Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
5 ago 2009
É fácil ser emo. Digo. É fácil ser emo hoje em dia.
Você seria emo, digamos, na Idade Média?
É fácil ser qualquer coisa atualmente. Na maior parte das vezes tudo é uma questão de corte de cabelo.
Se você não tem cabelo, uma peruca resolve. Às vezes, a questão é justamente não ter cabelos.
Atualmente, dizem as revistas especializadas e tudo o que ouço nas rádios, para ser músico basta ter uma guitarra. Você nem precisa saber tocá-la.
Para ser forte basta injetar alguma coisa na veia. Ler um livro de auto-ajuda também pode auto-ajudar nesse processo de auto-fortalecimento.
Para ser punk, é suficiente saber dançar dando chutinhos. Para ser músico clássico, estude muito Chopin. Para ser surdo, fure os tímpanos.
Também ouça músicas punk e muito Chopin. Compre um mp3 player bem caro para ouvir tudo isso. E mesmo surdo você também pode comprar um mp3 player. Você não precisa de audição para comprar: consumir dispensa sentidos.
Para ser blogueiro, abra uma conta no blogger. É grátis. Mas você também pode pagar uma hospedagem e um domínio próprio. Nem é tão caro.
Se você quer ser pastor, segure uma bíblia e combine milagres com alguém. Com um aleijado fake.
Você também pode ser aquilo que você come. Ou querer ser aquilo que come você.
Ou pedir para alguém dizer o que você é olhando para aqueles com quem você anda. Você pode ser aqueles com quem você anda. E com quem você tem andado ultimamente?
Você pode ser a sua história. As mulheres ou homens que amou e deixou de amar. Os empregos que teve. As surras que levou dos pais.
É fácil ser um empresário bem-sucedido. Primeiro, um assessor de imprensa dirá isso a todos. E, depois, um Porsche dirá isso a todos.
Sim. Sempre lembre de comunicar o que você acha que é e quem você acha que se tornou.
Se possível, garanta que haverá uma reportagem da Globo, para mostrar como você veio das camadas humildes da população.
Use uma camiseta que diga sobre você. Não contente, grave na pele. Tatue. É fácil ser tatuado. Basta pagar para alguém fazer isso.
É fácil ser emo. É fácil ser qualquer coisa hoje em dia. E nem é preciso muito dinheiro. Alguém certamente já criou uma opção popular para a comercialização de sua revoltinha particular e de sua revoltinha coletiva também.
Claro, claro. Também temos opções de luxo, cara-pálida. Temos revistas sobre revistas de luxo, inclusive. Punhados delas.
Há uma garrafa de água mineral que vem com um pequeno diamente dentro para a geração saúde mais abastada.
Navalhas de ouro para pulsos depressivamente ricos.
Muito em breve, teremos a vida eterna na prateleira dos mercados e um repórter perguntando à primeira consumidora como ela se sente sobre isso.
Mas – com tantas opções e tão acessíveis – quem precisa sentir alguma coisa, hoje em dia?
Afeto, perda, raiva, vingança, amizade, honra, honestidade, sinceridade, inveja, caridade, compaixão, desejo. Todas essas coisas e muitas outras já têm seu equivalente em cadeias plásticas facilmente moldáveis e também na web 2.0, 3.0, 4.0 e o que vier mais e alguém puder inventar, em versões alfa, beta e teta.
Ontem, por exemplo, lançaram a versão provisória do amor. Clique aqui para se inscrever. Só estão esperando mais usuários aderirem para lançar a versão seguinte. O único fato que consigo prever é que o tempo entre o lançamento de uma versão provisória e outra será cada vez menor. Versões cada vez mais provisórias.
É fácil ser Emo. Sério. É fácil, hoje em dia, ser até mesmo Shakespeare, Buda, Gandhi, Jesus, Einsten. É fácil ser qualquer coisa atualmente.
Mas, ei. Vem cá. Será que você ainda consegue ser…
… você?
(Fotografias: Fabrícia Koppe. Modelo: eu. Participação especial e imprescindível: peruca)
3 comentários para "É fácil ser emo"
Me encantó. Todo todo. El texto y las fotos. Y la peluca… y los colores de las paredes. Los cuadros, los muebles, las llaves en la puerta.
Será que consigo seguir siendo yo después de leer esto?
Sermos nós mesmos é um esforço constante de disciplina e constância… acho que talvez seja simples… só uma questão de prestar atenção… mas não sei… quando eu conseguir ser eu mesmo aviso a todo mundo
Beijos do Ale.
Adorei. Costumo detestar pessoas que não sejam elas mesmas. Que não sejam eu.
abração
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