Eu nem me preocupava com essas coisas antes de conhecer você.

E os dias eram uma seqüência de dominós, um derrubado pelo anterior, derrubando o seguinte. Até que o último caísse da mesa para o chão.

E eu nem contabilizava o valor de cada peça. Não avaliava a distância entre a mesa e o chão ou mesmo se chão havia.

Cada uma tinha o mesmo valor. Zero de cada lado. Um de cada lado, se tanto. Um ponto branco na superfície de plástico preto e barato. O suficiente para, em um jogo, ligar uma peça à outra.

É um jogo, não é mesmo? Isso. A vida.

Enfim, as peças eram todas iguais e tinham um valor baixo, caindo com a constância e a regularidade do sol que nasce e se põe.

Bem simples.

E certa vez – não sei se entre o cair de uma peça ou o empurrar de outra – encontrei com você. Na rua. Talvez tenha sido antes. Sei lá. Os momentos mais determinantes da vida às vezes acontecem antes de acontecer. Mas não quero confundir isso com destino.

Me recuso a pôr uma maçã sequer nas mãos de algo misterioso e que talvez nem exista. E, caso não exista, não existem então as mãos, e há a possibilidade disso tudo escorregar por dedos de vento. E assim não quero.

Não quero jogos de azar. Quero a solidez do mármore e o calor do barro na mesma pedra. Quero uma pedra viva, do tamanho da história, como um diamante, mas – como um diamante – que não tenha visto a história. Inocência é diferente de ignorância, pois consigo pensar em um diamante que seja inocente, mas ignorante não.

E, então, só por tê-la encontrado, um dia, na rua, eu tenho essa rocha nova no peito, fervente e vulcânica. E, de repente, passei a contar os pontos do jogo. Os valores das peças umas a se encaixarem nas outras. E seus olhos me fizeram ver que todas valiam mais do que eu achava que valiam.

E eu nem me preocupava com essas coisas antes de conhecer você. Sobretudo, eu nem me preocupava com o fim da mesa e a altura que há entre ela e o chão.

Afinal, vou deixar de metáforas.

Há vida após a morte?

Porque a verdade é que tenho dificuldade agora de aceitar qualquer coisa que venha depois disso tudo que não inclua você. Não tenho medo de ser nada. Tenho medo de ser algo sem você, no entanto.

Pois você garante – só por respirar perto de mim – que haja vida antes. Durante o seu sono, só a sua presença é suficiente para sustentar o manto da noite.

Era isso o que eu queria dizer e fiquei me enrolando um pouco.

Bem simples.

E as coisas andam umas atrás das outras, os dias, as tarefas, os compromissos, como se tudo fosse eterno. Como se nós mesmos fôssemos eternos, mas somos mortais. Foi-se o tempo em que eu, criança, julgava que dizer-nos mortais era um elogio.

Sou mortal. Logo, morrerei um dia. Nada mais certo que isso, o igualar dos mais profundos e nobres pensamentos à poeira. E você também morrerá um dia.

Algo em mim – a fé nos faz sábios e tolos a um só tempo – faz acreditar que há algo além. É uma certeza impossível de ser provada. Experimentada apenas individualmente e eu sei que você também a experimenta. É uma espécie de oração intraduzível.

E agora tenho essa mesa, com os tais dominós derramando-se em todas as direções, em todos os seus valores possíveis e, finalmente, quando o último deles cair, estenderei a mão para ampará-lo. Trarei o punho fechado até próximo do rosto, abrirei os dedos e contarei o valor da peça.

Só uma formalidade. Pois apenas por tê-la desde então como parceira, sei que venci.

Eu nem me preocupava com isso antes de conhecer você e portanto quero que saiba que é um privilégio, uma alegria, uma dádiva inesquecível compartilhar esses anos ao seu lado.

Que venha o depois. Sou, por sua graça, um homem sem medo.

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