MUNDO PARA ALÉM DE SUAs PAREDEs.

E eu ficava feliz ao ver que os bilhetinhos eram impressos e iam para a produção. E até uma hora da tarde eram mandados para seus respectivos restaurantes.

Ás 3 horas da tarde porém tive nova onda de empolgação. E essa foi minha ruína.

Quis ser criativo em excesso.

Escrevi coisas como

ESSA COMIDA É GORDUROSA. MELHORE SUA ALIMENTAÇÃO

ou

SUAS ARTÉRIAS ESTÃO ENTUPINDO

Dizem que todo criminoso quer, de alguma forma intrincada, se entregar. Deixa pistas, propositais ou não. A minha foi um tanto proposital. E foi minha obra de arte naquele dia. E digo obra de arte porque essa simples frase teve o poder de mudar o meu destino, culminando na descoberta de todas as coisas terríveis que fiz até ali e trazendo-me até este presídio de onde relato minha história. Foi

SOCORRO. FUI RAPTADO. ESTOU PRESO EM UMA FÁBRICA DE BISCOITOS DA SORTE

Conto o final para deixar o meio por conta de quem lê.

Aliás, permito-me algumas pistas: eu preso, um redator morto e um comedor de comida chinesa que, de uma hora para outra, mudou a sua sorte tornando-se herói.

Mas você já deve ter lido tudo nos jornais. Houveram manchetes.

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