Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
19 ago 2010
Ela perguntou-lhe, afinal, enquanto segurava o volante e desviava o olhar da avenida, se o fato de ele estar apaixonado era bom ou mau. Talvez tivesse sido o tom com que dissera.
- É bom.
Ela então, voltando os olhos para o caminho, lhe fez um carinho.
Antes, no entanto, por diversos motivos ele viu escaparem as palavras por seus lábios, quase como se não fosse ele que dissesse – mas sem dúvida que era, pois que aqueles sons correspondiam exatamente ao que sentia. E aquilo que ele disse, como se fosse outra pessoa, mas mais do que nunca sendo ele mesmo:
- Estou apaixonado por você.
Foi então que ela perguntou-lhe se era bom ou mau.
- É bom.
Foi o que ele respondeu. Um pouco por achar bom, um pouco por não querer dizer sobre o que há de mau em estar apaixonado. Um pouco por acreditar que ela sabia dessas coisas.
Talvez, por isso tenha dito pouco depois, enquanto ela acariciava sua mão:
- Precisei dizer. Desculpe.
- Desculpe por quê?
E a verdade é que ele não sabia por que aquele pedido de desculpas saíra quase tão biologicamente de sua boca quanto a primeira frase.
Talvez tenha saído por saber que estar apaixonado tem seus lados maus. Talvez por saber que o tempo que passara ali até então a milhares de quilômetros longe de casa se esgotava. Talvez porque aquela antiga cidade do outro lado do gigantesco país e da qual agora conhecia as lindas ruas era apenas uma desculpa para vê-la. Talvez por saber que, houvesse o que houvesse, teria que voltar dali a poucos dias. Talvez por achar que toda a terra que cruzou era uma distância menor que aquela entre seus verdadeiros desejos e o que poderia obter, quase como se a simples possibilidade oferecida pela distância pudesse ser melhor que as certezas e as dúvidas da proximidade. Talvez porque quando se está apaixonado você quer sentir-se algo como um deus, mas é apenas um humano admitindo o estado de bicho. Também porque as paixões – amorosas ou não – são como um concerto em que um instrumento passa a tocar mais alto que os outros e não conseguimos assim prestar a atenção nas outras emoções que, apesar de estarem ali, são sobrepujadas.
Talvez porque a frase “estou apaixonado por você” tivesse saído tão naturalmente que fosse como se ele não se importasse com as consequências pra si, pois tais consequências já não estavam mais em tão somente expressar, mas principalmente naquilo que estava objetivamente expresso, fora do mundo das palavras, sem que ele tivesse a possibilidade ou mesmo a intenção de controlar.
Enfim, possivelmente, por racionalmente acreditar que existem sentimentos mais sutis e nobres e duradouros que pode haver entre duas pessoas, mas irracionalmente se lixar para isso, como quem pula do carro em movimento só para ver se a roupa amarrota.
Ou por saber que sob as ondas agitadas havia um rio a correr na direção correta.
Portanto, não, não se desculpava, nem por ele, nem a ele, nem por ela, nem a ela.
- Estou apaixonado por você – disse ele.
Faz parte disso tudo não saber o que vai acontecer depois. O desenrolar das histórias costuma sair mais naturalmente dos segundos, minutos e horas (anos, por vezes) do que as palavras saem de uma boca, por mais apaixonada que ela esteja.
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