Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
26 ago 2008
Ela deu a seta para a direita e entrou na lanchonete. Ao sair da estrada, as rodas levantaram uma nuvem de poeira do chão seco.
Queria um hamburguer.
- Serve pastel? – disse a balconista com uma cara e uma voz engorduradas.
Pensou que Elvis não deveria nunca na vida ter que comer pastel. Tudo bem. Que fosse o pastel. E Coca-cola caçulinha. Comeu enquanto olhava um pouco para o movimento da estrada, um pouco para os cartazes com propaganda de cerveja. Pediu mais um. Comeu. Finalmente, limpou a boca. Levantou, tirou o pente do bolso de trás e ajeitou os cabelos, o topete e as costeletas falsas, no reflexo do vidro onde coxinhas e outros salgados estavam expostos. Pagou e procurou as chaves no bolso para seguir viagem.
Aquele Variant bege não era exatamente o que pretendia para sua fuga. Nos seus sonhos, imaginava-se em um Cadillac conversível vermelho. Conversível não. O vento poderia estragar o topete. E as costeletas falsas.
Aos vinte anos, ligou novamente o motor. Aos vinte anos, pois dali vinte minutos, às quatro e quarenta e cinco da tarde, teria vinte e um.
Então, ainda aos vinte anos, ligou o motor novamente. Aos vinte anos, tudo o que ela queria era ser Elvis Presley. Provavelmente, aos vinte um, continuaria a querer. Pois era isso o que se passava em sua cabeça, não todo o tempo, mas pelo menos várias vezes ao dia, desde que aos oito anos vira a foto do cantor em um poster na casa de uma tia. E, essas coisas de querer ser Elvis Presley não mudam assim. Não em vinte anos, não em vinte minutos.
Havia alguns problemas nisso, porém.
Ela nasceu em uma cidade do interior chamada Astorga. No Paraná, Sul do Brasil. Nada contra as cidades do interior. Mas Elvis, no século 21, já não era muito popular por ali. Muito difícil conseguir CDs, filmes e outros tipos de material sobre ele. O que lhe dava uma crônica sensação de amnésia. Não bastasse, isso, ela era mulher. E, até onde se sabe, o cantor era homem.
Mas o mais sério é que ela não queria ser uma imitadora ou um imitador de Elvis simplesmente. Ela queria ser o Elvis Presley. O próprio.
É fácil imaginar todos os problemas que ela conseguiu com os irmãos, com os pais e com as vizinhas faladeiras por conta disso. Daí a fuga. Roubou o Variant bege e sem graça que nunca esteve nos seus sonhos e, no dia de seu aniversário, decidiu que, de um jeito ou de outro, voltaria para casa – ou seja, Graceland, em Memphis, Tennessee. Voltaria ainda naquele ano.
Quinze minutos depois de ter retornado para o asfalto, um dos pneus furou. Parou no acostamento, puxou o freio de mão e arrumou o topete e as costeletas falsas no retrovisor.
Desceu do carro, abriu o porta malas e, surpresa, não havia estepe.
Paciente, começou a tirar o pneu furado para esperar que passasse alguém disposto a ajudar um cantor sem estepe. Mas depois pensou que aquilo não seria uma boa idéia. Não sabia nem se aquele pneu era do tipo com câmara, que nem se fabrica mais ou se era do tipo sem. Ela era um cantor. Famoso. Não tinha conhecimentos sobre essas coisas. Não devia nem ter tido o trabalho de usar o macaco e as ferramentas. Aquilo não era para ela. Resolveu agir como o Elvis Presley, que era, e colocou-se com a mala e o estojo preto do violão algumas dezenas de metros à frente para pedir carona. O plano era ir para Curitiba e, de lá, para os Estados Unidos. De um jeito ou de outro.
Demorou uns vinte minutos para que um carro parasse.
Era dirigido por outra garota.
- Você também está fugindo? Parece estar… – a garota perguntou, com cabelos loiros – como o campo pronto para a colheita dos dois lados da rodovia, e sem costeletas falsas.
Ela fazia o tipo caladão. Mas respondeu que sim. Que diabos tinha aquela região que todos estavam fugindo? Quem a garota pensava que era? Marylin Monroe?
- Meu nome é Mary. Digo, Maria Helena, mas me chamam de Mary. E o seu nome qual é?
- Elvis.
- Que nome estranho para uma garota.
Isso. As pessoas não entendiam mesmo. Talvez nunca entendessem.
- Sabe, Elvis. Eu gostei de você. Esse seu cabelo, esse seu jeito. Deve ser moda ou coisa assim, certo? Você é quieta mesmo, não?
- Eu sei cantar… digo, eu prefiro cantar…
- Você canta? Que lindo!
- Posso cantar pra você. Quer ouvir?
- Claro! Eu adoraria…
Poucas pessoas tinham disposição para ouvir alguém próximo a elas cantar. A maioria acreditava que cantar, cantar mesmo só aqueles que estavam no rádio ou apareciam na tevê. Os outros, os conhecidos, filhos, parentes, vizinhos, davam dor de barriga e outros males.
- Ok. Depois. Quando nos separarmos em Curitiba.
Em uma viagem longa, sem rádio, as pessoas costumam conversar sobre várias coisas. Sobre cachorros, sobre a paisagem, sobre as comidas preferidas, banalidades, coisas agradáveis. Evitam, de fato, falar sobre problemas e sobre o que as levou a estar ali em fuga. O fato é que às vezes é preciso muito pouco para as pessoas se sentirem próximas. Pouco tempo, pouco assunto, poucos motivos. Às vezes basta que elas sejam a única coisa que se tem naquele instante. Mary, por assim dizer, foi o presente de 21 anos de Elvis Presley. Até então ela era um cara solitário.
Chegaram na cidade à noite. Pegaria já um ônibus para São Paulo e, lá, faria apresentações em bares para comprar sua passagem de avião.
Na rodoviária, a garota parou o carro para ela descer.
- Ei, espera. Você prometeu cantar uma canção pra mim.
Ela tirou o violão do estojo, afinou rapidamente e quando ia começar…
- O que você vai tocar?
- Uma minha.
Tocou Love me tender. Uma parceria dela com Vera Matson.
- Que lindo… sabe… ninguém nunca tocou nada assim pra mim antes…
E, ao final, na hora de se despedir, trocaram um beijo, não no rosto, mas doce, longa e inesperadamente na boca.
Pois em uma viagem longa, sem rádio, sobre várias coisas duas pessoas sozinhas conversam entre si, mas muitas vezes evitam falar sobre os problemas que as levou a estar ali, em fuga.
Mary sabia que nunca mais veria Elvis. Mas não imaginava que lembrança deixar com ela. Por isso, sem maiores explicações deu-lhe a chave da casa para onde não mais voltaria. Finalmente, despediram-se com um último beijo.
O carro acelerou e, novamente só e sem olhar para trás, ela foi em direção ao guichê da companhia de ônibus.
Ela não sabia que Graceland agora era um museu. Nem das dificuldades de se conseguir um visto para os Estados Unidos. Sequer o preço de uma passagem de avião para lá ou se, em São Paulo, conseguiria se apresentar e ser bem paga para comprar uma.
A única coisa que tinha agora era a chave que, em seu bolso, espremia entre os dedos como quem aperta uma certeza. Ela estava certa de que, quando chegasse à porta de seu destino, a enfiaria na fechadura. E em Elvis não havia dúvida de que o tambor, silenciosamente, iria girar e, então, lhe dar passagem.
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